“ESCREVI no meu último texto que esta semana que passou iria ser decisiva para o futuro próximo do FC Porto, com os dois jogos contra o Arsenal de Londres e o de Braga e a iminente leitura da sentença que o Justiceiro congeminava para Hulk e Sapunaru. Mas acrescentei que é justamente nestas alturas que o clube e a equipa se agigantam. E assim foi: no que dependia da equipa, os resultados foram os melhores; no que dependia dos seus inimigos, foram maus, claro, bem piores do que a vergonha permitiria supor. Sigamos, então, a ordem destes cinco dias vertiginosos para os portistas.
FOI um jogo magnífico na primeira parte e terrível na segunda. O Arsenal, mesmo desfalcado de jogadores como Almunia, Arshavin ou Van Persie, é uma equipa fabulosa — como rapidamente se pôde ver no tapete do Dragão. E só foi pena que o FC Porto, mais uma vez, tenha começado por perder dois golos logo de entrada, porque não aparecem oportunidades assim contra equipas destas em todos os jogos. Mas, no resto, o FC Porto fez um jogo tremendo — de esforço, de bom futebol, de capacidade de resistência e de jogar a um ritmo que diz muito do profissionalismo com que se trabalha naquela casa: nenhuma outra equipa portuguesa, como se tem visto ao longo dos últimos anos, é capaz de sustentar um jogo a este nível e disputá-lo do primeiro ao último minuto.
O FC Porto acabou por ter a sorte do jogo na forma como obteve os seus dois golos (o segundo, digo–o contra nós, não deveria ser permitido — embora o Bayern também já nos tenha eliminado assim uma vez). Mas em campo esteve, pela primeira vez, aquele que considero, jogador por jogador, o melhor onze possível. Todavia, acusando e muito a debilidade física e falta de ritmo de jogo de alguns regressados: Raul Meireles, Fernando, Hulk. Para além disso, repetiu-se essa estranha debilidade no jogo aéreo estático do centro da defesa portista, a permitir o golo do Arsenal (como depois permitiria igualmente o do Braga): é muito estranho como é que Rolando e Bruno, imperiais no jogo aéreo em movimento, se tornam vulneráveis nas bolas paradas pelo ar…
Mas há ali à solta um trio de luxo neste FC Porto, que tem conseguido ultrapassar castigos e lesões, sobrecarga de jogos e ausência de um banco à altura: é o trio Álvaro Pereira, Ruben Micael, Silvestre Varela. Seguramente, que Carlos Queiroz está atento aos dois últimos; seguramente que o CD da Liga está atento a todos eles e mais o Falcao. Vai ser preciso ultrapassar sarrafadas, emboscadas em túneis e árbitros comanditados. Não vai ser fácil, não — assim como não vai ser fácil segurar esta débil vantagem em Londres, dentro de quinze dias. Mas, pelo menos, os outros que têm chegado à Liga dos Campeões quase sempre exclusivamente por mérito nosso, podem-nos agradecer mais dois pontos arrecadados para o ranking da UEFA. Vá lá, agradecem, que só vos fica bem.
APESAR de todo o seu gosto pelas encenações grandiosas, apesar da sua retórica pseudo-jurídica para parolos e ignorantes, o Dr. Ricardo Costa é demasiadamente previsível. O homem tem uma obsessão, que não há como esconder: perseguir o FC Porto, como ninguém mais. Debalde, se tentará embrulhá-la em sinuosas teses jurídicas, que a ignorância jornalística ou a má-fé militante consentem apadrinhar. Facto é que todas as suas teses de direito acabam derrotadas por quem de direito: quis pôr o FC Porto fora da Europa e da primeira Liga e acabou posto no lugar pelo Comité de Disciplina da UEFA; mandou silenciar Pinto da Costa por dois anos e acabou enxovalhado pelos tribunais, que reduziram a nada o suposto crime e os supostos factos pelos quais ele condenou o presidente do FC Porto; e agora, retirou a dois profissionais de futebol o direito ao trabalho por uma larga temporada, e mais tarde será, obviamente, desautorizado. O problema é que, enquanto pode e o deixam, enquanto inventa teses jurídicas e não é posto na ordem por quem o pode fazer, ele causa danos — e esse é o resultado prático da sua «justiça».
As teses jurídicas do Dr. Ricardo Costa fazem-me lembrar o que se contava na minha Faculdade de Direito de Lisboa, a propósito da tese de doutoramento do professor Soares Martinez. Contava-se (não sei se como lenda ou verdade) que, depois de o ouvir dissertar, o Professor Marcelo Caetano, arguente da tese, lhe disse: «A sua tese tem partes boas e partes originais. Infelizmente, as partes boas não são originais e as originais não são boas».
O mais original (e previsível) da última tese jurídica do Dr. Ricardo Costa é a doutrina que ele acaba de criar de que os seguranças contratados por um clube — sem acreditação da Liga nem sujeitos à sua alçada disciplinar — são «agentes desportivos». Porque, repito-o mais uma vez: A LEI NÃO DIZ QUEM SÃO OS AGENTES DESPORTIVOS. E, de forma alguma sugere ou permite concluir que os seguranças o sejam: quem o diz é o Dr. Ricardo Costa. E di-lo, porque essa sua original interpretação da lei é a única que permite retirar dos relvados por uma temporada absurda dois jogadores do FC Porto. Por isso, quando ele se escuda na «dura lex, sed lex» para justificar o injustificável, estamos perante um vulgar exercício de malabarismo: a lei não diz nem permite inferir aquilo que o Dr. Ricardo Costa afirma que ela diz. A lei não é ele e isto não é o Texas.
Se, como ele sustenta, os seguranças (cuja única missão é vigiar o público, e não vigiar jogadores, fazer-lhes uma espera em atitude de desafio dentro do túnel e provocá-los quando eles vão para a cabina) são «intervenientes no jogo», então toda a gente que está no estádio é interveniente no jogo. Desde logo, os próprios espectadores — que, ao contrário dos seguranças (que passam o tempo todo de costas viradas ao jogo), puxam pela equipa da casa, vaiam os adversários, pressionam o árbitro, etc. E os apanha-bolas, que muitas vezes demoram ou apressam a reposição das bolas em jogo, conforme o interesse da equipa da casa. E os polícias, os arrumadores, os vendedores dos bares, os tratadores da relva, os que cuidam da iluminação, os jornalistas, os fotógrafos de campo.
Toda esta gente, segundo a brilhante tese do Dr. Ricardo Costa, são «intervenientes no jogo» e «agentes desportivos». Têm direito a um tratamento VIP, que até contempla um estatuto excepcional de direitos sem deveres: eles são intocáveis, para efeitos disciplinares de quem se atreva a tocar-lhes; mas são, simultâneamente, impunes e irresponsáveis, se forem para o túnel provocar desacatos ou até agredir jogadores e dirigentes. É isso que justifica que o Javi García, à vista de 50.000 pessoas no estádio e um milhão em casa, possa enfiar dois pontapés num adversário e continuar a jogar, enquanto espera pela decisão de um «sumaríssimo» que, na pior hipótese, o vai suspender por dois ou três jogos; mas o Hulk e o Sapunaru, que responderam a uma provocação num túnel e, no meio da confusão geral, terão dado respectivamente, um e dois murros num segurança, à vista de meia-dúzia de pessoas (e muito gostaria eu de saber como foi feita a prova…), esses, ficam preventivamente suspensos durante dois meses e depois levam 25 e 35 jogos de suspensão. Repito: quem permite isto não é a lei: é a interpretação que dela quis fazer o Justiçeiro. E que já se adivinhava desde o primeiro dia — bastando para tal ler o tom eufórico da imprensa desportiva lisboeta.
Porque isto é tão escandaloso, tão chocantemente evidente, julguei que, mesmo com as rivalidades e ódios exacerbados, quem quer que goste de futebol se indignaria. Mas, não: um tal Dr. Pragal Colaço, jurista, e um tal Araújo Pereira, humorista, ainda estranharam a benevolência e as «atenuantes» que o Dr. Ricardo Costa, compungidamente, enunciou. É assim, sem disfarce, que aspiram a ser campeões.
ELES jogam nos túneis, nós jogamos no campo. E, por isso, senhoras e cavalheiros, servimo-vos esta noite o melhor jogo de futebol a que este campeonato já assistiu. Porque, por mais que eles inventem apitos e carolinas e paixões e ricardos, nós respondemos sempre no campo, à vista de quem quer ver, à vista de quem gosta mesmo de futebol. Nestas ocasiões, é hábito deles sugerirem que vamos facilitar, só para dificultar a vida aos rivais. Assim foi há dois anos, quando o Guimarães era «amigo» e disputava uma vaga na Liga dos Campeões com o Sporting: fomos lá e demos-lhes cinco. Agora, também as Virgens da Verdade Desportiva insinuavam que iríamos facilitar contra o «amigo» Sporting de Braga: demos-lhes cinco e podiam ter sido sete ou oito.”
Miguel Sousa Tavares in a Bola

