Nem uma única vez José Sócrates usou a palavra reformas no seu discurso de posse. Nem uma única vez sugeriu sangue, suor ou lágrimas em a benefício de um futuro melhor. Nem uma única vez disse que iria tentar pôr o Estado a gastar menos para que o monstro do défice público não devore a riqueza que o país consiga produzir. Falou sim, em diálogo, co-responsabilização, consensos, convergências: a paz podre. Uma paz sem vencedores nem vencidos, sem conflitos nem escolhas, sem problemas nem soluções. Paz no nosso tempo, paz nesta legislatura – e a geração seguinte que pague depois a factura.

Também o Presidente não lhe exigiu reformas ou tão pouco as sugeriu. E nenhuma voz da oposição, à esquerda ou à direita, se atreveu a murmurar que, todavia, continua a ser urgente reformar o Estado e a administração pública, que todos os anos consomem metade da riqueza produzida. Que, por exemplo, é preciso conter os gastos na Saúde (dispararam no Verão, depois de uma lei que dispensa de receita médica os medicamentos de administração continuada, integralmente participados pela Segurança Social); que, uma vez dinamitada de alto a baixo a avaliação dos professores, com a conivência de toda a oposição, permanece por resolver esse pequeno problema de termos os maiores gastos per capita da Europa na Educação, com os piores resultados. Pelo contrário: todos estão de acordo em desmantelar organizadamente as poucas reformas que o anterior Governo de José Sócrates ensaiou nos dois primeiros anos de vida – e que, juntamente com a primeira tentativa séria de controlar o défice público, foi a única coisa boa que fez.

Todos os membros do anterior gabinete que tinham ousado enfrentar os lóbis instalados nos respectivos sectores caíram, sem excepção. E, assim, todos ficaram felizes e a esperança regressou aos habituais clientes de dinheiros públicos: a torneira vai voltar a abrir-se para todos, seja para comprar submarinos ou fazer negócios de favor com a Refer, seja para não semear nem colher nos campos, seja para produzir ‘arte’ subsidiada para um mercado que a rejeita. Ou para as grandes empreitadas públicas, justamente chamadas “do futuro”, porque vão hipotecar criminosamente o futuro das gerações que se seguem. Afinal, o Bloco de Esquerda até tem razão, por portas e travessas: é menos indecente subir ainda mais os impostos agora, para financiar o delírio de aeroportos, TGV, auto-estradas, pontes e tudo mais, do que deixar a conta integralmente por pagar a quem vier a seguir.

Costumam dizer que o povo nunca se engana na hora de votar e, acreditando nisso, José Sócrates limitou-se a interpretar, muito legitimamente, a mensagem das urnas: o povo quis um novo mandato para Sócrates porque, obviamente, não viu alternativa melhor; mas, desta vez, quis Sócrates a governar em minoria, para ficar livre da tentação reformista e da veleidade de conter os gastos públicos, quando há tanta gente que depende deles. Agora, o povo espera que este governo, contido e manietado à nascença, flutue à tona dos problemas, negociando ora à esquerda ora à direita, de modo a que tudo o que é essencial fique na mesma. Ou seja, que se mantenha a baixa produtividade e competitividade da economia, a ineficácia da administração pública e da justiça e o descontrolo dos gastos públicos, com o consequente agravamento do spread dos empréstimos contraídos pelo Estado português no estrangeiro e a consequente subida dos juros a pagar.

O clima de alegre descontracção que se instalou depois da maratona eleitoral é de tal ordem que já ninguém se preocupa com a famosa crise, com excepção dos mal-afortunados que perderam o emprego. Os funcionários públicos – que tiveram o melhor ano de sempre, com um aumento salarial de 6% (negociado antes da crise), face a uma inflação de 1%, reclamam agora 4,5%, com a tranquilidade de quem não teme a falência da entidade patronal e se está absolutamente nas tintas para o facto de o défice público ter disparado num ano para mais do dobro. Já o PCP, por seu lado, reclama um salário mínimo de 500 euros em 2010, e um aumento de 20%, para 600 euros, dois anos depois – tudo a ser aprovado desde já, com o dinheiro que se há-de inventar ou pedir emprestado ao estrangeiro. E até o eterno dr. Gilberto Madaíl, sem dar cavaco a ninguém, lançou-nos numa candidatura ao Mundial de Futebol, quando ainda pagamos e pagaremos para sempre a factura de seis estádios novos que ele exigiu para o Europeu de 2004 e que não têm sombra de utilidade ou justificação, a não ser o “desígnio nacional” de que falava o dr. Jorge Sampaio.

Perante este panorama de desresponsabilização geral, face a uma legislatura que se anuncia de marcação de todos a todos, sem que nenhum partido ouse enfrentar interesses instalados e pagar a respectiva factura política, José Sócrates não consegue esconder o alívio com que vai recomeçar a governar. Afinal de contas, quase ninguém lhe augurava uma tarefa tão facilitada: trata-se de contentar todos e com o apoio de todos. Essa nova espécie dos ‘politólogos’ não se lembrou, antes pelo contrário, de adivinhar tal cenário: difícil, afinal, é governar Portugal em maioria absoluta e sentir a obrigação e a responsabilidade de mudar o que dramaticamente precisa há décadas de ser mudado.

Para a festiva ocasião, Sócrates montou assim um extraordinário governo, composto pelo ‘núcleo político’ e o ‘núcleo técnico’. No primeiro, estão os ‘ideólogos’ e políticos profissionais do aparelho socialista – gente como a notável promessa vinda da JS, Marcos Perestrello, humilhantemente ‘sovado’ por Isaltino Morais, em Oeiras. No segundo, está um ilustríssimo naipe de desconhecidos funcionários públicos ou aparentados, e onde se aproveitou para despejar a incontornável quota feminina, para grande satisfação da drª Edite Estrela. Aos primeiros, cabe a nobre tarefa de fazer política; aos segundos, a de executarem as ordens políticas vindas de cima. Santos Silva e Jorge Lacão, do ‘núcleo político’, já começaram aliás a ‘governar’, com o aviso à oposição de que pagará um alto custo se derrubar um governo apostado em não fazer mal a ninguém. Quanto aos ‘funcionários’, seria uma agradável surpresa se algum deles viesse a mostrar ter voz e vontade política própria: não é certamente por acaso que, com tanta gente com ideias conhecidas e válidas em matéria de agricultura, de ambiente ou de cultura, por exemplo, Sócrates tenha conseguido produzir três absolutos desconhecidos para cada uma dessas pastas.

Este é um governo de aparatchiks e de directores de serviço: uma originalidade, uma experiência nova. Um governo do menor denominador comum, que promete um programa de acordo com a maior vontade comum da nação: que nada de essencial mude. Resta-me dizer, como um dia disse o meu pai, “queira Deus que eu esteja enganado!”.

Miguel Sousa Tavares in Expresso


E quem é Mário David, um obscuro deputado europeu do PSD, que queria que Saramago renunciasse à nacionalidade portuguesa e que o Governo português fosse declarado inimigo da liberdade de imprensa no Parlamento Europeu, por causa do caso “Jornal de Sexta”, da TVI, ao mesmo tempo que não acha que Berlusconi represente qualquer ameaça nesse campo? Bem, esse é o caso mais fácil de resolver: é alguém que quis ganhar notoriedade à custa de Saramago. Passará à história como um Sousa Lara, o que não é propriamente exaltante

Já o que Saramago diz sobre o Antigo Testamento e o Corão é um caso mais sério e, em minha modesta opinião, não pode ser descartado à conta de ignorância ou arrogância. Assim como não pode ser repudiado com o argumento – esse, sim, intolerante – de que está a ofender os crentes. Basta ter andado pelo mundo de olhos abertos e cabeça limpa, para constatar que, como ele diz, as religiões não servem para unir os homens, mas, pelo contrário e demasiadas vezes, para justificarem a intolerância, o ódio ou mesmo a barbárie.

É certo que, com “Caim”, Saramago ataca a que hoje é a mais tolerante, a mais democrática e a menos inquisitorial das religiões. Nenhum bispo da Igreja Católica o perseguirá com uma fatwa e nenhum católico fará mais do que insultá-lo nos blogues e redes sociais da net – onde o insulto é fácil, fértil e impune. Não é inócuo, mas, pelo menos, não é perigoso. É também verdade que Saramago se limitou a uma visão literal de um texto datado e inaplicado na prática há muito. É inteiramente legítimo do ponto de vista literário, não sei se será do ponto de vista crítico. Também o Corão, lido à letra, é “um manual de maus costumes” ditado por um deus que diríamos cruel e desumano. A diferença está em que o Corão, na sua interpretação literal, continua hoje a ser o guia e o texto sagrado de grande parte do mundo islâmico, que nele fundamenta o terror e algumas das formas mais iníquas e aberrantes de regulação das sociedades.

