“DITO, desde os Antigos, que a inveja faz enverdecer. Como faz diminuir a talha. Com efeito, o invejoso sente-se mais pequeno, diminuído, e isso acaba por ter reflexo numa postura corporal encolhida. É por isso que muitas vezes os apanhamos em bicos-dos-pés.
Mais bizarro é o advento do verde na pigmentação. Porque razão se atribui ao invejoso, desde tempos primevos, uma tonalidade esverdeada? Há quem assegure que a inveja prejudica o fígado e provoca a emanação de um excesso de bílis, podendo também, de quando em vez, alourecer o cabelo.
Outros, porém, descartam por completo esta hipótese, por lhe faltar um real raciocínio científico. Pouco fisiognomonistas, estes sábios afastam radicalmente qualquer possibilidade de relação entre a inveja e qualquer degeneração física, chamando mesmo a atenção para o facto de existirem invejosos de todos os calibres, tamanhos e feitios.
Seja como for, por mais que lhe falte a pujança científica, a teoria do esverdeado pequeno, afinal baseada no senso comum da observação quotidiana, continua a atrair numerosos adeptos.
Um dos tiques comuns nos ataques dos invejosos é a tendência para a identificação com o objecto da sua inveja. Por exemplo, insinuar que o outro obedece a determinada prática de que afinal é ele próprio devoto, ou seja, transferir para os outros os seus próprios defeitos. Neste ponto, a razoabilidade esvai-se e o argumento torna-se impossível.
É muito desagradável ser alvo de inveja. Dantes dizia-se ser vítima de mau-olhado porque, supersticiosamente, acreditava-se que o invejoso, investido de sagrada bílis, poderia realmente afectar a vida alheia. Aliás, é próxima a relação da inveja com o olho: diz na Bíblia, citada por Francis Bacon nos seus Ensaios, que a inveja é uma “ejaculação do olho”. Ora como se pode compreender não é simpático ser alvo de “ejaculações” alheias. Ou seja, a inveja é chata e acaba por incomodar.
Os portugueses têm uma relação particular com a inveja. Não será por acaso que Camões a utiliza como palavra final da epopeia. O poeta reconhece-lhe certamente um valor fulcral no ser português para, sem pejo, encerrar “Os Lusíadas” com tão estranho sublinhado. Com sobejas razões de queixa, Luís Vaz sublinha, mas as lamúrias de um poeta parecem pívias quando comparadas com as catástrofes motivadas pelo facto de “a galinha do vizinho ser melhor que a minha”. É na disputa das insignificâncias que o ser invejoso melhor expõe a sua excessiva altaneirice saloia, acidez e mediocridade.
Contudo, existe uma excepção. Num pequeno enclave, situado no sul da China, a inveja, mesmo entre a comunidade portuguesa ali moribunda da História, não medra. Não, aqui a inveja não tem lugar. Ainda que às vezes, em noites de mais intenso luar, a imaginação nos proporcione às vezes a visão de um ser enfezado e verde. É mentira: ele não está lá.”

Excerto de um editorial de Carlos Morais José no Hoje Macau. Escusado será dizer o nome do destinatário destes mimos…

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