1 Parece que meio País não faz outra coisa que não escutar, deliciado, conversas alheias. Se conheço as escutas? Bem, eu não conheço outra coisa, fui criado com as escutas telefónicas. Quando eu era pequeno, em casa dos meus pais, todos nós sabíamos e sentíamos que a PIDE escutava todas as conversas. Era o tempo dos telefones fixos e a tecnologia das escutas não estava desenvolvida ao ponto sofisticado a que hoje está: nós ouvíamos distintamente os «cliques» das gravações, quando a fita chegava ao fim, e às vezes até conseguíamos ouvir a respiração do PIDE de escuta. Também a correspondência da casa era aberta e lida e, por vezes, roubada (apareceu depois nos arquivos da PIDE). A sensação de ter a toda a nossa correspondência e conversas privadas devassadas por outrem não é explicável: é preciso ter passado por isso para o entender.
Quis o destino que, anos mais tarde, o meu primeiro emprego fosse justamente na Comissão de Extinção da PIDE/DGS, onde estive poucos meses — até ter percebido que havia forças políticas que tinham tomado o controlo da Comissão e do Forte de Caxias e cujo objectivo não era o de fazer justiça aos abusos da PIDE e levá-los a julgamento, mas, sim, o de guardar o material explosivo que a PIDE tinha reunido sobre diversos cidadãos e aproveitá-lo eventualmente em proveito próprio. O que tornava esse material explosivo era exactamente o conteúdo das escutas a que diversas figuras da oposição tinham sido submetidas anos a fio. Bastou-me ler dois ou três exemplos do conteúdo de escutas (e mais já não consegui ler) para entender esta grande verdade: não há ninguém, absolutamente ninguém, que não tenha conversas privadas que não podem ser expostas em público. As escutas policiais são uma forma de devassa e de violência sobre a privacidade alheia, que só circunstâncias absolutamente excepcionais e sob apertadíssimo controle judicial é que podem justificar. Infelizmente e à revelia do que a Constituição democrática veio estabelecer sobre a inviolabilidade da correspondência e o direito à privacidade, as escutas estão hoje banalizadas na investigação criminal, ao ponto de se terem tornado na prova absoluta, quando não única. Como muito bem escreveu o «Times», a propósito da investigação do «caso Maddie», a investigação criminal em Portugal continua ainda refém da técnica única da auto-incriminação dos suspeitos: ou pelas escutas das suas conversas ou pela confissão dos próprios — espontânea ou «induzida». Mas não apenas as escutas se banalizaram como método de investigação: banalizou-se a divulgação do seu conteúdo para a imprensa, ao arrepio dessa anedota chamada «segredo de justiça», banalizou-se a falta de controlo sobre o destino das gravações e sobre a sua efectiva destruição, em caso de arquivamento ou sentença transitada, como manda a lei. Rio-me sempre que vejo o nosso PGR, o dr. Pinto Monteiro, a anunciar «rigorosos inquéritos» depois de consumadas as violações. Também agora ele anunciou mais um inquérito, que fatalmente acabará em nada, para saber como é que as escutas do Apito Dourado chegaram ao YouTube e à imprensa. Eu acho que o inquérito deveria ter outro objecto: saber por que é que o sr. procurador não se incomodou antes a certificar-se que as gravações tinham já sido destruídas, como manda a lei? Aposto que qualquer dia temos aí publicadas as escutas das conversas entre José Sócrates e Armando Vara, que, todavia, foram mandadas destruir por ausência de indícios incriminatórios. Eu aposto…
Pois então, parece que meio País anda ocupado a perder horas do seu tempo a escutar as conversas que outros escutaram a Pinto da Costa e Valentim Loureiro. E apesar de, ao que dizem, elas nada conterem de novo em relação àquilo que, a conta-gotas e oportunamente, foi sendo divulgado ao longo do Apito Dourado, o interesse popular não diminuiu, antes pelo contrário. Não me admira nada e por duas razões: primeiro, porque o «povo» quer fazer justiça por suas mãos e não se conforma que a Justiça, ela própria, o não tenha feito (foi comovedor o texto do José Manuel Delgado, anteontem, a pedir ao povo que não condene sumariamente a Justiça por esta não ter condenado Pinto da Costa, pois que os juízes, coitadinhos, andam assoberbados de trabalho e às vezes distraem-se…); em segundo lugar, porque o prazer das escutas está em ouvi-las e não em lê-las: é isso que satisfaz os desejos de voyeurismo e devassa alheia de um verdadeiro escuteiro — é melhor do que espreitar pelo buraco da fechadura. Não, a mim não me admira nada que a PIDE tenha escutado livremente durante cinquenta anos e que a Ditadura se tenha assim imposto ao respeito de um povo que é capaz de transformar a devassa da intimidade alheia em desporto nacional.
2 Como sempre escrevi, o que fez o Apito Dourado nascer torto desde o princípio foi o carácter selectivo dos seus alvos. O Apito Dourado não visou apurar, de cima a baixo, as eternas suspeitas que pairam, e continuam e hão-de continuar sempre a pairar sobre o futebol português. Se esse fosse o objectivo, haveriam de ter sido escutados não apenas dois alvos — Pinto da Costa e Valentim Loureiro — mas, sim, dezenas deles. E houve um episódio sintomático que veio confirmar isto mesmo. A certa altura do entusiasmo jornalístico com o Apito, o «Público» publicou, inesperadamente, o teor de uma escuta entre Valentim Loureiro e Luís Filipe Vieira (apanhado por arrasto no telefone de Valentim). E o seu conteúdo não podia ser mais óbvio: Vieira telefonara a Valentim a pedir-lhe o afastamento de um árbitro escalado para apitar um Belenenses-Benfica e os dois juntos foram desfilando nomes de árbitros, até que, ao quarto nome, Vieira se deu, enfim, por satisfeito. Mas não sem que antes, e no meio da conversa, tivesse deixado escapar esta frase intrigante: «Como sabe, tenho outras maneiras de resolver o assunto». A divulgação desta escuta caiu como uma bomba no terreno de batalha errado. Nesse mesmo dia, Vieira convocou uma conferência de imprensa, onde se limitou a dizer que não respondia a perguntas nem falava dos factos, apenas avisava os benfiquistas que estivessem alerta contra essas «manobras»; porque mais haveriam de aparecer. E sucederam, então, três coisas curiosas: uma, é que não apareceu mais nada, ao contrário do que ele tinha previsto; outra, é que ninguém, no CD da Liga, achou que uma combinação de árbitros entre o presidente de um clube e o presidente da Liga (que lá tinha sido posto por aquele) violasse a «verdade desportiva»; e a terceira, é que nem o CD nem o Ministério Público acharam que houvesse qualquer interesse em chamar o presidente do Benfica para que este explicasse o que queria dizer com aquela frase de que tinha outras maneiras de resolver assuntos daqueles.
Pois é: há escutas e escutas. Ora, divirtam-se com estas!
3 Também parece que o célebre túnel da Luz tem incidentes gravíssimos e incidentes banais. Os do passado dia 20 de Dezembro foram gravíssimos, embora ainda não julgados. Já os do Benfica-Porto da época passada, parece que estão prescritos ou que não há prova ou que na altura não foram tidos como nada de mais — tal como outros que consta por lá terem acontecido. Sempre, sempre, nesse misterioso túnel da Luz, transformado em território decisivo para o desfecho do campeonato.

4 Na última página da edição de domingo de «A Bola» li um curiosíssimo artigo, que me deixou a meditar. Embora o mesmo seja anónimo (o que não é prática da casa), o seu teor aponta para alguém dentro do próprio CD da Liga (a menos que o autor seja um desses «fretistas» de que falava o texto de Rogério Azevedo na mesma edição). De facto, só alguém dentro do CD pode revelar um tão íntimo conhecimento do processo de averiguações aberto a Hulk e Sapunaru, ao ponto de falar na «abundante prova testemunhal» recolhida contra eles e acrescentar que, embora a lei não permita a incriminação com base nas célebres imagens nunca vistas mas já sobejamente conhecidas, o CD encontrará o expediente para se aproveitar delas. Mais curioso ainda é quando, para tentar justificar o injustificável escândalo de uma suspensão prévia que vai já em cinco jogos, se escreve que essa demora está «plenamente dentro de uma média que tem oscilado entre as quatro e as oito semanas, o que esmaga por completo a tese da extraordinária morosidade deste processo». Eu li e confesso que quem ficou esmagado fui eu. Primeiro, porque não é normal este jornal tomar uma posição de princípio, e tão veemente, sobre processos disciplinares em que nem sequer a acusação é ainda conhecida. Depois, porque bem gostaria que me dissessem quais foram os outros casos de suspensão prévia de jogadores por um período de quatro a oito semanas. E, enfim, porque em abono da tão invocada verdade desportiva e da verdade do futebol jogado em campo, eu acharia que «A Bola» mais depressa se bateria para que um jogador como Hulk não ficasse de fora do jogo dois meses, apenas à espera da sentença. E se, em vez do Hulk, fosse o Saviola?

