Se na semana passada relatava a chatice do modo chato que é viver em Macau, desta vez espero ser um pouco mais comedido no aborrecimento e regozijar-me com a visita de Hu Jintao ao território.
Esta visita, ao que penso, é uma forma de reconhecimento e prémio pelo esforço das autoridades da RAEM em manter o segundo sistema, o tal que se diferencia em todo do primeiro sistema.
Não entro em demasiados pormenores sobre sistemas pela razão simples de que estes fazem-me lembrar as acusações no futebol nacional, isto porque, como sabemos, cada equipa tem o seu sistema de jogar a que os orientadores técnicos, neste caso específico, chamam táctica. Porém, é habitual quando as coisas não correm muito bem nestas formações os dirigentes responsáveis virem com acusações motivadas pelo sistema.
Sistemas à parte, e sem querer discutir quem nasceu primeiro, se o ovo ou a galinha, a visita deste nobre líder da RPC a Macau tem a finalidade de vir juntar-se à população para comemorar os dez anos do aniversário da fundação da RAEM.
Na minha perspectiva esta visita nada tem de anormal, se veio festejar a passagem do aniversário dos cinco anos, era óbvio que o faria no décimo aniversário desta ocorrência.
O meu regozijo, porém, vai muito para além da visita e do significado que lhe possam dar, e está relacionado com as melhorias significativas registadas nas vias públicas, que ao fim de tanto tempo tiveram a atenção merecida das autoridades.
Assim, por exemplo, ruas esburacadas há muitos anos foram alvo de repavimentação, alguns passeios públicos (suponho tratar-se de troços por onde o ilustre visitante vai passar) tiveram honras de arranjo e embelezamento, e começa-se a sentir algum cuidado em separar os espaços definidos para os peões do restante trânsito automóvel.
O caso mais evidente destes cuidados prende-se com a pintura, novinha em folha, da ponte do oeste e que mais uma vez denuncia o percurso de Hu Jintao. A propósito destas evidências, não sei se os serviços secretos dão conta da exposição clara a que este alto funcionário da RPC está patente e se têm consciência do perigo que representa esta forma de maquilhar tudo o que tem a ver com o seu itinerário.
Longe de mim pensar que haja alguém neste território com intenções maléficas e com o propósito de o incomodar, a ele ou à comitiva, nada disso. Apenas recordo que se todas as ruas, estradas, passeios, jardins, pontes e fachadas de todos os prédios sofressem esta operação de cosmética, faria com que o povo saísse à rua e ocupasse todas as praças e jardins com a esperança de que poderiam abraçar o grande líder da Pátria chinesa.
A meu ver, este gesto de banho de multidão seria bom para Macau e para a China e aumentaria a confiança e harmonia entre os dois sistemas.
Ao mesmo tempo, seria mais um passo importante para estimular as relações da China com os países que se exprimem na língua da fadista Ana Moura, isto porque, seria natural que, espontaneamente, as muitas organizações de cariz lusófono se quisessem associar em forma de manifestação à visita de tão ilustre personagem.
Pessoalmente, e se a segurança o permitir, nesse dia lá estarei vestido a rigor, com uma camisola da selecção das quinas que o Eusébio me ofereceu depois daquele campeonato de 66 em que ficámos no terceiro lugar.

Nota: se não me virem com a camisola do número 10, é porque não me deixaram entrar.”

Pinto Fernandes in Hoje Macau, cuja crónica semanal nunca deixo de ler

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