Enquanto que ao Antigo Testamento se seguiu o Novo Testamento e várias encíclicas, algumas maravilhosas, que hoje constituem os fundamentos teológicos do cristianismo – e com base nos quais, a Igreja católica, os seus servidores e seguidores fizeram e fazem obra notável em lugares do mundo onde ninguém mais faz. Continuar a querer ver o catolicismo e a Igreja Católica como a religião do Antigo Testamento e das fogueiras da Inquisição não é um exercício intelectual sério.

Que tudo isto foi também um golpe publicitário de quem é mestre e costumeiro nisso, é evidente. Mas tudo, em José Saramago, é vaidade e autopromoção. A começar pelo comunismo confortável de que ele se apregoa devoto, mas nada praticante. E a continuar com a fábula do seu auto-exílio em Lanzarote, zangado com a pátria por causa do Sousa Lara. Se há alguém que não tem razão alguma de queixa de Portugal é justamente o Nobel Saramago.

Não impede. Não impede que a persistência de um homem de 86 anos no seu “ateísmo professo”, como lhe chamou o padre Stillwell, me mereça respeito e atenção. Sem dúvida que seria um grande momento de reflexão o debate para que Saramago se declarou disponível com representantes da Igreja ou das comunidades judaica e islâmica. Muito mais além do que esta tranquilidade ideológica podre das sociedades massificadas por dogmas e verdades inquestionáveis.

2 A seguir ao Reader, chegou agora o Kindle, que promete tornar muito mais fácil e confortável a leitura de e-books. A troco de 300 euros e com um simples toque nos botões, tal como nos ipod, é possível aceder aos catálogos das grandes livrarias online e fazer desfilar um sem-número de livros já disponíveis (só a Amazon tem neste momento disponíveis 700.000 títulos – que não pagam direitos de autor por já ter expirado o respectivo prazo). No futuro imediato, e quando for regulado o pagamento de direitos de autor ainda vigentes, o leitor de e-books poderá, por um preço simbólico e sem ter de se deslocar a uma livraria ou fazer uma encomenda, seleccionar o livro que quiser e, se não gostar do início, passar logo a outro, sem gastar mais do que o preço de um café.

Calcula-se que dentro de cinco anos 20% do mercado livreiro já estejam tomados pelos e-books e, dentro de dez anos, as expectativas variam entre os 30% e os 50% . No mercado discográfico, o download das músicas, legal ou pirateado, já atingirá os 80% (os músicos sobrevivem dando concertos, mas os escritores não sabem cantar…) Mas a primeira coisa a morrer vão ser as livrarias: com 30% a menos de quota de vendas e sem poderem subir o preço dos livros sob pena de ainda perderem mais para as livrarias virtuais, só lhes restará fechar portas. Depois, morrerão as editoras, tal como as conhecemos, e, com elas, as distribuidoras. No mundo dos livros virtuais não há papel, nem capas, nem grafismo: não há objecto físico, há apenas um aparelho que tudo contém, uma Biblioteca de Alexandria que cabe no bolso de um casaco. E a seguir morrerão os autores – que, sendo pagos em percentagem sobre o preço de capa do livro, verão este descer vinte ou trinta vezes. Com o tempo, o livro-físico tornar-se-á um nicho de mercado, editado por alguns sobreviventes e destinado a alguns resistentes que não dispensarão os livros nas estantes, que conhecem de cor o cheiro e a capa de cada livro. Ao contrário do universo do “Fahrenheit 451”, os livros desaparecerão em fogo lento, sem necessidade de fogueiras nem fogos-de-artifício a celebrar o seu fim.

Assim nos projectam o futuro. Este é o cenário que está agora em cima da mesa. É certo que ainda é cedo para antever o que verdadeiramente se irá passar e que, à partida, tudo o que é novo tem um tom assustador. Porém, nos últimos anos temos assistido a uma aceleração incontrolável do mundo virtual face ao mundo que conhecíamos. Com tremendas vantagens, nuns casos, com tremendas perplexidades e consequências ainda por avaliar, noutros casos. Quem diria que qualquer cidadão, de telemóvel em punho, se pode tornar um jornalista freelance que fornece imagens de ‘vídeo-amador’ às televisões ou fotografias de paparazzo aos jornais? Quem diria que grande parte da produção da informação se transferiria dos jornalistas para os frequentadores de blogues e a discussão pública sairia do espaço dos media para o espaço da net – onde a formação de opinião se ‘democratizou’, isto é, se tornou instantânea, não verificada, anónima e impune nos seus abusos? E quem diria que essa informação e debate de opinião ‘democratizados’ anunciariam a morte iminente dos jornais? E quem diria que elas acabariam por fazer inverter a regra sagrada do jornalismo – noticiar o que é de interesse público e não o que é do interesse do público – levando os telejornais a abrir com o crime passional de Alguidares-de-Baixo e não com a Cimeira mundial do Clima?

Assim com os livros: mais livros, mais acessíveis, muito mais baratos, sem ocupar espaço algum e, ainda por cima, poupando as florestas. Não será esta uma legítima ambição dos consumidores? Valerá ainda a pena o esforço de tentar resistir e defender um mundo com jornais em papel e livros-objectos? E em nome de quê – da cultura, do prazer de ler jornais e livros em papel? Responderão que a liberdade de escolha é sagrada e que cabe ao mercado decidir. É uma armadilha fatal: porque hoje, no tempo da democracia e do mercado instantâneos, quando a maioria decide uma coisa a minoria é esmagada.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


Pus-me a pensar o que poderia Cavaco Silva dizer na sua “comunicação à imprensa” (em que à imprensa não eram admitidas perguntas) que pudesse justificar a surpresa de ter visto um Presidente envolver-se numa campanha eleitoral e contra o partido do Governo. Não apenas pelo caso das escutas, mas também pelo seu comentário, cirúrgico e cínico, à suspensão do Jornal de Sexta, da TVI.

Pus-me a pensar e não vi grande saída presidencial, na matéria das escutas. Porque os factos, já provados ou não desmentidos, falavam por si: primeiro, há um ano e meio atrás, e depois, a um mês e meio das eleições, o assessor de confiança de Cavaco, dizendo falar em seu nome, foi transmitir ao jornal “Público” que a Presidência suspeitava estar a ser escutada e espiada pelo Governo. Isto, na exacta altura em que a campanha do PSD só tinha um tema: a “asfixia” das liberdades e da sociedade pelo Governo controleiro do PS. Que nem sopa no mel! E mudo e quedo, sem desmentir as suspeitas assim lançadas pública e escandalosamente, ficou o Presidente, lá, na sua casa do Algarve, entretido a ver diplomas. E assim ficaria, não tivesse o “Diário de Notícias” desvendado os contornos da trama e obrigado Cavaco ao gesto dúbio de “fazer alterações na sua Casa Civil”. Foi então que o PSD se pôs a gritar em surdina que o PR estava a lançar sinais equívocos que poderiam, afinal, beneficiar o PS em vez de prejudicá-lo, e que o melhor era dizer logo tudo, antes mesmo que o povo fosse às urnas. Mas, justamente, aí é que estava o problema, como bem se percebeu pela sua comunicação ao país: o que tinha ele para dizer? Nada.

Assim, e excluindo desde logo a hipótese de ver o Presidente pedir desculpas pelo sarilho que engendrara ou consentira planeadamente, só vi uma maneira de ele se pôr a salvo: sacrificar em praça pública o amigo Fernando Lima (e é isso que se espera dos amigos dos príncipes, nas horas de aperto). Mas não: talvez tolhido pelo pudor e enraivecido pelo descalabro da sua conduta, vimos um Presidente fora de si, com cara de ódio e pose de majestade ofendida, a quem tinham ousado incomodar (“na minha casa no Algarve, quando dedicava boa parte do meu tempo a ver diplomas… exigindo que interrompesse as férias…). E, de suspeito, Sua Excelência passou a acusador, com uma leviandade que, vinda de um Presidente da República, arrepia.

Sim ele é que desconfia que “altos dirigentes do partido do Governo” se interroguem sobre o facto (aliás público e não desmentido) de membros do seu stafe participarem na elaboração do programa eleitoral do PSD; ele é que desconfia do timing da notícia do “Diário de Notícias”, e não da do “Público”, saída um mês antes e que deu início a toda a história; ele é que não percebe que alguém possa pôr em causa o legítimo direito de um seu assessor acusar o Governo de espiar o Presidente, sem ter de o provar; ele é que julga que o quiseram empurrar para a campanha eleitoral, e não que se empurrou a si mesmo; ele é que desconfia da veracidade do mail trocado entre dois jornalistas do “Público”, apenas com a autoridade que lhe dá o facto de ser quem é; e, enfim, num despropósito final e patético, ele é que se lembrou, no próprio dia em que se ia explicar ao país, de subitamente desconfiar da vulnerabilidade do seu computador pessoal, para assim justificar as “questões de segurança” sobre as quais tinham anunciado que iria falar.