Miguel Sousa Tavares in “A Bola”


1 Desde que esta época se iniciou, eu tinha feito a mim mesmo uma promessa: aguentar-me até ao limite para não dar alento nestas crónicas ao clima habitual de facciosismo cego que alimenta ódios e suspeições sem fim e impede de ver e reconhecer o mérito alheio onde ele existe. Já lá vai decorrido meio campeonato e nunca, uma só vez que fosse, me pronunciei sobre arbitragens: quer as do meu clube, quer as dos outros; elogiei, mais do que uma vez, os progressos evidentes do futebol do Benfica, escrevendo que era a equipa que mais e melhor estava a jogar, e não tive uma dúvida em reconhecer como mais do que justa a sua vitória recente sobre o FC Porto. Fiz o que pude para a sanidade do ambiente. E aguentei-me até onde consegui. Mas, às tantas, as coisas começam a ficar difíceis de encaixar sem reagir. Anteontem, por exemplo, ao ler o texto, pretensamente engraçadinho, do Diogo Quintela, achei que a direcção do FC Porto deveria abandonar a sua tradicional passividade litigante e colocar-lhe um processo-crime por difamação, como o seu texto amplamente merece. Talvez ele prefira a justiça popular à justiça democrática, talvez prefira a verdade popular à verdade apurada como tal; talvez as sentenças da justiça comum (e não a da populaça futobolística) lhe não mereçam respeito algum, talvez mesmo nem sequer se dê ao trabalho de as conhecer. Mas certamente sabe que insistir em mentiras desmascaradas pela justiça é uma calúnia e sabe que ofende, não apenas o presidente do FC Porto, mas todos os portistas, quando se diverte a escrever pretensos diálogos em que Pinto da Costa compra um árbitro por 2.500 euros. Goebells dizia que uma mentira repetidamente dita transforma-se em verdade. Mas Goebells perdeu e as democracias triunfaram. Talvez Diogo Quintela não goste, mas é assim: há regras no jogo. O FC Porto também deveria abandonar a sua passividade litigante no processo que aí vem e que se adivinha tumultuoso, do Conselho de Disciplina contra meia equipa do F.C.Porto, a propósito daquilo a que cada vez mais me sinto tentado a chamar «a emboscada da Luz». E isso deveria começar pelo levantamento de um incidente de suspeição contra todo o elenco do CD e, muito em especial, contra o seu presidente, o Dr. Ricardo Costa. A história recente da «justiça» do CD está cheia de factos que demonstram mais do que suficientemente a senha persecutória do Dr. Costa e do CD contra o FC Porto. Este órgão e este presidente não dão garantias mínimas de isenção para julgar o FC Porto. Têm dúvidas? Não sei se repararam como, há uns dias atrás, o Dr. Costa fez divulgar, através de jornalistas de confiança, a informação da decisão «inédita» que o CD havia tomado de recorrer de uma sentença do seu próprio órgão de recurso, o Conselho de Justiça (primeiro para o Pleno do próprio CJ, depois, ao que se anuncia e em caso de insucesso, para o tribunal administrativo). Sem dúvida que a decisão é inédita e até estranha — ou não, como veremos adiante. Como notou José Manuel Meirim, no Público, é inédito e estranho que um órgão recorrido recorra da decisão do órgão de recurso (é assim como se o tribunal da Relação pudesse recorrer de uma decisão do Supremo), e leva a que o CD abandone o seu papel de juiz para assumir o de parte numa questão: a tanto leva a vaidade do Dr. Ricardo Costa.

Mais estranho ainda é pensar que tanto empenho do CD tem por objecto apenas uma questão menor: o responsável pelas relações com a imprensa do FC Porto insultou um jornalista de serviço num estádio (coisa lamentavelmente frequente, com todos os clubes…). Que devia ser condenado, não há dúvidas: condenado por insultar um jornalista em serviço. Mas o Dr. Ricardo Costa queria mais e resolveu condená-lo por insultar, não um jornalista, mas «um agente desportivo» — tese absurda e até insultuosa para os jornalistas, que o CJ, em recurso, obviamente não acolheu. E é desta decisão do CJ que o Dr. Costa resolveu recorrer, apostado em criar doutrina nova — como tentou fazer no passado, com resultados que o deveriam levar, se não a renunciar ao cargo, ao menos a um módico de pudor e contenção.

Agora, o curioso desta «inédita» decisão do CD — divulgada logo após os incidentes do túnel da Luz — é que ela aparenta ser tudo menos inocente. Reparem como tudo bate certo: se o Dr. Costa conseguir vencimento na sua tese de que um jornalista num estádio é um «agente desportivo», também poderá sustentar a seguir que um segurança num túnel do estádio é igualmente um «agente desportivo». E disso depende a possibilidade de aplicar a meia equipa do FC Porto aquelas demenciais penas de suspensão de um a seis anos, que o Regulamento Disciplinar contempla para as agressões a «agentes desportivos». Ainda chegará a vez de o vendedor de castanhas assadas à porta do estádio vir a ser declarado também «agente desportivo»… se isso servir para punir jogadores do FC Porto.

Sobre o que realmente aconteceu no túnel da Luz, estamos todos à espera de conhecer as já tão célebres imagens da longa metragem produzida pela Benfica- TV. Todos, não: meio mundo já as conhece. Eu já as ouvi relatadas por vários benfiquistas e ainda anteontem, aqui na BOLA, podia ler-se um pormenorizado relato dos pretensos acontecimentos no túnel, baseado, ou nas imagens, ou na versão que delas foi contada ao jornalista. «A BOLA sabe…», escrevia-se aqui. A BOLA sabe? E como sabe — viu as imagens, que é suposto terem sido entregues pelo Benfica ao CD da Liga e a mais ninguém? E, se viu, quem lhas mostrou — o Benfica ou o CD? E, se não as viu, como sabe — se não por relato de uma das partes, assumido como verdade indesmentível?

Pena que A BOLA não saiba outras coisas, a começar pelo que significa divulgar peças de acusação, antes mesmo de haver acusação, e de as divulgar em tais termos, que a defesa — (que nem sequer teve ainda acesso a nada, nem sabe qual é a acusação em concreto) — já tem a condenação escrita nas páginas dos jornais. E é pena que a BOLA não saiba também responder a outras questões essenciais: os seguranças têm o direito de estar ali? É habitual nos outros campos, estarem no túnel à saída dos jogos, misturados com os jogadores? Os seguranças do Benfica ficaram então no túnel, caladinhos e quietos, e foram inesperadamente agredidos por uma troupe de jogadores portistas que, já depois de fechados na sua cabina, resolveram sair cá para fora para os agredir? E A BOLA não sabe que, para além das cenas de pugilato do túnel, o essencial desta história é perceber o que faziam ali os seguranças do Benfica e qual foi o seu papel nos acontecimentos?

Para que não haja dúvidas, esclareço a minha posição: as agressões têm de ser punidas, primeiro criminalmente, depois no foro disciplinar. Mas aqui, na justa proporção à sua gravidade, ao motivo e circunstâncias da agressão e à representatividade desportiva dos agredidos — que é nenhuma. Até aí, todos estamos de acordo. Agora, fazer disto a arma decisiva para o Benfica ser campeão este ano, isso não! Tenham vergonha! Provem que são capazes de ser campeões no campo e não no túnel, que são capazes de ganhar um campeonato sem comprar a transferência de jogos de estádio e sem a colaboração dos amigos colocados em lugares de decisão na Liga, que, em tempos, Luís Filipe Viera declarava ser mais importante de ter do que uma boa equipa de futebol! Faccioso ou não, eu acho e sempre achei que o melhor deve ganhar e à vista de todos. E repito que, se o campeonato acabasse agora, o melhor era o Benfica. E até acho que fazia muito bem à nossa competitividade ter de volta um Benfica ganhador, mas como deve de ser. Porém, ainda falta meio campeonato e é desejável que ele seja disputado até ao fim em condições de igualdade. Depois de uma década de frustrações e mediocridade, interrompida apenas por um título que a ninguém convenceu, era isto que eu desejaria, se fosse benfiquista. Mas os auto-proclamados «moralizadores» do futebol português já provaram que não se contêm e que, debaixo da sua capa de virgens púdicas, não se preocupam muito com os meios para chegarem aos fins que ambicionam. É natural: os vencidos não gostam de lutar em campo aberto.

2.E o ano de 2010 abriu, aqui na BOLA, com mais uma daquelas periódicas entrevistas ao presidente do Benfica. Seis páginas — a capa, uma página inteira de elogios e quatro de auto-elogios, disfarçados de entrevista. E o dia de Ano Novo amanheceu cinzento e gasto. Tal qual o discurso do personagem.

Fantástica crónica de Miguel Sousa Tavares no jornal “A Bola”


E quem é Mário David, um obscuro deputado europeu do PSD, que queria que Saramago renunciasse à nacionalidade portuguesa e que o Governo português fosse declarado inimigo da liberdade de imprensa no Parlamento Europeu, por causa do caso “Jornal de Sexta”, da TVI, ao mesmo tempo que não acha que Berlusconi represente qualquer ameaça nesse campo? Bem, esse é o caso mais fácil de resolver: é alguém que quis ganhar notoriedade à custa de Saramago. Passará à história como um Sousa Lara, o que não é propriamente exaltante

Já o que Saramago diz sobre o Antigo Testamento e o Corão é um caso mais sério e, em minha modesta opinião, não pode ser descartado à conta de ignorância ou arrogância. Assim como não pode ser repudiado com o argumento – esse, sim, intolerante – de que está a ofender os crentes. Basta ter andado pelo mundo de olhos abertos e cabeça limpa, para constatar que, como ele diz, as religiões não servem para unir os homens, mas, pelo contrário e demasiadas vezes, para justificarem a intolerância, o ódio ou mesmo a barbárie.

É certo que, com “Caim”, Saramago ataca a que hoje é a mais tolerante, a mais democrática e a menos inquisitorial das religiões. Nenhum bispo da Igreja Católica o perseguirá com uma fatwa e nenhum católico fará mais do que insultá-lo nos blogues e redes sociais da net – onde o insulto é fácil, fértil e impune. Não é inócuo, mas, pelo menos, não é perigoso. É também verdade que Saramago se limitou a uma visão literal de um texto datado e inaplicado na prática há muito. É inteiramente legítimo do ponto de vista literário, não sei se será do ponto de vista crítico. Também o Corão, lido à letra, é “um manual de maus costumes” ditado por um deus que diríamos cruel e desumano. A diferença está em que o Corão, na sua interpretação literal, continua hoje a ser o guia e o texto sagrado de grande parte do mundo islâmico, que nele fundamenta o terror e algumas das formas mais iníquas e aberrantes de regulação das sociedades.

