Nem uma única vez José Sócrates usou a palavra reformas no seu discurso de posse. Nem uma única vez sugeriu sangue, suor ou lágrimas em a benefício de um futuro melhor. Nem uma única vez disse que iria tentar pôr o Estado a gastar menos para que o monstro do défice público não devore a riqueza que o país consiga produzir. Falou sim, em diálogo, co-responsabilização, consensos, convergências: a paz podre. Uma paz sem vencedores nem vencidos, sem conflitos nem escolhas, sem problemas nem soluções. Paz no nosso tempo, paz nesta legislatura – e a geração seguinte que pague depois a factura.

Também o Presidente não lhe exigiu reformas ou tão pouco as sugeriu. E nenhuma voz da oposição, à esquerda ou à direita, se atreveu a murmurar que, todavia, continua a ser urgente reformar o Estado e a administração pública, que todos os anos consomem metade da riqueza produzida. Que, por exemplo, é preciso conter os gastos na Saúde (dispararam no Verão, depois de uma lei que dispensa de receita médica os medicamentos de administração continuada, integralmente participados pela Segurança Social); que, uma vez dinamitada de alto a baixo a avaliação dos professores, com a conivência de toda a oposição, permanece por resolver esse pequeno problema de termos os maiores gastos per capita da Europa na Educação, com os piores resultados. Pelo contrário: todos estão de acordo em desmantelar organizadamente as poucas reformas que o anterior Governo de José Sócrates ensaiou nos dois primeiros anos de vida – e que, juntamente com a primeira tentativa séria de controlar o défice público, foi a única coisa boa que fez.

Todos os membros do anterior gabinete que tinham ousado enfrentar os lóbis instalados nos respectivos sectores caíram, sem excepção. E, assim, todos ficaram felizes e a esperança regressou aos habituais clientes de dinheiros públicos: a torneira vai voltar a abrir-se para todos, seja para comprar submarinos ou fazer negócios de favor com a Refer, seja para não semear nem colher nos campos, seja para produzir ‘arte’ subsidiada para um mercado que a rejeita. Ou para as grandes empreitadas públicas, justamente chamadas “do futuro”, porque vão hipotecar criminosamente o futuro das gerações que se seguem. Afinal, o Bloco de Esquerda até tem razão, por portas e travessas: é menos indecente subir ainda mais os impostos agora, para financiar o delírio de aeroportos, TGV, auto-estradas, pontes e tudo mais, do que deixar a conta integralmente por pagar a quem vier a seguir.

Costumam dizer que o povo nunca se engana na hora de votar e, acreditando nisso, José Sócrates limitou-se a interpretar, muito legitimamente, a mensagem das urnas: o povo quis um novo mandato para Sócrates porque, obviamente, não viu alternativa melhor; mas, desta vez, quis Sócrates a governar em minoria, para ficar livre da tentação reformista e da veleidade de conter os gastos públicos, quando há tanta gente que depende deles. Agora, o povo espera que este governo, contido e manietado à nascença, flutue à tona dos problemas, negociando ora à esquerda ora à direita, de modo a que tudo o que é essencial fique na mesma. Ou seja, que se mantenha a baixa produtividade e competitividade da economia, a ineficácia da administração pública e da justiça e o descontrolo dos gastos públicos, com o consequente agravamento do spread dos empréstimos contraídos pelo Estado português no estrangeiro e a consequente subida dos juros a pagar.

O clima de alegre descontracção que se instalou depois da maratona eleitoral é de tal ordem que já ninguém se preocupa com a famosa crise, com excepção dos mal-afortunados que perderam o emprego. Os funcionários públicos – que tiveram o melhor ano de sempre, com um aumento salarial de 6% (negociado antes da crise), face a uma inflação de 1%, reclamam agora 4,5%, com a tranquilidade de quem não teme a falência da entidade patronal e se está absolutamente nas tintas para o facto de o défice público ter disparado num ano para mais do dobro. Já o PCP, por seu lado, reclama um salário mínimo de 500 euros em 2010, e um aumento de 20%, para 600 euros, dois anos depois – tudo a ser aprovado desde já, com o dinheiro que se há-de inventar ou pedir emprestado ao estrangeiro. E até o eterno dr. Gilberto Madaíl, sem dar cavaco a ninguém, lançou-nos numa candidatura ao Mundial de Futebol, quando ainda pagamos e pagaremos para sempre a factura de seis estádios novos que ele exigiu para o Europeu de 2004 e que não têm sombra de utilidade ou justificação, a não ser o “desígnio nacional” de que falava o dr. Jorge Sampaio.

Perante este panorama de desresponsabilização geral, face a uma legislatura que se anuncia de marcação de todos a todos, sem que nenhum partido ouse enfrentar interesses instalados e pagar a respectiva factura política, José Sócrates não consegue esconder o alívio com que vai recomeçar a governar. Afinal de contas, quase ninguém lhe augurava uma tarefa tão facilitada: trata-se de contentar todos e com o apoio de todos. Essa nova espécie dos ‘politólogos’ não se lembrou, antes pelo contrário, de adivinhar tal cenário: difícil, afinal, é governar Portugal em maioria absoluta e sentir a obrigação e a responsabilidade de mudar o que dramaticamente precisa há décadas de ser mudado.

Para a festiva ocasião, Sócrates montou assim um extraordinário governo, composto pelo ‘núcleo político’ e o ‘núcleo técnico’. No primeiro, estão os ‘ideólogos’ e políticos profissionais do aparelho socialista – gente como a notável promessa vinda da JS, Marcos Perestrello, humilhantemente ‘sovado’ por Isaltino Morais, em Oeiras. No segundo, está um ilustríssimo naipe de desconhecidos funcionários públicos ou aparentados, e onde se aproveitou para despejar a incontornável quota feminina, para grande satisfação da drª Edite Estrela. Aos primeiros, cabe a nobre tarefa de fazer política; aos segundos, a de executarem as ordens políticas vindas de cima. Santos Silva e Jorge Lacão, do ‘núcleo político’, já começaram aliás a ‘governar’, com o aviso à oposição de que pagará um alto custo se derrubar um governo apostado em não fazer mal a ninguém. Quanto aos ‘funcionários’, seria uma agradável surpresa se algum deles viesse a mostrar ter voz e vontade política própria: não é certamente por acaso que, com tanta gente com ideias conhecidas e válidas em matéria de agricultura, de ambiente ou de cultura, por exemplo, Sócrates tenha conseguido produzir três absolutos desconhecidos para cada uma dessas pastas.

Este é um governo de aparatchiks e de directores de serviço: uma originalidade, uma experiência nova. Um governo do menor denominador comum, que promete um programa de acordo com a maior vontade comum da nação: que nada de essencial mude. Resta-me dizer, como um dia disse o meu pai, “queira Deus que eu esteja enganado!”.

Miguel Sousa Tavares in Expresso

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