Enfim, para tudo resumir, não fossem “os superiores interesses nacionais”, que, por vezes, obrigam um Presidente da República a “ser capaz de resistir a graves manipulações”, que ultrapassam “os limites do tolerável e da decência”, e Sua Ofendida Excelência diria aos portugueses, olhos nos olhos, o que verdadeiramente lhe vai na alma: que eles acabaram de reconduzir um governo de bandidos, que lhe interrompem as férias, espiam as comunicações, controlam a liberdade de opinião dos seus assessores e que ele, a bem da nação, terá de suportar enquanto não vir saída. Como comentava um amigo meu, todavia longe do universo PS, “será que ele nos toma a todos por mentecaptos?”.

Quando Cavaco Silva foi eleito, eu escrevi aqui que nunca tinha sido devoto do culto. Nunca lhe reconheci crédito de estadista nem mérito como governante. Nunca lhe conheci um pensamento político que não fosse estratégico apenas para si próprio nem agenda política que não fosse a do seu interesse pessoal. Nunca o vi gostar de correr riscos nem ter coragem nos momentos difíceis – quer em relação ao país quer em relação ao próprio PSD, que, em grande parte, ainda vive na ilusão de que Cavaco pertence à sua família política, como se ele tivesse alguma família política que não a sua própria. Mas escrevi também que, uma vez eleito, ele passava a ser o Presidente de todos os portugueses e também o meu.

Isso acabou terça-feira passada. O homem que se dirigiu ao país como Presidente de todos os portugueses já não o é mais. Colocou-se a si mesmo como Presidente de uma facção – dos devotos que lhe restam ou da maioria silenciosa e ignorante que não segue ou não entende a gravidade do que se passou. Por decisão própria, o Presidente da República tornou-se neste momento o principal factor de instabilidade, o principal obstáculo ao regular funcionamento das instituições democráticas, que jurou defender. Nada mais será como dantes. E não apenas entre o Presidente e o futuro governo: entre o Presidente e o país.

PS 1 – Regressado de três semanas longe, vim deparar-me com um espectáculo (mais um) inédito: todos os principais candidatos às legislativas e autárquicas desfilam, obedientes, tementes e esforçando-se para mostrarem sentido de humor, em entrevistas a um programa de entretenimento, cujos relatos têm depois ampla cobertura jornalística. Claro que não está em causa o valor dos Gato Fedorento, mas apenas o princípio: se a informação está agora a cargo dos humoristas, qual será o papel dos jornalistas no futuro breve – contar anedotas? Depois da política-espectáculo, eis que demos o passo seguinte: o espectáculo-política. E todos acham normal.

PS 2 – O meu travesseiro sabe as memórias infelizes que eu guardo das passagens de Pedro Santana Lopes pela Câmara de Lisboa. Mas a verdade é que o oiço propor várias coisas que me parecem tão evidentes quanto necessárias e simples: repor o trânsito normal na zona do Cais do Sodré/Terreiro do Paço; manter o aeroporto da Portela em Lisboa; impedir a terceira travessia rodoviária do Tejo; não aceitar a expansão do terminal de contentores de Alcântara. Não oiço nada disto à candidatura de António Costa. E aí está o dilema instalado: votar em pessoas ou votar em programas?

Miguel Sousa Tavares in Expresso


Considerando que depois de amanhã temos eleições, convém ser o mais comedido possível na análise a esta inacreditável história das escutas, envolvendo Cavaco, Sócrates e o “Público”. Usem-se, porém, todas as cautelas possíveis e não há volta a dar: aparentemente (mas aparências muito carregadas) o Presidente da República enfiou-se num pântano de onde dificilmente sairá intocado no prestígio que o cargo exige.

A mim não me espanta muito a trapalhada em que Cavaco Silva se enredou. Já aqui escrevi, a propósito do seu sibilino comentário sobre o cancelamento do “Jornal de Sexta” na TVI, que me parecia evidente que ele deixava cair aqui e ali sinais de apoio à candidatura do seu partido e da sua amiga Ferreira Leite – ao mesmo tempo que multiplicava as declarações pró-forma de distanciamento e isenção na campanha que decorreu. Espera-se assim que Cavaco Silva, sem mais tardança a partir de domingo, venha esclarecer o país sobre o que fez, como fez e porque fez. E esclarecer não é uma simples e solene declaração com a bandeira nacional atrás, sem direito a perguntas nem contraditório. As coisas foram longe de mais e as suspeitas são graves de mais para que ele não se disponha, como qualquer político, a enfrentar os jornalistas. Espero que escolha uma atitude de Presidente dos Estados Unidos e que não queira antes adoptar uma postura majestática de Rainha de Inglaterra. Inocentemente ou não, entrou em jogo e agora não pode fingir que está acima disso.

O país espera e exige que Cavaco Silva esclareça, nomeadamente:

– Se tinha e tem, de facto, razões sérias para desconfiar ser alvo de uma operação de espionagem, via escutas ou outra, por parte do Governo;

– Em que baseava tais suspeitas, e espera-se que não venha com a anedota de o PS acusar a sua Casa Civil de estar a colaborar no programa do PSD – assim, aliás, confirmando tais acusações – ou com o ‘espião’ ao serviço do Governo que se atreveu, durante uma visita presidencial à Madeira, a sentar-se à mesma mesa que os intangíveis membros do seu gabinete. Não, qualquer coisa mais séria do que isso.

– Porque carga de água quereria o Governo saber tanto o que se passa em Belém – passa-se lá alguma coisa de muito interessante?

– Se as suas suspeitas eram assim tão fortes: a) porque não falou abertamente disso com o PM; b) porque não chamou os chefes dos serviços secretos ou quem tem competência técnica para tal e lhes exigiu que apurassem o que se passava; c) no limite, e visto que indubitavelmente estaria em causa o regular funcionamento das instituições democráticas, porque não demitiu o Governo e explicou ao país o que se estava a passar e porque o fazia? –

Porque preferiu seguir a via sinuosa da conspiração política, socorrendo-se para tal de um jornal e embrulhando as suas suspeitas na capa de uma ‘investigação jornalística’ a que Belém seria totalmente alheia?

– Porque escolheu o jornal “Público” para tal? – Mandou, de facto, o seu homem de confiança dizer ao “Público” que vinha a mando do Presidente, ou foi ele que extravasou o seu mandato e abusou indevidamente do nome do Presidente?

– Porque só o demitiu quando o seu nome se tornou público e as suas andanças se tornaram conhecidas? Desconhecia totalmente o assunto (e, se o desconhecia, porque não o desmentiu?). Ou conhecia bem o papel desempenhado por Fernando Lima mas resolveu encobri-lo enquanto fosse possível?

– Não previu o impacto que a notícia do “Público” de 18 de Agosto, a cinco semanas das eleições, poderia ter para a imagem do Governo PS e como contributo para a campanha da “asfixia democrática” e do “ambiente de medo” de que fala Ferreira Leite? E, depois de responder a tudo isto, que são questões de facto, e se, em função dessas respostas, não ficar cristalinamente claro que o Presidente, contra todas as aparências, está absolutamente inocente desta escabrosa história e que teve todas as razões para desconfiar da espionagem de que seria alvo por parte do Governo, então Cavaco Silva deve passar a responder às questões políticas, que são de toda a importância. A saber:

– Se foi, como tudo indica, parte nesta história, onde fica, em sua opinião, o dever de lealdade institucional entre o Governo e o Presidente e vice-versa? – Acha que o episódio não mancha o seu dever de absoluta isenção e neutralidade nas campanhas eleitorais que não lhe dizem respeito directamente?

– E acha que ele contribuiu para a estabilidade e a credibilidade política de que fala constantemente?

– Na hipótese de o PS e José Sócrates vencerem, com maioria absoluta ou simples, as eleições de depois de amanhã, como acha possível recuperar um mínimo de confiança e colaboração nas relações com esse governo? Ou essa não é a sua intenção e a sua agenda política? Estas são as explicações que deve Cavaco Silva. Depois há as explicações que deve o “Público”. Porque, ao contrário do que se apressou a dizer Paulo Portas e a sugerir Manuela Ferreira Leite, não há apenas duas hipóteses de grande gravidade: a de o Governo escutar o Presidente e a de o Governo, via serviços de informações, interferir nas comunicações internas de um jornal. Há também outras duas hipóteses e que, não sei se eles terão reparado, neste momento são as mais prováveis: a hipótese de a Presidência ter montado uma operação destinada a atingir o partido do Governo a poucos dias das eleições, e a de ter encontrado um jornal de referência que se prestou a fazer o frete.

Da parte do “Público”, já ouvi várias explicações do seu director – algumas contraditórias, nenhuma convincente. Ou seja, todas iguais a ele próprio: vesgas e propositadamente confusas. José Manuel Fernandes (e eu sei do que falo) é uma pessoa que não olha a direito e não joga a direito. Por isso, ele começou por dizer que o e-mail revelado pelo “DN” e que põe a nu toda a trama era “parcialmente falso”, truncado “pelos Serviços Secretos”. Mas não esclareceu que parte era parcialmente falsa e qual era parcialmente verdadeira – e que diferença poderia isso fazer numa mensagem que, de princípio ao fim, tratava só do mesmo assunto.