Enquanto que ao Antigo Testamento se seguiu o Novo Testamento e várias encíclicas, algumas maravilhosas, que hoje constituem os fundamentos teológicos do cristianismo – e com base nos quais, a Igreja católica, os seus servidores e seguidores fizeram e fazem obra notável em lugares do mundo onde ninguém mais faz. Continuar a querer ver o catolicismo e a Igreja Católica como a religião do Antigo Testamento e das fogueiras da Inquisição não é um exercício intelectual sério.

Que tudo isto foi também um golpe publicitário de quem é mestre e costumeiro nisso, é evidente. Mas tudo, em José Saramago, é vaidade e autopromoção. A começar pelo comunismo confortável de que ele se apregoa devoto, mas nada praticante. E a continuar com a fábula do seu auto-exílio em Lanzarote, zangado com a pátria por causa do Sousa Lara. Se há alguém que não tem razão alguma de queixa de Portugal é justamente o Nobel Saramago.

Não impede. Não impede que a persistência de um homem de 86 anos no seu “ateísmo professo”, como lhe chamou o padre Stillwell, me mereça respeito e atenção. Sem dúvida que seria um grande momento de reflexão o debate para que Saramago se declarou disponível com representantes da Igreja ou das comunidades judaica e islâmica. Muito mais além do que esta tranquilidade ideológica podre das sociedades massificadas por dogmas e verdades inquestionáveis.

2 A seguir ao Reader, chegou agora o Kindle, que promete tornar muito mais fácil e confortável a leitura de e-books. A troco de 300 euros e com um simples toque nos botões, tal como nos ipod, é possível aceder aos catálogos das grandes livrarias online e fazer desfilar um sem-número de livros já disponíveis (só a Amazon tem neste momento disponíveis 700.000 títulos – que não pagam direitos de autor por já ter expirado o respectivo prazo). No futuro imediato, e quando for regulado o pagamento de direitos de autor ainda vigentes, o leitor de e-books poderá, por um preço simbólico e sem ter de se deslocar a uma livraria ou fazer uma encomenda, seleccionar o livro que quiser e, se não gostar do início, passar logo a outro, sem gastar mais do que o preço de um café.

Calcula-se que dentro de cinco anos 20% do mercado livreiro já estejam tomados pelos e-books e, dentro de dez anos, as expectativas variam entre os 30% e os 50% . No mercado discográfico, o download das músicas, legal ou pirateado, já atingirá os 80% (os músicos sobrevivem dando concertos, mas os escritores não sabem cantar…) Mas a primeira coisa a morrer vão ser as livrarias: com 30% a menos de quota de vendas e sem poderem subir o preço dos livros sob pena de ainda perderem mais para as livrarias virtuais, só lhes restará fechar portas. Depois, morrerão as editoras, tal como as conhecemos, e, com elas, as distribuidoras. No mundo dos livros virtuais não há papel, nem capas, nem grafismo: não há objecto físico, há apenas um aparelho que tudo contém, uma Biblioteca de Alexandria que cabe no bolso de um casaco. E a seguir morrerão os autores – que, sendo pagos em percentagem sobre o preço de capa do livro, verão este descer vinte ou trinta vezes. Com o tempo, o livro-físico tornar-se-á um nicho de mercado, editado por alguns sobreviventes e destinado a alguns resistentes que não dispensarão os livros nas estantes, que conhecem de cor o cheiro e a capa de cada livro. Ao contrário do universo do “Fahrenheit 451”, os livros desaparecerão em fogo lento, sem necessidade de fogueiras nem fogos-de-artifício a celebrar o seu fim.

Assim nos projectam o futuro. Este é o cenário que está agora em cima da mesa. É certo que ainda é cedo para antever o que verdadeiramente se irá passar e que, à partida, tudo o que é novo tem um tom assustador. Porém, nos últimos anos temos assistido a uma aceleração incontrolável do mundo virtual face ao mundo que conhecíamos. Com tremendas vantagens, nuns casos, com tremendas perplexidades e consequências ainda por avaliar, noutros casos. Quem diria que qualquer cidadão, de telemóvel em punho, se pode tornar um jornalista freelance que fornece imagens de ‘vídeo-amador’ às televisões ou fotografias de paparazzo aos jornais? Quem diria que grande parte da produção da informação se transferiria dos jornalistas para os frequentadores de blogues e a discussão pública sairia do espaço dos media para o espaço da net – onde a formação de opinião se ‘democratizou’, isto é, se tornou instantânea, não verificada, anónima e impune nos seus abusos? E quem diria que essa informação e debate de opinião ‘democratizados’ anunciariam a morte iminente dos jornais? E quem diria que elas acabariam por fazer inverter a regra sagrada do jornalismo – noticiar o que é de interesse público e não o que é do interesse do público – levando os telejornais a abrir com o crime passional de Alguidares-de-Baixo e não com a Cimeira mundial do Clima?

Assim com os livros: mais livros, mais acessíveis, muito mais baratos, sem ocupar espaço algum e, ainda por cima, poupando as florestas. Não será esta uma legítima ambição dos consumidores? Valerá ainda a pena o esforço de tentar resistir e defender um mundo com jornais em papel e livros-objectos? E em nome de quê – da cultura, do prazer de ler jornais e livros em papel? Responderão que a liberdade de escolha é sagrada e que cabe ao mercado decidir. É uma armadilha fatal: porque hoje, no tempo da democracia e do mercado instantâneos, quando a maioria decide uma coisa a minoria é esmagada.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


Pus-me a pensar o que poderia Cavaco Silva dizer na sua “comunicação à imprensa” (em que à imprensa não eram admitidas perguntas) que pudesse justificar a surpresa de ter visto um Presidente envolver-se numa campanha eleitoral e contra o partido do Governo. Não apenas pelo caso das escutas, mas também pelo seu comentário, cirúrgico e cínico, à suspensão do Jornal de Sexta, da TVI.

Pus-me a pensar e não vi grande saída presidencial, na matéria das escutas. Porque os factos, já provados ou não desmentidos, falavam por si: primeiro, há um ano e meio atrás, e depois, a um mês e meio das eleições, o assessor de confiança de Cavaco, dizendo falar em seu nome, foi transmitir ao jornal “Público” que a Presidência suspeitava estar a ser escutada e espiada pelo Governo. Isto, na exacta altura em que a campanha do PSD só tinha um tema: a “asfixia” das liberdades e da sociedade pelo Governo controleiro do PS. Que nem sopa no mel! E mudo e quedo, sem desmentir as suspeitas assim lançadas pública e escandalosamente, ficou o Presidente, lá, na sua casa do Algarve, entretido a ver diplomas. E assim ficaria, não tivesse o “Diário de Notícias” desvendado os contornos da trama e obrigado Cavaco ao gesto dúbio de “fazer alterações na sua Casa Civil”. Foi então que o PSD se pôs a gritar em surdina que o PR estava a lançar sinais equívocos que poderiam, afinal, beneficiar o PS em vez de prejudicá-lo, e que o melhor era dizer logo tudo, antes mesmo que o povo fosse às urnas. Mas, justamente, aí é que estava o problema, como bem se percebeu pela sua comunicação ao país: o que tinha ele para dizer? Nada.

Assim, e excluindo desde logo a hipótese de ver o Presidente pedir desculpas pelo sarilho que engendrara ou consentira planeadamente, só vi uma maneira de ele se pôr a salvo: sacrificar em praça pública o amigo Fernando Lima (e é isso que se espera dos amigos dos príncipes, nas horas de aperto). Mas não: talvez tolhido pelo pudor e enraivecido pelo descalabro da sua conduta, vimos um Presidente fora de si, com cara de ódio e pose de majestade ofendida, a quem tinham ousado incomodar (“na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo a ver diplomas… exigindo que interrompesse as férias…). E, de suspeito, Sua Excelência passou a acusador, com uma leviandade que, vinda de um Presidente da República, arrepia.

Sim ele é que desconfia que “altos dirigentes do partido do Governo” se interroguem sobre o facto (aliás público e não desmentido) de membros do seu stafe participarem na elaboração do programa eleitoral do PSD; ele é que desconfia do timing da notícia do “Diário de Notícias”, e não da do “Público”, saída um mês antes e que deu início a toda a história; ele é que não percebe que alguém possa pôr em causa o legítimo direito de um seu assessor acusar o Governo de espiar o Presidente, sem ter de o provar; ele é que julga que o quiseram empurrar para a campanha eleitoral, e não que se empurrou a si mesmo; ele é que desconfia da veracidade do mail trocado entre dois jornalistas do “Público”, apenas com a autoridade que lhe dá o facto de ser quem é; e, enfim, num despropósito final e patético, ele é que se lembrou, no próprio dia em que se ia explicar ao país, de subitamente desconfiar da vulnerabilidade do seu computador pessoal, para assim justificar as “questões de segurança” sobre as quais tinham anunciado que iria falar.

Enfim, para tudo resumir, não fossem “os superiores interesses nacionais”, que, por vezes, obrigam um Presidente da República a “ser capaz de resistir a graves manipulações”, que ultrapassam “os limites do tolerável e da decência”, e Sua Ofendida Excelência diria aos portugueses, olhos nos olhos, o que verdadeiramente lhe vai na alma: que eles acabaram de reconduzir um governo de bandidos, que lhe interrompem as férias, espiam as comunicações, controlam a liberdade de opinião dos seus assessores e que ele, a bem da nação, terá de suportar enquanto não vir saída. Como comentava um amigo meu, todavia longe do universo PS, “será que ele nos toma a todos por mentecaptos?”.

