“Revisões da matéria dada. Há exactamente um mês, a RAEM cumpriu dez anos e os balanços da década foram, com pontuais excepções, de um optimismo pomposo.
Como se tivéssemos vivido no melhor dos mundos possíveis, responsáveis políticos e certa imprensa disseram de bem o que, a contrario, de mal Maomé não disse do toucinho. Os franceses chamam a isto “langue de bois” – uma forma de expressão que pretende dissimular uma incompetência, ou uma reticência, em abordar certas matérias disfarçada com a proclamação de banalidades, ou abstracções, que apelam mais ao sentimento e à emoção fácil do que aos factos. “Langue de bois”, o que mais se ouve em todo o lado e a toda a hora.
Por exemplo, os democratas. Nos últimos meses do mandato de Edmund Ho não desperdiçaram nenhuma oportunidade para encomendar a alma do Chefe do Executivo por falhar as promessas, adiar as consultas, escapar à reforma do sistema político. Em suma, por iludir a população. Mas agora que na região vizinha os seus aliados ameaçam avançar com um expediente para, pelo menos, forçar uma clarificação sobre as verdadeiras intenções de Pequim sobre a abertura política na RAEHK, é que em Macau, o gradualismo começa a contaminar o campo pró-democrata. Gradualismo que não significa mais do que adiar esta reforma, o mais possível. Adiar tanto que, agora, a dez ou mais anos de distância, a mera referência ao assunto não se torna só caricata, é decorativa.
Esta suposta moderação, descobrimos agora, gerou um efeito de osmose. Entre os chamados independentes, que parecem despertar da letargia pós-eleitoral, uns mais do que outros, é verdade, a ideologia do gradualismo também produziu discurso!
Com tamanha dose de cautelas e caldos de galinha, é irresistível pensar se esta não será uma simples artimanha para neutralizar qualquer veleidade de mudança e para que, sob a aparência reformista, tudo permaneça instalado no mesmo inabalável e confortável statu quo.
Outro exemplo: observem o que director do Centro de Investigação do Princípio “Um pais, dois sistemas” reiterou, pela enésima vez, esta semana, num seminário onde estavam presentes altos funcionários da Administração Pública: “Francamente”, há cada vez mais espaço para uma alteração da Lei Básica; é fundamental alterar alguns aspectos do texto para acompanhar a evolução da sociedade e servir melhor o os dois sistemas. Mas, a seguir, Ieong Wan Chong apressou a notar que é preciso sermos sérios, e pragmáticos, e que são dispensáveis ajustamentos desadequados que possam perturbar o curso das coisas. Tal como aquele personagem do romance de Melville, “Bartleby, O Escrivão”, também Ieong, no fundo, “preferia não o fazer”.
Leonel Alves também não. Há cerca de quinze dias, o deputado esteve na Rádio Macau a lamentar a falta de renovação de quadros e, a médio prazo, o desaparecimento da vida pública daqueles políticos mais qualificados, e com vivência do que é o verdadeiro e autêntico segundo sistema, como Susana Chou, Edmund Ho, Chui Sai On, Florinda Chan, ou, presume-se, ele próprio. Mas, no entanto, eleições directas, nesta próxima década, são impensáveis. Ainda é cedo, disse o tribuno, arregimentando uma série de razões, mais ou menos incompreensíveis, mais ou menos falaciosas, que radicam, afinal de contas, no mesmo axioma de cartilha: a falta de preparação da população. Até quando se vai argumentar com a falta de preparação da população para tudo e o mais, é qualquer coisa que me escapa, mas suspeito bem que, pela década fora, a população há-de continuar a estar mal preparada e a funcionar como álibi quase-perfeito para esta simpática endogamia.
Nem sou eu que o digo. Basta citar o insuspeito, e inesperado, relatório que o Centro de Pesquisa Estratégica para o Desenvolvimento de Macau tornou público, na passada sexta-feira, e que demos conta no Hoje Macau. Quem se der ao trabalho de o ler encontrará ali uma rara eloquência. A colecção de vícios que, em cínica promiscuidade, coexistem com duvidosas práticas das elites dominantes, desde a classe política, ao funcionalismo e ao associativismo, só torna visível, de dentro, um regime de administração e de governação, no mínimo, esclerosado. Devo dizer que o grau de denúncia patente no relatório me surpreendeu. Duvido que, há um par de anos, um documento destes pudesse ter sido publicado nestes termos – no timing, na crítica e no tom. Simplesmente, não seria possível. E, no entanto, alguma coisa se moveu. Mais tarde ou mais cedo, alguém haveria de perceber que este estado de coisas seria insustentável por muito mais tempo e, logo, incompatível com qualquer gradualismo ou apêndices retóricos do género. Para mim, a questão da democracia, seja o que se queira entender com esta democracia, ainda é uma nebulosa. Importa-me menos a macro-política do que a micro-política, as práticas quotidianas entre os indivíduos, vizinhos, amigos, no local de trabalho, as pequenas relações de poder do dia-a-dia. Mais do que o momento ritualizado do voto, o que mais se torna urgente e relevante é avaliar até que ponto esta pequena corrupção não sustenta aquela outra corrupção maior: o feudalismo, o elitismo, a exclusão, o medo de discordar, o oportunismo, a cultura do dinheiro fácil, a “minoria oportunista e gananciosa”, de que o relatório também fala, e que diminui valores como a honra, a palavra dada, a honestidade necessários a qualquer cultura cívica que se preze.
O problema é que, verdadeiramente, ninguém está disposto a ceder a sua pequena migalha de poder e de estatuto. O problema é que em vez de funcionários e dirigentes de honra domina a cultura do chico-espertismo, do está-secagandismo, do venha a nós o vosso reino! O ponto está todo aqui. Este foi o preço social e cultural a pagar por estes dez anos de desenvolvimento furioso e de sucesso. Eis o preço de Fausto. O que ganhámos na carteira perdemos na cultura e na sociabilidade. Bem pode o estudo de Leong Vai Tac (eis um indivíduo a seguir com atenção, e existem outros) falar do decréscimo da qualidade cívica das jovens gerações. Pudera! Com outros dez anos assim só os mais fortes sobreviverão. Como na selva. Não é isto que queremos. “

Editorial de Carlos Picassinos no Hoje Macau que a avaliar por isto incomodou o director de um jornal concorrente . Nada que me espante muito

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