Depois, num editorial que pretendeu clarificador, veio explicar que há 17 meses não tinha publicado a mesma notícia porque ela provinha de uma só fonte anónima e não tinha sido confirmada pelo jornal. Mas, passados 17 meses e a cinco semanas das eleições, publica a mesma notícia, com base unicamente na mesma fonte, sempre anónima e apenas identificada como alguém da casa Civil do PR – sem a ter investigado, contraditado ou confirmado. Será que publicaria uma notícia semelhante baseada numa ‘fonte do Governo’ que lhe viesse contar que o PR instalara escutas em S. Bento? Com falsa ingenuidade, pretende sustentar a tese de que agora a notícia já não tinha de ser a existência de escutas montadas pelo Governo em Belém, mas apenas a existência de suspeitas de tal entre o staff da Presidência. Isso dispensaria o “Público” de ter de investigar e confirmar tais suspeitas e até de conceder o direito de defesa aos acusados de tão grave abuso. A notícia seria, pois, a acusação e não a sua veracidade. Bem pode o Conselho de Redacção do “Público” cobrir o seu director, por dever de ofício, mas se este é o jornalismo que agora se defende ali na casa, o eng.º Belmiro de Azevedo escusa de chorar mais com os prejuízos do jornal ou de convidar o Governo a comprá-lo para lá mandar livremente, porque eu não auguro longa vida a esse ‘jornalismo de referência’. Sigamos, sorrindo, as cenas dos próximos capítulos.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso

PS: O que irá Cavaco comunicar ao país hoje? Estou bastante curioso…


“Espero que a liberdade de expressão, conquistada no 25 de Abril, não esteja em perigo” – deixou escapar Cavaco Silva, como quem não quer a coisa, como quem não mete as mãos na campanha eleitoral em curso, ao lado do PSD.

“Um dos mais graves atentados à liberdade de expressão desde o 25 de Abril” – anunciara na véspera, em tom de enterro, José Pedro Aguiar Branco, em nome do PSD. “Um acto de censura”, sentenciou Pacheco Pereira. “Uma asfixia democrática”, suspirou Manuela Ferreira Leite.

Nove dias de enxurrada, de lágrimas e lamentos de cristãos-novos da liberdade de imprensa – ou da liberdade, simplesmente. Mas, sintomaticamente, não se ouviu nenhuma carpideira atrever-se a tocar no essencial: o ‘Jornal de Sexta’, da TVI, era jornalismo isento, igual para todos, rigoroso e fundamentado? Não, tal ninguém se atreveu a dizer. Eis uma curiosa ameaça à liberdade: morre uma liberdade que ninguém se atreve a elogiar. Então, porque choram – só porque, como escreveu Pacheco Pereira, o ‘Jornal de Sexta’ “dava notícias incómodas para o Governo” e agora já não as dá? E porque dava muito jeito ter o jornal activo durante a campanha eleitoral?

Já se sabe que a suspensão do jornal foi ilegal e abusiva. Mas há uma questão anterior a essa e que, pelos vistos, não tem importância, e que é a de saber se a própria existência do jornal era admissível, sob o ponto de vista editorial e jornalístico. E se à quinta-feira também houvesse um jornal televisivo dirigido ad hominem contra a dra. Ferreira Leite? E à quarta-feira um contra o dr. Paulo Portas? E à terça-feira outro contra o dr. Francisco Louçã? Ou, pior ainda, se apenas existisse um jornal contra algum deles e todos os outros passassem incólumes? O que diriam Pacheco Pereira, Aguiar Branco, Cavaco Silva?

Recorde-se: o ‘caso Freeport’ nasceu três semanas antes das últimas eleições legislativas, através de uma carta anónima cozinhada entre gente ligada ao então primeiro-ministro do PSD e um agente da PJ (condenado por tal em juízo). O objectivo era só um: evitar a vitória iminente de Sócrates e do PS. Depois de quase quatro anos a dormir, o processo reanima-se à vista de eleições, sem que o Ministério Público tenha conseguido matar ou confirmar em tempo útil as suspeitas semanalmente alimentadas pelo “Sol” e pelo ‘Jornal de Sexta’ contra José Sócrates. O próprio procurador-geral da República (que país extraordinário!) diz não entender como é que o assunto ainda não foi esclarecido pelo MP. Mas a verdade é que não foi, pois parece que a grande questão é a de esclarecer se os magistrados do caso foram ou não pressionados durante um almoço por um colega, para concluírem o assunto rapidamente (o que, como se sabe, é a maior afronta que se pode fazer à Justiça). E eis então que, subitamente, de novo a três semanas das urnas, aparece nova carta anónima enviada ao processo, com “novos dados” – os quais logo aparecem no ‘Jornal de Sexta’ da TVI. Ó José Pacheco Pereira, você que adora teorias conspiratórias, não acha isto uma coincidência do caraças?

2

Dizem as boas almas que, independentemente do ‘tom’ e do ‘estilo’ do ‘Jornal de Sexta’, independentemente da verdade ou falsidade dos ‘factos’ contra Sócrates, foi ele que criou o caso, ao atrever-se a atacar o ‘Jornal’ de Manuela Moura Guedes (o Vasco Pulido Valente também já tinha explicado isto lá, no próprio jornal). Parece, pois que um tipo, pelo facto de ser primeiro-ministro, não pode sequer irritar-se com o banal incómodo de todas as semanas ser tratado como corrupto por uma televisão, com base num processo que supostamente está em segredo de justiça e onde ele, tanto quanto se sabe, nem suspeito é. Toda a gente poderá, pois, defender-se e contra-atacar se for publicamente tratada como corrupta. Mas não o primeiro-ministro (que, por dever de função, tem de ser o mais insuspeito de todos). A dra. Ferreira Leite que pense bem antes de aspirar ao lugar! Depois não se queixe, se provar do mesmo veneno…

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Diz a doutora que Portugal vive em “asfixia democrática” – aliás, faz disso o tema central da sua candidatura ao governo. Ela vem para nos libertar da asfixia e eu quero crer que sim, embora me lembre bem dos tempos dos governos do doutor Cavaco, onde ela ganhou a alternativa política, e dos empresários que se queixavam de serem perseguidos por não alinharem com o regime ou por estarem ligados ao “O Independente” – onde o dr. Paulo Portas se queixava do mesmo mal, por outras palavras e com mais veemência. É o que dá ir para velho: não nos esquecemos das coisas mais antigas…

É claro que eu sei do que a senhora fala. A diferença é não acordar para a “asfixia” só porque um qualquer empresário do PSD se sente intimado ao silêncio pelo Governo PS. Eu sei muito bem quem são os empresários do PS (e que amanhã serão do PSD) e quais são os negócios do regime que hoje são controlados por um governo PS e amanhã se-lo-ão por um governo PSD. A diferença é que ela sente a “asfixia” de ver os empresários com o PS porque o PS é Governo e não acreditam que o PSD o venha a ser, e eu sei que o mal é haver tantos empresários que não vivem sem o Estado, sem os concursos e as empreitadas públicas, sem a isenção fiscal ou a palavrinha do ministro – e que tão corajosamente aceitam ser silenciados. Onde quer que haja dinheiros públicos a ganhar, há empresários dispostos à “asfixia”: e isto vale tanto para governos do PS ou do PSD como vale para autarquias do PCP ou do PP. Esse é um dos maiores problemas do regime e que não acredito, sinceramente, que Ferreira Leite tenha alguma veleidade de resolver, se algum dia governar. Eu sou contra o TGV porque é inútil, porque há prioridades bem mais importantes do que este grande negócio público-privado; ela, depois de melhor pensar no assunto, já só é contra porque “não há dinheiro”. Mas é só chegar ao governo e vão ver como o dinheiro aparece.

Contra esse tipo de “asfixia” tenho escrito aqui vezes sem conta, ao longo dos últimos anos. Sei bem do que a casa gasta. Mas não confundo as coisas: não confundo os empresários ‘asfixiados’ ou o ‘Jornal de Sexta’ ‘silenciado’ com a “asfixia democrática”. Disso, só conheço um exemplo concreto: é a Região Autónoma da Madeira, onde ambas, a liberdade empresarial e a liberdade de imprensa, são uma anedota – e por onde a dra. Ferreira Leite, tal como o doutor Cavaco Silva, se passeiam como se nada fosse, nada ouvissem e nada soubessem. Esclareceu-nos ela que ali não existe qualquer asfixia democrática, porque o governo eterno do dr. Jardim foi sufragado pelo povo. Parece que aqui, não: aqui foi o eng.º Sócrates que tomou o poder por golpe de Estado.