Quando Cavaco Silva foi eleito, eu escrevi aqui que nunca tinha sido devoto do culto. Nunca lhe reconheci crédito de estadista nem mérito como governante. Nunca lhe conheci um pensamento político que não fosse estratégico apenas para si próprio nem agenda política que não fosse a do seu interesse pessoal. Nunca o vi gostar de correr riscos nem ter coragem nos momentos difíceis – quer em relação ao país quer em relação ao próprio PSD, que, em grande parte, ainda vive na ilusão de que Cavaco pertence à sua família política, como se ele tivesse alguma família política que não a sua própria. Mas escrevi também que, uma vez eleito, ele passava a ser o Presidente de todos os portugueses e também o meu.

Isso acabou terça-feira passada. O homem que se dirigiu ao país como Presidente de todos os portugueses já não o é mais. Colocou-se a si mesmo como Presidente de uma facção – dos devotos que lhe restam ou da maioria silenciosa e ignorante que não segue ou não entende a gravidade do que se passou. Por decisão própria, o Presidente da República tornou-se neste momento o principal factor de instabilidade, o principal obstáculo ao regular funcionamento das instituições democráticas, que jurou defender. Nada mais será como dantes. E não apenas entre o Presidente e o futuro governo: entre o Presidente e o país.

PS 1 – Regressado de três semanas longe, vim deparar-me com um espectáculo (mais um) inédito: todos os principais candidatos às legislativas e autárquicas desfilam, obedientes, tementes e esforçando-se para mostrarem sentido de humor, em entrevistas a um programa de entretenimento, cujos relatos têm depois ampla cobertura jornalística. Claro que não está em causa o valor dos Gato Fedorento, mas apenas o princípio: se a informação está agora a cargo dos humoristas, qual será o papel dos jornalistas no futuro breve – contar anedotas? Depois da política-espectáculo, eis que demos o passo seguinte: o espectáculo-política. E todos acham normal.

PS 2 – O meu travesseiro sabe as memórias infelizes que eu guardo das passagens de Pedro Santana Lopes pela Câmara de Lisboa. Mas a verdade é que o oiço propor várias coisas que me parecem tão evidentes quanto necessárias e simples: repor o trânsito normal na zona do Cais do Sodré/Terreiro do Paço; manter o aeroporto da Portela em Lisboa; impedir a terceira travessia rodoviária do Tejo; não aceitar a expansão do terminal de contentores de Alcântara. Não oiço nada disto à candidatura de António Costa. E aí está o dilema instalado: votar em pessoas ou votar em programas?

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“O sr. Antunes tem um estabelecimento comercial de esquina entre a Lagoa e Humaitá, no Rio de Janeiro. Tecnicamente, os brasileiros chamam a isto uma padaria, mas, de facto, é mais do que isso: vende bolos também, sumos, sanduíches, salgados e secos, rebuçados e coisas do género, e vende tempo – a donas de casa que não têm muito mais onde o gastar ou a velhos que já o gastaram todo e por aqui se quedam, de olhos distraidamente fixados na rua, aquela cor amarelada de muito sol e doenças pilhadas que se encontra no rosto de tantos cariocas já velhos. Vou lá de vez em quando tomar o ‘cafezinho da manhã’ – um ‘misto quente’, um ‘suco’ de abacaxi e uma chávena do horrível café brasileiro, porque o sr. Antunes nunca se abalançou ao grande investimento que representa uma máquina de café Expresso. E, enquanto espero e sou servido, sento-me ao balcão e observo a cena.

Trinta ou quarenta anos de emigração não trouxeram ao sr. Antunes ou à sua mulher um só laivo de ‘sotaque’ para suavizar a sua inconfundível pronúncia do português sibilante da Beira. Nem o calor o amoleceu, nem a humidade o vergou, nem os olhos perderam a capacidade de estarem permanentemente atentos a tudo o que se passa no estabelecimento, olhando como se não olhasse, sempre alerta, sempre desconfiado. Trata as empregadas por ‘menina isto’ ou ‘menina aquilo’ e guardou o velho hábito dos merceeiros de aldeia de andar sempre com um lápis preso atrás da orelha, com o qual retoma logo as suas eternas contas de somar e subtrair numa folha de papel que mantém sobre o balcão, assim que acaba de aviar um freguês e se certifica que nada à volta requer a sua atenção imediata.

A ‘patroa’ (que despreza a farda das empregadas) arrasta consigo um ar de tédio irremediável e conformado e parece olhar sempre para lado algum – ao contrário do marido, que nunca sossega nem se distrai no seu posto de comando. O olhar do sr. Antunes é duro, desagradavelmente duro. E basta ver os rostos fechados, silenciosos e tristes das empregadas da casa, para adivinhar o quão pouco estimado deve ser o sr. Antunes, aqui, no seu pequeno reino, no seu bairro, na sua vida de emigrante.

Há vinte, trinta anos, nos tempos da ditadura militar e da inflação a 1000% ao ano, as esquinas do Rio estavam cheias de portugueses como o sr. Antunes, com as suas padarias e confeitarias – que, desgraçadamente para eles, eram o primeiro local onde o ‘povão’ recebia o embate diário da inflação. Gerações de brasileiros cresceram a odiar estes portugueses, como se fossem eles a fabricar a inflação e não apenas o pão, como se fossem eles que roubavam a alegria das ruas. E só agora, que a geração dos srs. Antunes se retirou de cena ou conseguiu enfim voltar para as suas casas com palmeiras, lá, nas aldeias de onde eles ou os pais tinham partido, é que os brasileiros se foram dando conta de que nem todos os homens portugueses são merceeiros e nem todas as mulheres têm bigode.

Coisa impensável então, agora é comum ouvir os brasileiros puxarem pelas suas raízes lusitanas. Cento e cinquenta mil brasileiros imigrados em Portugal (e apesar de nem sempre bem tratados…) e a penetração que alguns portugueses e algumas coisas portuguesas começaram finalmente a ter no Brasil, estão a mudar, devagar mas consistentemente, a imagem de Portugal em terra brasileira.

E, todavia, o sr. Antunes não tem culpa do passado – nenhum deles teve culpa. Nenhum desse quase milhão de portugueses, absolutamente miseráveis, que entre 1870 e 1930, embarcaram (a maior parte de tamancos e apenas com uma trouxa na mão) para procurarem ali nada mais do que uma hipótese de sobrevivência. Foram para os cafezeiros do Vale do Paraíba ou para os seringais da borracha na Amazónia – nem Deus conseguiria imaginar em que condições desumanas, mas que poderá adivinhar quem se der ao trabalho de ler esse fabuloso romance que é “A Selva”, de Ferreira de Castro. Alguns, apenas, foram directamente para o retalho ou o negócio dos secos e salgados no Rio ou São Paulo – onde mais tarde se lhes vieram juntar aqueles que a sorte ajudou nas fazendas ou na borracha ou a nova leva dos que foram chegando de Portugal, ‘chamados’ pelos que já ali estavam. E em breve, os portugueses, fazendo o que de melhor sempre souberam fazer em qualquer parte do mundo, desde as tabancas de África até aos biddonvilles de França – isto é, comércio e mercearia -, tomaram conta do negócio, nesses anos trinta e quarenta do século passado.

A história é conhecida: de Joanesburgo a Dusseldorf, de New Bedford, Massachusetts, a Belém do Pará, o mundo está ainda hoje profusamente habitado pelo que resta desses emigrantes sem torna que, em tempos para eles gloriosos e já passados, se podiam gabar de serem essenciais ao equilíbrio da balança de pagamentos da mãe-pátria. Por mais desagradáveis que por vezes possam ser à simples vista desarmada os Antunes do planeta português, por mais que eles (e a RTP Internacional) ainda contribuam para espalhar por aí uma imagem de um Portugal felizmente já defunto, nenhuma, absolutamente nenhuma razão de justiça permite julgá-los ou desprezá-los pelo que quer que seja. Eles foram os portugueses que a pátria rejeitou, que viveram uma vida toda sem pátria, que morreram, muitos, longe da terra cuja ausência nunca conseguiram sarar.

Penso nisto, enquanto tomo o meu cafezinho da manhã no estabelecimento do sr. Antunes e meditando no que tinha lido antes de vir para cá, na net: os comentários online de leitores de dois jornais portugueses à campanha eleitoral em curso. Não sei francamente, que tipo de amostra representarão eles dos portugueses de Portugal. Não faço ideia, não me atrevo e nem desejo especular. Mas ali encontro, derramados em todo o seu esplendor (e como em tantos outros sites e blogues da net), os dois piores defeitos, se não mesmo características, do portuguezinho: a inveja e a cobardia.

A inveja dos medíocres para com os que se destacam ou triunfam, e a cobardia dos anónimos, dos que só têm coragem quando o inimigo está de costas ou a mão que atira a pedra é escondida. Já o disse uma vez e já o penso há muito: a net e o seu anonimato garantido parecem inventados de encomenda para servirem os piores defeitos dos portugueses. Não que a política ou os políticos não mereçam tantas vezes desconsideração ou mesmo repúdio. Mas o teor e a arrogante ignorância destes comentários, a viscosa inveja que deles transparece sem subterfúgios, o tom de ofensa e calúnia pessoal com que tratam qualquer político, as escabrosas difamações pessoais como argumento de razão, são simplesmente deprimentes e chegam a ser revoltantes.

