No frente-a-frente televisivo entre José Saramago e o padre Carreira das Neves, o escritor português defendeu o “direito à heresia”. Carreira das Neves respondeu, e muito bem, que Saramago não pode ser herético se não acredita em Deus. Tivesse o nosso Prémio Nobel da Literatura mais cuidado com as palavras e perceberia que aquilo que está a defender é, isso sim, o direito à blasfémia, já que a heresia é um afastamento da verdade “oficial” de uma religião, e por isso pressupõe a existência de fé. Foi apenas um lapsus linguae do autor de Caim? Infelizmente, não. Foi a consequência natural de uma posição absurda, que Saramago resumiu na bombástica frase: “A Bíblia é um manual de maus costumes.”

Não está aqui em causa o direito de Saramago dizer o que lhe apetece, como é óbvio. Mas está em causa o atropelamento de toda a lógica quando alguém que se assume como ateu faz um comentário sobre um livro de uma perspectiva religiosa. Muito boa gente criticou Saramago afirmando que a Bíblia não pode ser lida de forma literal, que também está cheia de gestos de bondade, e mais uma série de argumentos muito atinados mas que passam ao lado do essencial: um ateu pode perfeitamente dizer que a Bíblia é um manual de má literatura; não pode é dizer que é um manual de maus costumes.

“Só quem acredita que a Bíblia tem alguma relação com a palavra de Deus está habilitado para sobre ela fazer considerações éticas. Eu preciso de ter fé para acreditar que naquele livro está não só um conjunto de palavras mas uma série de regras que eu imponho à minha vida. A maior parte dos cristãos dirá que a Bíblia é um manual de bons costumes. Mas seja para dizer que os costumes são bons, seja para dizer que os costumes são maus, é preciso acreditar no “poder ético” daquele livro, ou seja, na transformação da palavra em acção. Ora, um ateu necessariamente não acredita nessa transformação, e por isso tem de olhar para a Bíblia como olha para outro livro qualquer: estética e nada mais.

Portanto, faz tanto sentido o ateu Saramago dizer que “a Bíblia é um manual de maus costumes” como faria dizer que “as obras de Shakespeare são um catálogo de barbaridades”. De Homero a José Saramago, a literatura faz-se de grandes páginas a relatar os actos mais hediondos, e ninguém evidentemente acha que isso seja um defeito. Se para o nosso Prémio Nobel, Caim, Deus ou Jesus são apenas personagens de ficção, que sentido faz considerá-las maus exemplos de vida? Saramago está convencidíssimo de que Deus não existe, mas também está convencidíssimo de que Deus é um pulha. A isto chama-se a lógica da batata. Espero que Saramago escreva um livro sobre ela um dia destes.”

João Miguel Tavares in DN

 

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