Mas, ao menos, nesta confusão mental em que Manuela Ferreira Leite navega, duas coisas ficaram, enfim, claras: que na Madeira se respira a plenos pulmões a liberdade tal como ela a imagina, e que aquele sistema de governo é um bom exemplo do que ela deseja para o país. Só não esclareceu quem pagaria a conta, mas também não é importante. Ela “perguntou ao país” e o país, claro, respondeu que isso não interessa nada. A ‘verdade’ é quanto basta.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


José Sócrates vai a um encontro da JS (um acampamento ou coisa que o valha) e, avaliando a assistência que o ouve, resolve gabar-se das políticas de “esquerda” e de “modernidade” do seu Governo, dando dois exemplos: “Acabámos com o divórcio litigioso” e “demos direitos às uniões de facto”. Como nada disto é ao acaso, presumo que Sócrates estava a seguir o guião eleitoral dos ‘marqueteiros’ do PS: falar de economia à classe média, de solidariedade e pensões aos velhos e de “questões fracturantes” à juventude. O guião pode ter a sua lógica, mas o espectáculo roçou a indecência, de uma demagogia quase insuportável. Que experiência de vida e conhecimento de causa têm jovens de vinte anos para avaliarem legislação sobre divórcio ou uniões de facto? Saberão eles que, no primeiro caso, o que o Governo fez foi desproteger a parte mais fraca num divórcio, e, no segundo caso, foi intrometer o Estado em opções que são privadas?

Não, claro que não sabem nem entendem nem estavam lá para entender mais do que slogans de ocasião, fumar uns charros e dar vivas ao PS e à juventude, em geral. Aliás, a receptividade desta juventude socialista às “causas de esquerda” foi eloquentemente desmascarada pelo repórter do “Público” que teve a genial ideia de ler a alguns deles passagens do programa eleitoral do PS: os jovens socialistas ouvidos declararam apoiar inteiramente essas passagens. Só que elas não eram do programa do PS… mas sim do do PSD!

Políticas de esquerda, meus queridos meninos, é, por exemplo, não ter taxas de justiça que só a torna acessível a quem é rico, é não taxar os rendimentos do capital especulativo a 10% e os do trabalho até 42%, é não privatizar bens essenciais como a electricidade e a água (que, como bem alertou Francisco Louçã, fazem parte da agenda secreta do PS), é não ter uma política externa que pactua com todos os ditadores e corruptos do planeta se isso garantir negócios às nossas empresas, é não entregar a frente do rio, em Lisboa, a negócios tão escandalosos como o do terminal de contentores da Liscont, é não sacrificar toda a paisagem natural a projectos PIN que mais não são do que um pretexto para vandalizar sem lei, é não entregar a Reserva Agrícola Nacional aos eucaliptos e à especulação urbanística. Isso, meninos, são políticas de esquerda. Da próxima vez que estiverem com o secretário-geral do PS, perguntem-lhe sobre elas. E deixem lá o divórcio, as uniões de facto e outras coisas ‘fracturantes’, que vocês não entendem sequer que são apenas uma nuvem de pó para iludir juventudes partidárias sem causas e esquerdistas de bares lisboetas.

Não é por andar a servir demagogia por todas as boticas que José Sócrates vai ganhar as eleições. Vai ganhá-las porque não há, apesar de tudo, alternativa melhor – sendo que, como ele disse acertadamente, a escolha é entre ele e Ferreira Leite.

E vocês já atentaram bem na doutora Manuela Ferreira Leite? Excelente pessoa, sem dúvida séria e bem intencionada. Ponto final. Não há nada ali que se possa aproveitar politicamente: uma ideia, um projecto, um pensamento novo, uma estratégia alternativa para o país. Nada: é uma cabeça oca. Olhem para o ‘programa’ que a tanto custo finalmente apresentou. Cinco áreas prioritárias: educação, justiça, segurança, solidariedade, economia. Bem observou Marcelo que este genial programa pode servir não só para estas legislativas como também para as que se seguirão inevitavelmente dois anos depois, segundo a sua previsão. Eu diria mesmo mais: servirão para toda e qualquer eleição nos séculos mais próximos.

Nas poucas coisas onde ela decidiu concretizar um mínimo as suas intenções de governação, o resultado é desastroso. Percebe-se que quer liquidar o Serviço Nacional de Saúde, uma das poucas realizações públicas que têm melhorado com o tempo e que funcionam aceitavelmente. Quer apoiar e apostar nas PME, ideia roubada a Paulo Portas. E supunha-se que queria parar com os grandes investimentos públicos com que José Sócrates se propõe combater o desemprego e endividar-nos por gerações. Mas, afinal, não: ela quer apenas suspender, reanalisar, ponderar, etc. – mas não em função de opções estratégicas de desenvolvimento do país e sim em função das disponibilidades de tesouraria. Ou seja: à primeira pressão da clientela das obras públicas, a drª Ferreira Leite pararia logo de ponderar e analisar.

Pior ainda é a história dos professores. Recordo que antes de ser eleita presidente do PSD, Ferreira Leite declarou-se a favor do sistema de avaliação defendido pelo Governo de Sócrates. Eleita e candidata a primeiro-ministro, as necessidades eleitorais levaram-na a inflectir a posição. Agora, a candidata resolveu habitar num limbo: não é a favor nem contra, é pela “suspensão” do processo. Admire-se a coragem política desta proposta. Ela já não se atreve a achar que os professores devam ser avaliados e progredir por mérito, mas também não se atreve a desdizer-se ao ponto de desistir da avaliação. O que fazer, então? Suspender, meter a cabeça na areia e fugir ao problema. Aliás, para quê a pressa de resolver o assunto?

Isto é o programa dela. Igual ou pior é o resto. Se Sócrates irrita muitas vezes pela arrogância, Ferreira Leite irrita outras tantas por aquela pose de superioridade moral, de ‘senhora da verdade’, que para aí ostenta em cartazes, declarações e acções de campanha. Dá ideia de que acredita que o seu currículo é suficiente para que os portugueses lhe entreguem o poder sem mais: sem programa, sem ideias, sem ter de sujar as mãos a bater-se pelos votos. Mas se há coisa que lhe falha, além de ideias, é currículo: já exerceu várias funções de governação e em nenhuma se distinguiu particularmente, a começar pela governação das finanças públicas no governo de opereta de Durão Barroso. Se a isso acrescentarmos as constantes contradições entre o que diz e o que faz e o que diz e rediz, além das extraordinárias confissões que às vezes, inadvertidamente, lhe saem assim pela boca fora, fica difícil de perceber como é que os gurus eleitorais do PSD imaginam poder levar a senhora à vitória, daqui por três semanas.

P.S. – E as coisas estavam neste pé, quando os administradores da Prisa resolveram dar uma ajuda à campanha do PSD, suspendendo ou eliminando o ‘Jornal de Sexta’, da TVI. Dificilmente seria concebível pior serviço prestado a José Sócrates, como por aí vai dizer-se. Aliás, o acto em si e o seu judicioso timing são de tal forma absurdos, que até já ouvi a versão de que é a Prisa a vingar-se de Zapatero, via Sócrates. Mas já teremos chegado a esse ponto de união ibérica? ”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“O Presidente teve toda a razão no seu veto. Toda. Teve razão, teve bom-senso, teve lucidez e mostrou (já não foi a primeira vez…) ser capaz de reflectir para lá da espuma viscosa do politicamente correcto. Para aqueles que ainda não compreenderam que ser de esquerda não é apoiar entusiasticamente qualquer disparate ‘fracturante’, mas sim, e por exemplo, pagar todos os impostos devidos sem ocultar nada, o veto do Presidente foi execrado como manifestação de reaccionarismo e conservadorismo moral insuportáveis. Cheguei a ver escrito que Cavaco já tinha passado o seu prazo de validade ideológica e que não era deste século. Que tranquilo que deve ser viver assim, com tantas certezas prontas a vestir, sem necessidade de perder tempo a pensar ao menos nas consequências práticas daquilo que defendem! Foi assim, por exemplo, com a nova lei do divórcio, que o sempre ‘moderno’ José Sócrates apresentou como uma espécie de libertação definitiva das grilhetas do casamento por parte de quem não queria manter-se casado. Na prática, como não existia na lei e desde há muito, essa suposta ‘prisão’ matrimonial, o que se fez foi desproteger totalmente o lado mais fraco, mais pobre e mais vulnerável de um casamento acabado. Foi uma lei profundamente anti-social, mas que prestou tributo a essa cultura urbana, supostamente moderna e de esquerda, que vive de clichés e de verdades importadas.

Não deixa, aliás, de ser incrivelmente irónico que a mesma maioria que fez uma lei para divorciar as pessoas à força, sem cuidar dos direitos de quem legitimamente o não queria, agora tenha avançado com uma lei que queria casar as pessoas à força, sem ao menos lhes perguntar se estavam interessadas. Bastaria que duas pessoas se juntassem durante dois anos e logo o nosso pressuroso Estado se apressaria a entrar-lhes porta de casa adentro: “Ah, malandros, apanhei-vos! A partir de hoje, é como se estivessem casados: passam a ter direito a suceder no arrendamento e no uso da casa comum, direito a alimentos um do outro, direito a pensão de sobrevivência, que nós pagamos (sim, porque somos um país rico e os socialistas não querem ninguém que não deva alguma coisa ao Estado)”. E os pobres – que, se calhar, nem se estimavam assim tanto e que talvez até já estivessem a pensar sair para outra, que talvez nem estivessem juntos por amor mas apenas por amizade ou qualquer outra razão, sentindo-se de repente tão apoiados e com tantos novos direitos nem sequer reclamados, quem sabe, reconsideravam e lá se mantinham juntos. Assim se salvam, afinal, as uniões de facto, que não os casamentos. Esparta não faria melhor.