Não conheço nenhum povo que trate assim o poder e os seus governantes, nenhum que tenha a soberba de achar-se sempre melhor, infinitamente mais sério e mais inteligente do que os seus governantes. Palavra de honra que, embora tantas e tantas vezes eu próprio me irrite e revolte com a política e os políticos, custa-me perceber como é que alguém ainda tem vontade de fazer política em Portugal: eu não aguentava nem quinze dias!

Repito que ignoro o que valem estas amostras ou as conversas de café que escutamos. Mas convém não esquecer que esta é a mesma gente que, enquanto amochava silenciosa e obedientemente durante cinquenta anos, fazia do Zé Povinho o herói nacional, símbolo da coragem cívica. Não percebendo que o Zé Povinho representa o pior de Portugal: o tipo que faz manguitos aos poderosos – não por serem poderosos, mas por os invejar. E que só o faz pelas costas. Porque, pela frente, come e cala, não arrisca nada de nada e vai para a net destilar inveja e despejar insultos sobre todos os que acha que ocupam o lugar que, por direito próprio, deveria ser seu. Ao contrário dos emigrantes, estes são auto-rejeitados de pátria.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“Espero que a liberdade de expressão, conquistada no 25 de Abril, não esteja em perigo” – deixou escapar Cavaco Silva, como quem não quer a coisa, como quem não mete as mãos na campanha eleitoral em curso, ao lado do PSD.

“Um dos mais graves atentados à liberdade de expressão desde o 25 de Abril” – anunciara na véspera, em tom de enterro, José Pedro Aguiar Branco, em nome do PSD. “Um acto de censura”, sentenciou Pacheco Pereira. “Uma asfixia democrática”, suspirou Manuela Ferreira Leite.

Nove dias de enxurrada, de lágrimas e lamentos de cristãos-novos da liberdade de imprensa – ou da liberdade, simplesmente. Mas, sintomaticamente, não se ouviu nenhuma carpideira atrever-se a tocar no essencial: o ‘Jornal de Sexta’, da TVI, era jornalismo isento, igual para todos, rigoroso e fundamentado? Não, tal ninguém se atreveu a dizer. Eis uma curiosa ameaça à liberdade: morre uma liberdade que ninguém se atreve a elogiar. Então, porque choram – só porque, como escreveu Pacheco Pereira, o ‘Jornal de Sexta’ “dava notícias incómodas para o Governo” e agora já não as dá? E porque dava muito jeito ter o jornal activo durante a campanha eleitoral?

Já se sabe que a suspensão do jornal foi ilegal e abusiva. Mas há uma questão anterior a essa e que, pelos vistos, não tem importância, e que é a de saber se a própria existência do jornal era admissível, sob o ponto de vista editorial e jornalístico. E se à quinta-feira também houvesse um jornal televisivo dirigido ad hominem contra a dra. Ferreira Leite? E à quarta-feira um contra o dr. Paulo Portas? E à terça-feira outro contra o dr. Francisco Louçã? Ou, pior ainda, se apenas existisse um jornal contra algum deles e todos os outros passassem incólumes? O que diriam Pacheco Pereira, Aguiar Branco, Cavaco Silva?

Recorde-se: o ‘caso Freeport’ nasceu três semanas antes das últimas eleições legislativas, através de uma carta anónima cozinhada entre gente ligada ao então primeiro-ministro do PSD e um agente da PJ (condenado por tal em juízo). O objectivo era só um: evitar a vitória iminente de Sócrates e do PS. Depois de quase quatro anos a dormir, o processo reanima-se à vista de eleições, sem que o Ministério Público tenha conseguido matar ou confirmar em tempo útil as suspeitas semanalmente alimentadas pelo “Sol” e pelo ‘Jornal de Sexta’ contra José Sócrates. O próprio procurador-geral da República (que país extraordinário!) diz não entender como é que o assunto ainda não foi esclarecido pelo MP. Mas a verdade é que não foi, pois parece que a grande questão é a de esclarecer se os magistrados do caso foram ou não pressionados durante um almoço por um colega, para concluírem o assunto rapidamente (o que, como se sabe, é a maior afronta que se pode fazer à Justiça). E eis então que, subitamente, de novo a três semanas das urnas, aparece nova carta anónima enviada ao processo, com “novos dados” – os quais logo aparecem no ‘Jornal de Sexta’ da TVI. Ó José Pacheco Pereira, você que adora teorias conspiratórias, não acha isto uma coincidência do caraças?

2

Dizem as boas almas que, independentemente do ‘tom’ e do ‘estilo’ do ‘Jornal de Sexta’, independentemente da verdade ou falsidade dos ‘factos’ contra Sócrates, foi ele que criou o caso, ao atrever-se a atacar o ‘Jornal’ de Manuela Moura Guedes (o Vasco Pulido Valente também já tinha explicado isto lá, no próprio jornal). Parece, pois que um tipo, pelo facto de ser primeiro-ministro, não pode sequer irritar-se com o banal incómodo de todas as semanas ser tratado como corrupto por uma televisão, com base num processo que supostamente está em segredo de justiça e onde ele, tanto quanto se sabe, nem suspeito é. Toda a gente poderá, pois, defender-se e contra-atacar se for publicamente tratada como corrupta. Mas não o primeiro-ministro (que, por dever de função, tem de ser o mais insuspeito de todos). A dra. Ferreira Leite que pense bem antes de aspirar ao lugar! Depois não se queixe, se provar do mesmo veneno…

3

Diz a doutora que Portugal vive em “asfixia democrática” – aliás, faz disso o tema central da sua candidatura ao governo. Ela vem para nos libertar da asfixia e eu quero crer que sim, embora me lembre bem dos tempos dos governos do doutor Cavaco, onde ela ganhou a alternativa política, e dos empresários que se queixavam de serem perseguidos por não alinharem com o regime ou por estarem ligados ao “O Independente” – onde o dr. Paulo Portas se queixava do mesmo mal, por outras palavras e com mais veemência. É o que dá ir para velho: não nos esquecemos das coisas mais antigas…

É claro que eu sei do que a senhora fala. A diferença é não acordar para a “asfixia” só porque um qualquer empresário do PSD se sente intimado ao silêncio pelo Governo PS. Eu sei muito bem quem são os empresários do PS (e que amanhã serão do PSD) e quais são os negócios do regime que hoje são controlados por um governo PS e amanhã se-lo-ão por um governo PSD. A diferença é que ela sente a “asfixia” de ver os empresários com o PS porque o PS é Governo e não acreditam que o PSD o venha a ser, e eu sei que o mal é haver tantos empresários que não vivem sem o Estado, sem os concursos e as empreitadas públicas, sem a isenção fiscal ou a palavrinha do ministro – e que tão corajosamente aceitam ser silenciados. Onde quer que haja dinheiros públicos a ganhar, há empresários dispostos à “asfixia”: e isto vale tanto para governos do PS ou do PSD como vale para autarquias do PCP ou do PP. Esse é um dos maiores problemas do regime e que não acredito, sinceramente, que Ferreira Leite tenha alguma veleidade de resolver, se algum dia governar. Eu sou contra o TGV porque é inútil, porque há prioridades bem mais importantes do que este grande negócio público-privado; ela, depois de melhor pensar no assunto, já só é contra porque “não há dinheiro”. Mas é só chegar ao governo e vão ver como o dinheiro aparece.

Contra esse tipo de “asfixia” tenho escrito aqui vezes sem conta, ao longo dos últimos anos. Sei bem do que a casa gasta. Mas não confundo as coisas: não confundo os empresários ‘asfixiados’ ou o ‘Jornal de Sexta’ ‘silenciado’ com a “asfixia democrática”. Disso, só conheço um exemplo concreto: é a Região Autónoma da Madeira, onde ambas, a liberdade empresarial e a liberdade de imprensa, são uma anedota – e por onde a dra. Ferreira Leite, tal como o doutor Cavaco Silva, se passeiam como se nada fosse, nada ouvissem e nada soubessem. Esclareceu-nos ela que ali não existe qualquer asfixia democrática, porque o governo eterno do dr. Jardim foi sufragado pelo povo. Parece que aqui, não: aqui foi o eng.º Sócrates que tomou o poder por golpe de Estado.

Mas, ao menos, nesta confusão mental em que Manuela Ferreira Leite navega, duas coisas ficaram, enfim, claras: que na Madeira se respira a plenos pulmões a liberdade tal como ela a imagina, e que aquele sistema de governo é um bom exemplo do que ela deseja para o país. Só não esclareceu quem pagaria a conta, mas também não é importante. Ela “perguntou ao país” e o país, claro, respondeu que isso não interessa nada. A ‘verdade’ é quanto basta.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


José Sócrates vai a um encontro da JS (um acampamento ou coisa que o valha) e, avaliando a assistência que o ouve, resolve gabar-se das políticas de “esquerda” e de “modernidade” do seu Governo, dando dois exemplos: “Acabámos com o divórcio litigioso” e “demos direitos às uniões de facto”. Como nada disto é ao acaso, presumo que Sócrates estava a seguir o guião eleitoral dos ‘marqueteiros’ do PS: falar de economia à classe média, de solidariedade e pensões aos velhos e de “questões fracturantes” à juventude. O guião pode ter a sua lógica, mas o espectáculo roçou a indecência, de uma demagogia quase insuportável. Que experiência de vida e conhecimento de causa têm jovens de vinte anos para avaliarem legislação sobre divórcio ou uniões de facto? Saberão eles que, no primeiro caso, o que o Governo fez foi desproteger a parte mais fraca num divórcio, e, no segundo caso, foi intrometer o Estado em opções que são privadas?

