“Condenar défices e recusar a ajuda a uma economia que ainda se debate tornou-se na nova moda em todo o lado. Muitos economistas, eu incluído, vêem esta viragem para a austeridade como um grande erro. Apesar destes avisos, os falcões do défice prevalecem na maior parte dos sítios – principalmente aqui, onde o governo quer poupar 80 mil milhões de euros, quase 100 mil milhões de dólares, com o aumento de impostos e cortes orçamentais, apesar da economia continuar a funcionar muito abaixo da sua capacidade.

Que lógica económica existe por trás das medidas do governo? A resposta, pelo que me é dado ver, é que não existe alguma. Pressione-se os responsáveis alemães a explicar porque necessitam de impor medidas de austeridade numa economia em depressão e obtém-se argumentos que não fazem sentido. Chame-se a atenção para isso e eles vêm com argumentos diferentes, que também não fazem sentido. Discutir com os falcões do défice alemães é muito parecido com discutir com os falcões americanos em relação ao Iraque em 2002: eles sabem o que querem fazer, e sempre que refutamos um argumento, eles vêm com outro.

Eis como se passa a conversa típica:
Falcão alemão: “Temos de cortar o défice imediatamente, porque temos de lidar com o fardo fiscal de uma população envelhecida.”
Americano chato: “Mas isso não faz sentido. Mesmo que consigam poupar 80 mil milhões de euros – o que não acontecerá porque os cortes orçamentais irão prejudicar a vossa economia e reduzir as receitas – o pagamento de juros sobre tal dívida será menos de um décimo de um por cento do vosso PIB. Assim, a austeridade que querem impor ameaçará a recuperação económica enquanto fará quase nada para melhorar a vossa situação orçamental a longo prazo.”
Falcão alemão: “Não vou discutir aritmética. Devemos ter em conta a reacção do mercado.”
Americano chato: Mas como é que sabe como irá reagir o mercado? E, seja como for, porque motivo deve o mercado ser conduzido por políticas que não têm praticamente impacto na situação fiscal a longo prazo?
Falcão alemão: “Você não percebe mesmo a nossa situação.”

O ponto chave é que embora os defensores da austeridade se apresentem como realistas práticos, que fazem o que é preciso fazer, eles não conseguem justificar, e não o farão, a sua posição com números reais – porque os números não apoiam, de facto, a sua posição. Nem sequer são capazes de argumentar que os mercados estão a pedir austeridade. Pelo contrario, o governo alemão permanece capaz de contrair empréstimos a taxas de juro muito baixas.

Pelo que as verdadeiras motivações para a sua obsessão com austeridade residem noutro lugar.

Na América, muitos auto-proclamados falcões do défice são pura e simplesmente hipócritas. Estão ávidos para cortar benefícios àqueles que mais necessitam mas a sua preocupação acerca do défice desaparece quando se trata de reduzir os impostos dos mais ricos. Deste modo, o senador Ben Nelson, que declarou hipocritamente que não nos podemos permitir dar 77 mil milhões de dólares em apoio aos desempregados, foi instrumental na aprovação do primeiro corte fiscal de Bush, que nos custou 1,3 biliões de dólares.

Os falcões do défice alemães parecem ser mais sinceros. Mas nada têm a ver com realismo fiscal. Em vez disso, é mais sobre moralização e pose. Os alemães tendem a pensar nos défices correntes como sendo moralmente errados, enquanto os orçamentos equilibrados são considerados moralmente correctos, independentemente das circunstâncias ou da lógica económica. A austeridade alemã irá piorar a crise na zona euro, tornando mais difícil a recuperação da Espanha e de outras economias em apuros. Os problemas da Europa estão também a conduzir ao enfraquecimento do euro, o que, perversamente, ajudará a indústria alemã mas que também exportará as consequências da austeridade alemã para o resto do mundo, Estados Unidos incluídos.E as hipóteses de uma recessão prolongada aumentam todos os dias.”

Paul Krugman no i

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