Não sou tão sensível ao argumento da inoportunidade política da lei, também invocado por Cavaco Silva nas razões do seu veto. Compreendo que possa fazer confusão ao Presidente que uma maioria política circunstancial – que daqui a um mês pode não se repetir – legisle em matérias destas e nestas alturas, correndo-se o risco de ver depois uma maioria de sinal diferente revogar tudo e assim se aumentando a instabilidade legislativa, que é um dos males da nossa governação. Mas não acho que esse argumento fosse suficiente para, por si só, sustentar um veto político. Decisivo, sim, é o argumento da violação da liberdade individual por parte do Estado. E ela é tão evidente, tão descarada, que custa a crer que não entre pelos olhos adentro de qualquer um.

Em Portugal, o casamento é livre e o divórcio é livre. Há muito que se revogou a Concordata e há muito que os costumes e as novas formas de relacionamento encontraram acolhimento na lei. Mas encontrar acolhimento significa isso mesmo: que a lei as consente, nada mais. Não é preciso, bem à maneira portuguesa, dar a tudo um enquadramento jurídico, uma espécie de Lei Orgânica, sem a qual parece não haver departamento da nossa vida que possa existir. Os portugueses são livres de se casarem as vezes que quiserem, de se divorciarem as vezes que quiserem e de não se casarem as vezes que quiserem. Já ninguém exige os bilhetes de identidade ou as certidões de casamento nos hotéis ou hospitais, não temos polícia de costumes a controlar a regularidade do estatuto conjugal dos casais circulando em automóveis, como no tempo de Salazar, já ninguém se incomoda em saber se os vizinhos são casados, divorciados, amantes ou juntos. E não há ninguém, obviamente, que desconheça ainda quais as consequências jurídicas de estar casado ou em união de facto: no primeiro caso, têm um conjunto de direitos e obrigações que a lei define e todos conhecem; no segundo caso, não têm direitos nem obrigações. E é sabendo-o que as pessoas optam livremente por escolher o estatuto amoroso que pretendem.

Era isto que a maioria de esquerda na Assembleia pretendia agora alterar unilateralmente, demonstrando um absoluto desprezo pela vontade das pessoas. A imensa maioria dos casais que vivem em união de facto vivem assim exactamente por quererem uma relação onde à partida ambos sabem que não têm a esperar nenhuma obrigação ou direito decorrentes da lei. É assim que escolheram viver e é um abuso que o Estado venha depois dar-lhes direitos que não reclamaram e que ostensivamente recusaram. Tanto mais que, ao conceder-lhes direitos iguais aos dos casados, não lhes impunha idênticos deveres – o que significava que os casados passariam a ter, face à lei, um estatuto de segunda categoria.

Pode-se argumentar, e com razão, que, sem um estatuto para as uniões de facto, os casais homossexuais ficam absolutamente desprotegidos, porque não têm alternativa alguma. Mas isso deriva apenas da hipocrisia dos socialistas: eles querem ser muito ‘modernos’, mas não o suficiente para serem justos e coerentes. É tudo uma questão de oportunidade eleitoral e política. Se quisessem ser justos e coerentes e não apenas supostamente modernos, já teriam instituído há muito o casamento dos homossexuais, em lugar de remeter isso para uma oportunidade mais adequada aos seus interesses. Mas, se não tiveram a coragem de o fazer até agora, não é com remendos destes que resolvem o problema, contemplando de arrasto os casais hetero em união de facto – cuja situação é totalmente diferente e não justifica o desvelo protector do Irmão Socialista.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“Pergunta-se a alguém porque está no Facebook e a primeira resposta é: “porque me interessa profissionalmente, para estabelecer contactos”. Como – um tipo é dentista (ou fotógrafo, ou canalizador ou advogado) e angaria clientes no Facebook? “Não, claro, que não!”, respondem logo. Então? Porque têm negócios ou produtos que lhes interessa divulgar – resposta nº 2. Ah, então é uma rede de comerciantes, que aproveitam a publicidade grátis? “Bem, também não”, respondem, já levemente embaraçados. Afinal, insisto, é porquê? “Por exemplo: serve para encontrar os antigos colegas da Primária ou do Liceu” – resposta nº 3, já levemente irritada. (E eu fico a pensar para comigo: interessa-me assim tanto encontrar os antigos colegas do Liceu ou da Primária? Francamente, não.

Eles que me perdoem, mas a vida não se faz a andar para trás). Passemos, então, a outro tipo de dúvidas que a minha curiosidade gostaria de ver esclarecidas. F tem 1243 ‘amigos’ e ‘amigas’ registadas – uma multidão (e eu que detesto mutidões…).

– Tens mesmo 1243 amigos?

– Não, claro que não!

– Então porque estão registados como teus amigos?

– Porque pediram e eu os aceitei.

– Se os aceitaste é porque os queres como amigos: tens de lhes escrever de vez em quando, mandar notícias, responder quando eles escrevem…

– Só respondo quando quero. E à maior parte não respondo. – Não consigo perceber… – O quê? – É que toda a gente diz o mesmo, quando pergunto isto: que só têm essas legiões de amigos porque lhes pediram e eles aceitaram. Parece que ninguém pede, toda a gente se limita a aceitar; e, depois, todos juram que só respondem a alguns. Sendo assim, não consigo entender como e para quê têm esses ‘amigos todos’.

Fim de conversa. Já fiz esta conversa várias vezes, já tive esta discussão com amigos inúmeras vezes e ninguém sai da sua: eles do Facebook, eu da minha perplexidade. Na verdade, só há uma resposta que eu entenderia: estão no Facebook porque não conseguem enfrentar a solidão e vivemos um tempo em que, quanto mais se comunica, quanto mais se fala, quanto mais se apregoa, mais a solidão é funda e irremediável. E o Facebook é o instrumento perfeito para criar a ilusão de que não se está sozinho, mas acompanhado por uma vastidão de amigos. Basta escolher um ‘perfil’, carregar num botão e esperar que um desconhecido nos aceite como amigo. E, se esse não aceitar, há mais uns milhões, o universo todo, para tentar de novo. Quem disse que é difícil fazer amigos? Que é difícil encontrar pessoas interessantes? Que, hoje em dia, não há tempo para conhecer pessoas novas? Que as relações humanas são complicadas?

Eis o instrumento que veio pôr fim a tudo isso. Agora, com o Facebook, só está só quem quer. Essa explicação eu entenderia: é séria, é real, é humilde. Só que, essa, ninguém a dá. Menos ainda se atreverão a confessar outro tipo de razões pelas quais eu desconfio que muita dessa Humanidade perde horas preciosas das suas vidas amarrada à coisa (embora todos jurem também que raramente lá estão). As razões inconfessadas são estas (e isto é uma teoria muito pessoal): a) – para arranjar parceiros amorosos ou apenas sexuais; b) – para se exibirem a si mesmos, às suas vidas, às fascinantes personagens que todos se imaginam ser; e c) – para vasculharem a vida dos outros. Vá, venham, caiam-me todos em cima. Estou aqui para dar o peito às balas dos ‘amigos’. É verdade que eu sou, por natureza, o oposto da filosofia da coisa: detesto falar ao telefone, só abro o correio uma vez por mês, só respondo a mails de trabalho ou aos dos verdadeiros amigos que conheço, de carne, osso e alma, odeio expor a minha vida (já tão devassada, inventada e caluniada em blogues que por aí circulam) e interessa-me nada a vida privada dos outros. Gosto de fazer amigos de outra maneira, de ter encontros de outra forma, por acaso olhos nos olhos (embora haja gente que consegue mentir olhos nos olhos e tranquilamente). E não consigo simplesmente entender essa fórmula de as amizades circularem em rede, tipo-D. Branca, ‘temos x amigos em comum, vamos ser amigos também’, numa progressão geométrica imparável e absurda, até ao ponto em que o universo inteiro acabará amigo, todos uns dos outros, nesse admirável pesadelo novo do Facebook.

Vocês, os ‘amigos’ do Facebook, conseguiram transformar em realidade o pesadelo do Orwell e o sonho de todas as polícias: montaram uma rede onde todos se cruzam e expõem, onde é fácil descobrir o paradeiro de cada um, mesmo quando ele não quer, onde se estabelecem relações amorosas por magnetismo virtual, se desvendam traições e adultérios, se partilham segredos no meio da multidão, se revelam as fotografias e as andanças que deveriam ser íntimas, e onde se faz tudo isso com uma compulsão de drogados, viciados em voeyurismo e exibicionismo. Vocês, caros ‘amigos’ e ‘amigas’, transformaram o Big Brother numa realidade planetária. Mas com a diferença de que não é ele que vos vigia contra vontade, mas vocês que se lhe oferecem voluntariamente. Era de esperar que aqui chegássemos: os sinais estavam todos lá e cada vez mais nítidos. Os dois barómetros principais, para quem tenha estado atento, foram a crescente profusão das revistas ditas ‘sociais’ e a crescente audiência dos programas de TV ditos ‘populares’.