Não, claro que não sabem nem entendem nem estavam lá para entender mais do que slogans de ocasião, fumar uns charros e dar vivas ao PS e à juventude, em geral. Aliás, a receptividade desta juventude socialista às “causas de esquerda” foi eloquentemente desmascarada pelo repórter do “Público” que teve a genial ideia de ler a alguns deles passagens do programa eleitoral do PS: os jovens socialistas ouvidos declararam apoiar inteiramente essas passagens. Só que elas não eram do programa do PS… mas sim do do PSD!

Políticas de esquerda, meus queridos meninos, é, por exemplo, não ter taxas de justiça que só a torna acessível a quem é rico, é não taxar os rendimentos do capital especulativo a 10% e os do trabalho até 42%, é não privatizar bens essenciais como a electricidade e a água (que, como bem alertou Francisco Louçã, fazem parte da agenda secreta do PS), é não ter uma política externa que pactua com todos os ditadores e corruptos do planeta se isso garantir negócios às nossas empresas, é não entregar a frente do rio, em Lisboa, a negócios tão escandalosos como o do terminal de contentores da Liscont, é não sacrificar toda a paisagem natural a projectos PIN que mais não são do que um pretexto para vandalizar sem lei, é não entregar a Reserva Agrícola Nacional aos eucaliptos e à especulação urbanística. Isso, meninos, são políticas de esquerda. Da próxima vez que estiverem com o secretário-geral do PS, perguntem-lhe sobre elas. E deixem lá o divórcio, as uniões de facto e outras coisas ‘fracturantes’, que vocês não entendem sequer que são apenas uma nuvem de pó para iludir juventudes partidárias sem causas e esquerdistas de bares lisboetas.

Não é por andar a servir demagogia por todas as boticas que José Sócrates vai ganhar as eleições. Vai ganhá-las porque não há, apesar de tudo, alternativa melhor – sendo que, como ele disse acertadamente, a escolha é entre ele e Ferreira Leite.

E vocês já atentaram bem na doutora Manuela Ferreira Leite? Excelente pessoa, sem dúvida séria e bem intencionada. Ponto final. Não há nada ali que se possa aproveitar politicamente: uma ideia, um projecto, um pensamento novo, uma estratégia alternativa para o país. Nada: é uma cabeça oca. Olhem para o ‘programa’ que a tanto custo finalmente apresentou. Cinco áreas prioritárias: educação, justiça, segurança, solidariedade, economia. Bem observou Marcelo que este genial programa pode servir não só para estas legislativas como também para as que se seguirão inevitavelmente dois anos depois, segundo a sua previsão. Eu diria mesmo mais: servirão para toda e qualquer eleição nos séculos mais próximos.

Nas poucas coisas onde ela decidiu concretizar um mínimo as suas intenções de governação, o resultado é desastroso. Percebe-se que quer liquidar o Serviço Nacional de Saúde, uma das poucas realizações públicas que têm melhorado com o tempo e que funcionam aceitavelmente. Quer apoiar e apostar nas PME, ideia roubada a Paulo Portas. E supunha-se que queria parar com os grandes investimentos públicos com que José Sócrates se propõe combater o desemprego e endividar-nos por gerações. Mas, afinal, não: ela quer apenas suspender, reanalisar, ponderar, etc. – mas não em função de opções estratégicas de desenvolvimento do país e sim em função das disponibilidades de tesouraria. Ou seja: à primeira pressão da clientela das obras públicas, a drª Ferreira Leite pararia logo de ponderar e analisar.

Pior ainda é a história dos professores. Recordo que antes de ser eleita presidente do PSD, Ferreira Leite declarou-se a favor do sistema de avaliação defendido pelo Governo de Sócrates. Eleita e candidata a primeiro-ministro, as necessidades eleitorais levaram-na a inflectir a posição. Agora, a candidata resolveu habitar num limbo: não é a favor nem contra, é pela “suspensão” do processo. Admire-se a coragem política desta proposta. Ela já não se atreve a achar que os professores devam ser avaliados e progredir por mérito, mas também não se atreve a desdizer-se ao ponto de desistir da avaliação. O que fazer, então? Suspender, meter a cabeça na areia e fugir ao problema. Aliás, para quê a pressa de resolver o assunto?

Isto é o programa dela. Igual ou pior é o resto. Se Sócrates irrita muitas vezes pela arrogância, Ferreira Leite irrita outras tantas por aquela pose de superioridade moral, de ‘senhora da verdade’, que para aí ostenta em cartazes, declarações e acções de campanha. Dá ideia de que acredita que o seu currículo é suficiente para que os portugueses lhe entreguem o poder sem mais: sem programa, sem ideias, sem ter de sujar as mãos a bater-se pelos votos. Mas se há coisa que lhe falha, além de ideias, é currículo: já exerceu várias funções de governação e em nenhuma se distinguiu particularmente, a começar pela governação das finanças públicas no governo de opereta de Durão Barroso. Se a isso acrescentarmos as constantes contradições entre o que diz e o que faz e o que diz e rediz, além das extraordinárias confissões que às vezes, inadvertidamente, lhe saem assim pela boca fora, fica difícil de perceber como é que os gurus eleitorais do PSD imaginam poder levar a senhora à vitória, daqui por três semanas.

P.S. – E as coisas estavam neste pé, quando os administradores da Prisa resolveram dar uma ajuda à campanha do PSD, suspendendo ou eliminando o ‘Jornal de Sexta’, da TVI. Dificilmente seria concebível pior serviço prestado a José Sócrates, como por aí vai dizer-se. Aliás, o acto em si e o seu judicioso timing são de tal forma absurdos, que até já ouvi a versão de que é a Prisa a vingar-se de Zapatero, via Sócrates. Mas já teremos chegado a esse ponto de união ibérica? ”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


1 Estas coisas devem sempre ser ditas antes e não depois de conhecer os resultados: eu sou contra a chamada do Liedson à Selecção Nacional. Não por achar que ele não tem lá lugar (exactamente por achar que tem é que sou contra…), não por achar que ele não possa ser utilíssimo, não por discordar da integração dos imigrantes nos seus países de acolhimento. Mas há imigrantes e imigrantes, integrações e integrações. O Liedson trabalha em Portugal há seis anos, o que não quer dizer que esteja integrado em Portugal, como português, em tudo igual aos outros. Que eu saiba, fala português sem sotaque algum daqui; quando não está a jogar, está no Brasil; quando deixar de jogar, volta para o Brasil; presumo que ignore tudo ou quase tudo sobre a nossa História, a nossa cultura, o nosso regime político-administrativo e que seja mais um — o terceiro — que, no sábado que vem, em Copenhaga, não saberá de cor o hino.
O Liedson não é um português como os outros e não apenas por manter a nacionalidade de origem: é porque construiu o seu nome profissional enquanto brasileiro e não enquanto português, e se o Estado português agora o vai aproveitar ao serviço da Selecção Nacional de futebol, é apenas por razões de oportunidade e conveniência. Acho tão deslocado o Liedson virar português de ocasião porque a selecção do Brasil o não quis e a de Portugal o quer, como a Maria João Pires virar brasileira porque se chateou com o Estado português. Não é bem igual ao caso do Obikwelu, que imigrou para cá para trabalhar nas obras e aqui se começou a fazer atleta de alta competição, depois se naturalizando (e, aliás, ao contrario de Liedson, perdendo a sua nacionalidade de origem).

Mas o pior deste caso, na minha perspectiva, é as circunstâncias em que Liedson é chamado à Selecção, poucos dias após ter concluído o seu processo de aquisição de dupla nacionalidade. Com 32 anos de idade, não é um jogador de futuro para a Selecção. Pelo contrário, é um reforço de ocasião, para acudir a um estado de necessidade. A sua utilização não foi sequer pensada nem integrada numa politica, jamais definida ou sequer discutida pela Federação e pela sociedade, de saber quais e quantos estrangeiros de origem podem representar o futebol português ao seu mais alto nível. Em que condições, com que critérios e consequências. Não, o Liedson foi chamado porque Queiroz está em estado de necessidade — melhor dizendo, em estado de desespero, na iminência de falhar a qualificação para a África do Sul.

E agora, das duas uma: ou Liedson se vem a revelar decisivo para inverter o fado da Selecção e levar-nos a África no ano que vem, ou nem ele chega para, desta vez, resolver o problema que outros criaram. No primeiro caso, calar-se-ão todas as vozes criticas; no segundo caso, todos cairão em cima de Madail e de Queiroz — se não mesmo do próprio Liedson.

É por isso que acho importante que as opiniões criticas se manifestem agora, antes de conhecer o desfecho desta jogada de última hora. Eu sou contra, como disse, e acho que o assunto dos naturalizados ao serviço da Selecção deve ser discutido a sério e de uma vez por todas, e não ser apreciado casuisticamente, ao sabor das necessidades e conveniências de cada momento (acho, por exemplo, absolutamente indecoroso que se discutam nomes conforme as necessidades de preenchimento de determinados lugares no onze nacional).