Os primeiros transformaram inutilidades em celebridades, os segundos aliciaram o ‘povo’ a conquistar os seus minutos de fama, exibindo-se para um catálogo de vícios onde os degradaram a um extremo indecoroso, convencendo-os de que eram ídolos e corajosos. Juntos, as revistas sociais e os programas populares de TV levaram a pobre gente a acreditar que eles próprios podiam transformar-se na notícia, saltando de espectadores para actores principais. Não pelo que fazem, pelo que são, pelo mérito que têm, pelo exemplo ou pelo valor que dão à sociedade, mas exactamente pelo contrário: porque vão a festas, porque namoram X ou Y, porque fizeram um implante de silicone, ou porque tiveram um filho (e vendem a gravidez, o parto, a saída da maternidade, o primeiro banho, o baptizado, a primeira fralda borrada), ou então porque se tornaram ‘vedetas’ na televisão, em programas onde se dispuseram a ser acorrentados, chicoteados ou filmados 24 horas por dia, retrete incluída. E assim se tornaram eles próprios na notícia. Mas como não cabem todos nas revistas ou nos programas televisivos, e como todos queriam beber da mesma água, os sobrantes encontraram no Facebook o instrumento exactamente adequado a esta ânsia de protagonismo, a esta irresistível compulsão de partilha que a todos reanima, com um sopro de vida como há muito não varria o mundo.

Está bem, concedo que, pelo que me tenho apercebido e no que a Portugal diz respeito, o clube está acima do nível das revistas sociais ou do lixo televisivo: há para ali alguns intelectuais, ou autonomeados como tal, bastante gente perfeitamente frequentável noutras circunstâncias, muita gente interessante e outra desarmante, e muitíssimas mulheres que não são nada de deitar fora, sob vários aspectos (e, sobretudo, muita outra gente que só lá está porque os outros estão e têm medo de não serem ‘modernos’, ficando de fora). E confesso também que é isso o que mais me preocupa: será que sobra alguém para fora, onde também continua a haver vida, embora sob outra forma? Será que sobra alguém que se possa e valha a pena encontrar num café, num cinema, numa praia, num aeroporto? Ou vai tudo viver, envelhecer e morrer agarrado ao Facebook, sob o desagradável olhar de todos os outros? E a seguir, o que se seguirá? Ó desgraçados, voltem antes que seja tarde!”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“O estado da nação discute-se todos os anos, por esta altura, na Assembleia da República. O calendário da discussão faz mais sentido agora — que é quando, de facto, sentimos que o ano chegou ao fim — do que, por exemplo, no início do ano civil, como acontece nos Estados Unidos. O estado da nação é também um bom título para um debate parlamentar, mas que raramente é fiel à sua etimologia: a nação nunca é verdadeiramente discutida e o seu estado é confundido sempre com o estado da governação. É pena, porque nação e Estado não são a mesma coisa, governo e Estado também não, ou não deveriam ser, e governo e nação são duas noções não fundíveis — por mais que o Estado Novo, por exemplo, o tenha tentado e tenha feito disso uma filosofia política pretensamente legitimadora da ditadura. Sendo uma pena essa confusão, não deixa, porém, de ser reveladora. Tenho para mim, desde há muito, que o problema português profundo é exactamente confundir tudo isso — nação, Estado e governo. É um problema que vem de muito longe, talvez desde D. João II, o verdadeiro criador do Estado português — feito que alcançou com muitos crimes, muita perfídia e muito sangue, conseguindo assim liquidar a nação feudal, esquartejada por vários baronatos (a regionalização da época). Se foi isso que permitiu a criação do Estado, também foi isso que iria permitir e fomentar durante séculos a confusão perniciosa entre Estado e poder político. Colombo fez seis viagens à América, todas financiadas por interesses privados que arriscaram os seus capitais na descoberta do Eldorado e de um imenso território, que ele julgava inicialmente ser a Índia mas que rapidamente se percebeu ser coisa diferente, mais vasta e mais apetecível. Na sua primeira viagem partiu de Sevilha, sem os Reis Católicos a darem a largada simbólica, mas sim com os empresários andaluzes que custeavam a sua expedição a verem-no partir das margens do Guadalquivir. Claro que a Coroa tinha privilégios, políticos e económicos, entre eles o de definir o estatuto do próprio Colombo — que acabaria, a partir da segunda viagem, por fixar-se em qualquer coisa jamais explicitada, mas com um nome adequado a esse excepcional visionário: Almirante do Mar Oceano.

Nós fizemos diferente. D. Manuel chamou a si o monopólio integral da exploração marítima — e talvez por isso, e não somente pelas razões historicamente arroladas, não tenha aceite as propostas de Colombo, que eram demasiadamente favoráveis ao genovês para poderem ser aceites por um soberano que ambicionava controlar toda a empreitada das descobertas. Aqui, os navegadores partiam de Belém, sob o olhar da Coroa e de todo o Estado, que nela se fundia, iam com ordens expressas do Rei e do seu conselho de sábios, e todo o ouro, prata e especiarias que traziam de volta era monopólio da Coroa. Duarte Pacheco Pereira (o verdadeiro descobridor do Brasil) escreveu no seu “Esmeraldo de Situ Orbis” que, já em 1498, tinha descoberto o Brasil a mando de D. Manuel: nem por acaso, nem por iniciativa própria ou financiado por interesses empresariais — a mando de El Rey. E quando, por volta de 1750, D. Luís de Albuquerque inicia em plena mata amazónica o projecto demencial (e levado até ao fim) de construir o Forte do Príncipe da Beira — um de sete fortes de fronteira aos quais o Brasil deve hoje uns milhões de quilómetros quadrados de terra a mais —, foi ele quem mandou escrever no frontispício da porta de entrada do forte uma frase eloquente, destinada a derrotar o desejo de desistência dos sacrificados construtores do forte: “É vontade de El Rey: faça-se!”. Em troca de tanto mando, a Coroa distribuía benesses a quem a tinha servido, por mares e selvas nunca antes explorados: direitos especiais de participação nos lucros, concessões de terras, títulos de nobreza, cargos e mordomias, extensíveis a familiares. Servir o poder tornou-se assim o caminho único para alcançar um estatuto de riqueza e acreditação social que se iria tornar uma fatalidade nacional.

Ninguém, talvez, soube explorar tão bem esta deliberada e funesta confusão entre Estado e poder político, por uma lado, e nação, por outro, quanto Salazar. Aquele que a votação induzida de alguns portugueses estabeleceu há tempos e para efeitos televisivos como o maior português de sempre, foi, na realidade, o português que tornou Portugal mais pequeno, os portugueses mais subservientes e o Estado mais omnipotente. Qualquer carreira pública — de diplomata a professor, de militar a magistrado — só era possível com um juramento de fidelidade ao poder político e aos seus ideais; os grandes grupos económicos, de que hoje tanto se fala, nasceram quase todos no salazarismo, ao abrigo da Lei do Condicionamento Industrial, que estabelecia um monopólio de facto por cada sector económico — em troca, claro, da fidelidade política ao ditador e ao seu regime. Salazar matou qualquer espírito de liberdade que ainda restasse nos portugueses: corrompeu os intelectuais, vergou a igreja, matou a iniciativa privada capaz de triunfar sem o favor político; transformou as Forças Armadas numa guarda pretoriana do regime e, acima de tudo, instalou um chip na cabeça de cada português destinado a mentalizá-lo de que não havia vida fora da protecção do Estado. O que o 25 de Abril, ao fim e ao cabo, veio mudar foi muito pouco: apenas a liberdade de cada um exigir mais do Estado em troca de menos da sua parte.

Mas, quando olhamos para o que são hoje os nossos grupos económicos, para os passageiros que vão nos aviões do PM em visitas de Estado, é fácil perceber que a liberdade, para eles, não se traduziu na reivindicação de poderem prosperar fora da protecção pública e do favor político, mas exactamente o contrário. É sintomático que alguns “empresários e economistas” se tenham sentido impelidos a produzir há dias um “manifesto” a apelar à continuação das “grandes obras públicas” que José Sócrates prometeu fazer, com o dinheiro do Estado, isto é, dos contribuintes. Sintomático que, entre esses “empresários” de referência lá venham os presidentes ou ex-presidentes da Estradas de Portugal, REN, PT ou CTT: ou seja, a fina flor dos herdeiros dos capitães-donatários de outrora, a quem a Coroa concedia privilégios e cargos por bons serviços prestados ao poder. Eles querem, pois, que o Estado não deixe de gastar: pois claro que querem, é disso que depende a sua própria existência…

Enquanto escrevo, não sei ainda o que José Sócrates terá dito no debate sobre o estado da nação e o que lhe terá respondido a oposição. Mas não é difícil adivinhar que o primeiro-ministro dirá que a crise nos atingiu em cheio de há um ano para cá, tal como ao mundo inteiro; que o Governo, aproveitando a situação de um défice controlado à partida, conseguiu evitar a ruptura do sistema bancário e do próprio Estado e que, para o ano, infelizmente já depois das eleições, começaremos a ver a luz ao fundo do túnel. Mas o que ele não dirá, e ninguém irá estranhar, é que se falhou, uma vez mais, com crise ou sem crise, a reforma do Estado e que, por via disso, nada de essencial mudou num ano ou mudará no próximo: o contrato de ruína nacional que se mantém desde há tanto tempo continuará intocável porque, uma vez mais, não houve coragem política — nem do Governo nem da oposição — para começar a mudar alguma coisa de essencial. E quem quiser ganhar as próximas eleições sabe que nem uma palavra poderá ser dita sobre o assunto. Todos os candidatos de todos os partidos correrão o país a prometer mais a todas as corporações: professores, agricultores, magistrados, militares e polícias, intelectuais e criadores culturais, empresários e toda a gente que não concebe outra forma de sobrevivência que não a de viverem à sombra do Estado, tantas vezes entrincheirados em privilégios que os tempos de hoje tornam insustentáveis.

O estado da governação é mau, bom ou normal, conforme a apreciação política de cada um. O da nação é o mesmo de sempre: bloqueado e deprimente”

Miguel Sousa Tavares in Expresso


“Passam hoje 35 anos sobre a tal inesquecível madrugada libertadora. Como de costume, o regime vai assinalar a data com umas quantas cerimónias, públicas e particulares, sempre previsíveis, sempre obrigatórias e sempre destituídas de sentido. O Presidente da República vai fazer o habitual discurso na Assembleia, em que tudo o que interessa é ler nas entrelinhas se ele ataca ou não ataca o Governo em funções — conforme é tradição da data; o PCP e a extrema-esquerda vão desfilar por aí, jurando que “Abril está por cumprir”; e o coronel Vasco Lourenço, em representação dos militares do 25 de Abril, vai destilar o seu habitual azedume contra os ‘políticos’ e insinuar que, se for preciso, eles são capazes de voltar a pegar em armas e acabar “o que ficou inacabado”. Há muito que defendo que a memória dessa luminosa manhã de liberdade deveria deixar de ser comemorada — pelo menos, assim —, como forma de preservar a sua dignidade. O passado é um país distante e a sua revisitação, a tentativa de reinventar um dia feliz vivido lá atrás, acaba sempre por ter um sabor amargo, a mofo.

Além de que esta sessão anual de lamúrias públicas não tem razão de ser: o 25 de Abril foi cumprido, tanto quanto o podia ser. Os três D foram cumpridos. Democratizámos, mas a democracia — numa nação que nunca teve a liberdade como o primeiro e absoluto dos valores — não é muito mais do que isto. Descolonizámos — tarde e mal, e mal porque tarde —, mas cumprimos o princípio essencial de devolver o que não era nosso e que só as circunstâncias históricas (sem dúvida motivo de orgulho) nos tinham provisoriamente confiado. E desenvolvemo-nos: sim, desenvolvemo-nos. Só quem não viveu ou não se lembra do que era o Portugal de 1974, só quem não viu, por exemplo, a série de programas de António Barreto na RTP, é que pode ainda ter dúvidas sobre isso. O Portugal de hoje não tem nada, rigorosamente nada, a ver com o Portugal do Estado Novo — miserável, ignorante, de mão estendida e espinha curvada. Acontece é que nunca estamos satisfeitos, achámos que a liberdade era o direito de tudo reclamar, todos os direitos sem nenhuns deveres, a Europa e o mundo fascinados a nossos pés, pagando eternamente pelo espectáculo da nossa liberdade e do cravo na lapela, e nós encostados aos subsídios e às facilidades sem termos de nos cansar. Hélas!, não é assim que se constroem as nações que vão à frente!

Podíamos, ao menos, ter-nos entendido, de uma vez por todas, sobre o essencial desse dia distante: a liberdade. Mas nem isso. Basta ver como, hoje ainda, os próprios militares de Abril estão divididos, para perceber como essa coisa aparentemente tão simples que é a ideia de liberdade continua a dividir uma nação que nunca, verdadeiramente, a amou, respeitou ou se bateu por ela. Na semana em que Otelo foi promovido a coronel, com efeitos retroactivos, Jaime Neves foi promovido a general, e a Associação dos Militares de Abril amuou por causa desta última. Não perceberam que o que aconteceu em determinado momento não pode ser apagado da história pelos momentos supervenientes, seja de que lado for: que a liberdade se ficou a dever, primeiro, a Salgueiro Maia e Otelo, e, depois, a Eanes e Jaime Neves.

O “bota-abaixo”, como diz José Sócrates, é o que nós achamos de mais próximo à liberdade: poder dizer livremente mal de todos os ‘políticos’, depois de cinquenta anos em que ninguém se atrevia sequer a dizê-lo à própria sombra. Tornar o simples exercício do poder e a correspondente exposição pública uma oportunidade para o fartar vilanagem, que confundimos com coragem. Não digo, antes pelo contrário, que os políticos sejam melhores hoje do que eram há dez, vinte ou trinta anos: aqui, na Europa, no resto do planeta. Digo é que, quando acontece alguém chegar à política movido pelo sentido de serviço público e pela vontade de transformar as coisas, ele é tranquilamente cilindrado como os outros, com a leveza de um Vasco Lourenço discorrendo sobre o país ou de um qualquer ‘corajoso’, insultando, anónima e impunemente, nos blogues do mundo fácil de governar da net.

Não devíamos, assim, queixar-nos ou admirar-nos se os melhores desistem e se os piores regressam, no vazio criado. Para desgraça nossa — e com o nosso voto! —, Santana Lopes vai, muito provavelmente, regressar ao governo de Lisboa, depois de ter deixado a cidade e o país de pantanas. Mas quem quer verdadeiramente preocupar-se em escrutinar o que foi o seu desgoverno passado? As pessoas ficam-se pela espuma das coisas — o túnel do Marquês — e nem querem saber do resto, se o homem é apenas um genial mestre da sedução sem causa nobre. E a senhora que o escolheu — Manuela Ferreira Leite — desdenhou, para encabeçar a lista do PSD às europeias, alguém como Marques Mendes, dos raros que quiseram moralizar as coisas, pagou por isso e se afastou tranquilamente. Devíamos, sim, pensar que Paulo Rangel, o cabeça-de-lista do PSD às europeias, e Nuno Melo, o do PP, são dois excelentes deputados, dos poucos que fazem a diferença, e que os respectivos partidos afastam do Parlamento para esse doirado exílio europeu, onde habitam sumidades políticas como Edite Estrela ou Deus Pinheiro. Devíamos pensar, pior ainda, por que razão desistem eles próprios e tão rapidamente de uma batalha onde farão falta.

Já aqui escrevi, há quinze dias, sobre o que penso do caso Freeport e da posição em que ele coloca José Sócrates. Escrevi que, pessoalmente, acredito na sua inocência, mas não abdico de ver tudo esclarecido, sem margem para qualquer dúvida. O que eu não entendo é a leviandade de tudo isto: um homem é publicamente suspeito do pior dos crimes políticos e a coisa arrasta-se, meses, anos, em fogo lento, sem que ele seja ilibado ou acusado e tendo ainda de governar o país e enfrentar eleições sob esse peso. Não pode desistir, porque seria como que uma confissão de culpa; não pode continuar em igualdade de circunstâncias com os seus adversários políticos, porque há sempre essa terrível suspeita pendente sobre ele. Não pode ficar quieto e calado, porque alimenta as suspeitas; não se pode defender, porque é uma ‘ameaça’ e uma ‘pressão’. O que pode um cidadão, que tem o azar de ser primeiro-ministro de Portugal, fazer num caso destes e enquanto espera que a Justiça cumpra o seu papel?

Há um tipo — que tem o mesmo apelido que eu e que escreve semanalmente no “DN”, onde se especializou na ofensa fácil — que escreveu que Sócrates falar de moral é o mesmo que Cicciolina falar de virtude, ou coisa que o valha. O cidadão José Sócrates, sentindo-se ofendido (como qualquer um de nós se sentiria), põe um processo ao ofensor. Tem esse direito? Não: é o primeiro-ministro a intimidar um ‘jornalista’. E o ‘jornalista’ vira mártir da liberdade de imprensa na praça pública. Fala-se em “ameaças intoleráveis”, da liberdade em risco, da heróica e antiquíssima luta da imprensa contra o poder, do “jornalismo de investigação” contra as pressões políticas.

Liberdade? De imprensa? Ora, vão pastar caracóis para o Sara! Eles sabem lá o que é a liberdade! Sabem lá o que isso custa a ganhar!”

Miguel Sousa Tavares in Expresso