Sou contra a chamada de Liedson e apesar da imensa admiração que tenho por ele enquanto jogador, como também — e antes de consumado o desfecho — me manifestei aqui contra a escolha de Carlos Queiroz para seleccionador. E por uma única razão: porque só lhe conheço um curriculum de perdedor, na Selecção inclusive. Mas como a escolha de Queiroz reuniu quase a unanimidade da critica e da rua, nunca mais falei do assunto e fiquei tranquilamente a assistir ao resultado. Devo, todavia, dizer que, ao contrário de Scolari, Queiroz teve muito pouco tempo, sorte e circunstâncias favoráveis para conseguir triunfar (embora tantos dos que ontem exigiam aos gritos a sua nomeação imperiosa, logo lhe tenham caído em cima, sem piedade alguma…). Mas, infelizmente, não espero que a história acabe bem. Queira Deus que me engane, mas esta cartada do Liedson (mesmo levando em conta a lesão do Hugo Almeida, a retirada do Pauleta, etc.) aparece-me como uma jogada de alguém que está desesperado e não vê alternativa. E o desespero raramente dá bons resultados.

2 Foi um episódio verdadeiramente exemplar para mostrar como se constroem «verdades» no mundo do nosso futebol, quando essas «verdades» servem para atacar o FC Porto e o seu presidente. Aos gritos, os jornais, rádios e televisões do País saíram a espalhar o alarido de que o presidente do FC Porto tinha tentado atropelar um jornalista à saída do Tribunal do Porto, não se detendo sequer perante as ordens da polícia e deixando o atropelado ferido no chão até ser transportado ao hospital. Até o sério jornal «Público» serviu essa versão sem hesitar e o Sindicato dos Jornalistas pôs cá fora o habitual comunicado sobre a intimidação dos jornalistas e os «nossos» estimados benfiquistas versão-Barbas — a Leonor Pinhão e o Ricardo Araújo Pereira — obviamente não perderam a oportunidade para desenterrarem a lenda do facínora do Pinto da Costa — e assim, por um tempo, desviando as atenções das «acções cívicas» dos No Name Boys e das suas privilegiadas relações com o presidente do Benfica. Eis as minha perguntas idiotas, mas que não vi respondidas em lado algum:

— porque é que quem ia ao volante era o motorista, mas quem quis atropelar foi Pinto da Costa?

— Será que ele — tal como no inesquecível filme de Leonor Pinhão/João Botelho, baseado no testemunho de Carolina Salgado —, costuma dar ordens ao motorista para atropelar gente de que não gosta, de quando em vez?

— E, sendo isso verosímil, porque carga d’água resolveria o presidente do FC Porto atropelar um fotógrafo do JN — que não escreve sobre ele e nunca lhe fez mal algum, que se saiba?

— E ia atropelá-lo diante de todas essas testemunhas — jornalistas, polícias, etc.?

— Se queria mesmo atropelá-lo, porque não o apanhou de frente, mas apenas com o espelho retrovisor lateral?

— Se a polícia o mandou parar, porque diz a polícia que não? (Está comprada, claro?)

— Porque não nos disseram ainda quais os graves ferimentos sofridos pela vítima do atropelamento deliberado?

— Já agora, senhores juízes populares: qual era o móbil do crime?

Se alguém quiser esclarecer-me, eu agradeço.

3 Há muitos, muitos anos, que não me lembro de ver uma equipa tão fraca a jogar na primeira divisão como aquela que ontem à noite apareceu equipada de Vitória de Setúbal no Estádio da Luz. Conta-se que o treinador Carlos Azenha andou até ao ultimo dia de inscrições (ontem, exactamente) a fazer «castings» de jogadores que por lá apareciam, até formar uma «equipa». Eis como vai o futebol profissional em Portugal. Será que é este Vitória que vamos ver o campeonato todo, ou foi só uma noite para amostra?

Miguel Sousa Tavares n’ A Bola.

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“O Presidente teve toda a razão no seu veto. Toda. Teve razão, teve bom-senso, teve lucidez e mostrou (já não foi a primeira vez…) ser capaz de reflectir para lá da espuma viscosa do politicamente correcto. Para aqueles que ainda não compreenderam que ser de esquerda não é apoiar entusiasticamente qualquer disparate ‘fracturante’, mas sim, e por exemplo, pagar todos os impostos devidos sem ocultar nada, o veto do Presidente foi execrado como manifestação de reaccionarismo e conservadorismo moral insuportáveis. Cheguei a ver escrito que Cavaco já tinha passado o seu prazo de validade ideológica e que não era deste século. Que tranquilo que deve ser viver assim, com tantas certezas prontas a vestir, sem necessidade de perder tempo a pensar ao menos nas consequências práticas daquilo que defendem! Foi assim, por exemplo, com a nova lei do divórcio, que o sempre ‘moderno’ José Sócrates apresentou como uma espécie de libertação definitiva das grilhetas do casamento por parte de quem não queria manter-se casado. Na prática, como não existia na lei e desde há muito, essa suposta ‘prisão’ matrimonial, o que se fez foi desproteger totalmente o lado mais fraco, mais pobre e mais vulnerável de um casamento acabado. Foi uma lei profundamente anti-social, mas que prestou tributo a essa cultura urbana, supostamente moderna e de esquerda, que vive de clichés e de verdades importadas.

Não deixa, aliás, de ser incrivelmente irónico que a mesma maioria que fez uma lei para divorciar as pessoas à força, sem cuidar dos direitos de quem legitimamente o não queria, agora tenha avançado com uma lei que queria casar as pessoas à força, sem ao menos lhes perguntar se estavam interessadas. Bastaria que duas pessoas se juntassem durante dois anos e logo o nosso pressuroso Estado se apressaria a entrar-lhes porta de casa adentro: “Ah, malandros, apanhei-vos! A partir de hoje, é como se estivessem casados: passam a ter direito a suceder no arrendamento e no uso da casa comum, direito a alimentos um do outro, direito a pensão de sobrevivência, que nós pagamos (sim, porque somos um país rico e os socialistas não querem ninguém que não deva alguma coisa ao Estado)”. E os pobres – que, se calhar, nem se estimavam assim tanto e que talvez até já estivessem a pensar sair para outra, que talvez nem estivessem juntos por amor mas apenas por amizade ou qualquer outra razão, sentindo-se de repente tão apoiados e com tantos novos direitos nem sequer reclamados, quem sabe, reconsideravam e lá se mantinham juntos. Assim se salvam, afinal, as uniões de facto, que não os casamentos. Esparta não faria melhor.

Não sou tão sensível ao argumento da inoportunidade política da lei, também invocado por Cavaco Silva nas razões do seu veto. Compreendo que possa fazer confusão ao Presidente que uma maioria política circunstancial – que daqui a um mês pode não se repetir – legisle em matérias destas e nestas alturas, correndo-se o risco de ver depois uma maioria de sinal diferente revogar tudo e assim se aumentando a instabilidade legislativa, que é um dos males da nossa governação. Mas não acho que esse argumento fosse suficiente para, por si só, sustentar um veto político. Decisivo, sim, é o argumento da violação da liberdade individual por parte do Estado. E ela é tão evidente, tão descarada, que custa a crer que não entre pelos olhos adentro de qualquer um.

Em Portugal, o casamento é livre e o divórcio é livre. Há muito que se revogou a Concordata e há muito que os costumes e as novas formas de relacionamento encontraram acolhimento na lei. Mas encontrar acolhimento significa isso mesmo: que a lei as consente, nada mais. Não é preciso, bem à maneira portuguesa, dar a tudo um enquadramento jurídico, uma espécie de Lei Orgânica, sem a qual parece não haver departamento da nossa vida que possa existir. Os portugueses são livres de se casarem as vezes que quiserem, de se divorciarem as vezes que quiserem e de não se casarem as vezes que quiserem. Já ninguém exige os bilhetes de identidade ou as certidões de casamento nos hotéis ou hospitais, não temos polícia de costumes a controlar a regularidade do estatuto conjugal dos casais circulando em automóveis, como no tempo de Salazar, já ninguém se incomoda em saber se os vizinhos são casados, divorciados, amantes ou juntos. E não há ninguém, obviamente, que desconheça ainda quais as consequências jurídicas de estar casado ou em união de facto: no primeiro caso, têm um conjunto de direitos e obrigações que a lei define e todos conhecem; no segundo caso, não têm direitos nem obrigações. E é sabendo-o que as pessoas optam livremente por escolher o estatuto amoroso que pretendem.

Era isto que a maioria de esquerda na Assembleia pretendia agora alterar unilateralmente, demonstrando um absoluto desprezo pela vontade das pessoas. A imensa maioria dos casais que vivem em união de facto vivem assim exactamente por quererem uma relação onde à partida ambos sabem que não têm a esperar nenhuma obrigação ou direito decorrentes da lei. É assim que escolheram viver e é um abuso que o Estado venha depois dar-lhes direitos que não reclamaram e que ostensivamente recusaram. Tanto mais que, ao conceder-lhes direitos iguais aos dos casados, não lhes impunha idênticos deveres – o que significava que os casados passariam a ter, face à lei, um estatuto de segunda categoria.

Pode-se argumentar, e com razão, que, sem um estatuto para as uniões de facto, os casais homossexuais ficam absolutamente desprotegidos, porque não têm alternativa alguma. Mas isso deriva apenas da hipocrisia dos socialistas: eles querem ser muito ‘modernos’, mas não o suficiente para serem justos e coerentes. É tudo uma questão de oportunidade eleitoral e política. Se quisessem ser justos e coerentes e não apenas supostamente modernos, já teriam instituído há muito o casamento dos homossexuais, em lugar de remeter isso para uma oportunidade mais adequada aos seus interesses. Mas, se não tiveram a coragem de o fazer até agora, não é com remendos destes que resolvem o problema, contemplando de arrasto os casais hetero em união de facto – cuja situação é totalmente diferente e não justifica o desvelo protector do Irmão Socialista.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso