E quem é Mário David, um obscuro deputado europeu do PSD, que queria que Saramago renunciasse à nacionalidade portuguesa e que o Governo português fosse declarado inimigo da liberdade de imprensa no Parlamento Europeu, por causa do caso “Jornal de Sexta”, da TVI, ao mesmo tempo que não acha que Berlusconi represente qualquer ameaça nesse campo? Bem, esse é o caso mais fácil de resolver: é alguém que quis ganhar notoriedade à custa de Saramago. Passará à história como um Sousa Lara, o que não é propriamente exaltante

Já o que Saramago diz sobre o Antigo Testamento e o Corão é um caso mais sério e, em minha modesta opinião, não pode ser descartado à conta de ignorância ou arrogância. Assim como não pode ser repudiado com o argumento – esse, sim, intolerante – de que está a ofender os crentes. Basta ter andado pelo mundo de olhos abertos e cabeça limpa, para constatar que, como ele diz, as religiões não servem para unir os homens, mas, pelo contrário e demasiadas vezes, para justificarem a intolerância, o ódio ou mesmo a barbárie.

É certo que, com “Caim”, Saramago ataca a que hoje é a mais tolerante, a mais democrática e a menos inquisitorial das religiões. Nenhum bispo da Igreja Católica o perseguirá com uma fatwa e nenhum católico fará mais do que insultá-lo nos blogues e redes sociais da net – onde o insulto é fácil, fértil e impune. Não é inócuo, mas, pelo menos, não é perigoso. É também verdade que Saramago se limitou a uma visão literal de um texto datado e inaplicado na prática há muito. É inteiramente legítimo do ponto de vista literário, não sei se será do ponto de vista crítico. Também o Corão, lido à letra, é “um manual de maus costumes” ditado por um deus que diríamos cruel e desumano. A diferença está em que o Corão, na sua interpretação literal, continua hoje a ser o guia e o texto sagrado de grande parte do mundo islâmico, que nele fundamenta o terror e algumas das formas mais iníquas e aberrantes de regulação das sociedades.

Enquanto que ao Antigo Testamento se seguiu o Novo Testamento e várias encíclicas, algumas maravilhosas, que hoje constituem os fundamentos teológicos do cristianismo – e com base nos quais, a Igreja católica, os seus servidores e seguidores fizeram e fazem obra notável em lugares do mundo onde ninguém mais faz. Continuar a querer ver o catolicismo e a Igreja Católica como a religião do Antigo Testamento e das fogueiras da Inquisição não é um exercício intelectual sério.

Que tudo isto foi também um golpe publicitário de quem é mestre e costumeiro nisso, é evidente. Mas tudo, em José Saramago, é vaidade e autopromoção. A começar pelo comunismo confortável de que ele se apregoa devoto, mas nada praticante. E a continuar com a fábula do seu auto-exílio em Lanzarote, zangado com a pátria por causa do Sousa Lara. Se há alguém que não tem razão alguma de queixa de Portugal é justamente o Nobel Saramago.

Não impede. Não impede que a persistência de um homem de 86 anos no seu “ateísmo professo”, como lhe chamou o padre Stillwell, me mereça respeito e atenção. Sem dúvida que seria um grande momento de reflexão o debate para que Saramago se declarou disponível com representantes da Igreja ou das comunidades judaica e islâmica. Muito mais além do que esta tranquilidade ideológica podre das sociedades massificadas por dogmas e verdades inquestionáveis.

2 A seguir ao Reader, chegou agora o Kindle, que promete tornar muito mais fácil e confortável a leitura de e-books. A troco de 300 euros e com um simples toque nos botões, tal como nos ipod, é possível aceder aos catálogos das grandes livrarias online e fazer desfilar um sem-número de livros já disponíveis (só a Amazon tem neste momento disponíveis 700.000 títulos – que não pagam direitos de autor por já ter expirado o respectivo prazo). No futuro imediato, e quando for regulado o pagamento de direitos de autor ainda vigentes, o leitor de e-books poderá, por um preço simbólico e sem ter de se deslocar a uma livraria ou fazer uma encomenda, seleccionar o livro que quiser e, se não gostar do início, passar logo a outro, sem gastar mais do que o preço de um café.

Calcula-se que dentro de cinco anos 20% do mercado livreiro já estejam tomados pelos e-books e, dentro de dez anos, as expectativas variam entre os 30% e os 50% . No mercado discográfico, o download das músicas, legal ou pirateado, já atingirá os 80% (os músicos sobrevivem dando concertos, mas os escritores não sabem cantar…) Mas a primeira coisa a morrer vão ser as livrarias: com 30% a menos de quota de vendas e sem poderem subir o preço dos livros sob pena de ainda perderem mais para as livrarias virtuais, só lhes restará fechar portas. Depois, morrerão as editoras, tal como as conhecemos, e, com elas, as distribuidoras. No mundo dos livros virtuais não há papel, nem capas, nem grafismo: não há objecto físico, há apenas um aparelho que tudo contém, uma Biblioteca de Alexandria que cabe no bolso de um casaco. E a seguir morrerão os autores – que, sendo pagos em percentagem sobre o preço de capa do livro, verão este descer vinte ou trinta vezes. Com o tempo, o livro-físico tornar-se-á um nicho de mercado, editado por alguns sobreviventes e destinado a alguns resistentes que não dispensarão os livros nas estantes, que conhecem de cor o cheiro e a capa de cada livro. Ao contrário do universo do “Fahrenheit 451”, os livros desaparecerão em fogo lento, sem necessidade de fogueiras nem fogos-de-artifício a celebrar o seu fim.

Assim nos projectam o futuro. Este é o cenário que está agora em cima da mesa. É certo que ainda é cedo para antever o que verdadeiramente se irá passar e que, à partida, tudo o que é novo tem um tom assustador. Porém, nos últimos anos temos assistido a uma aceleração incontrolável do mundo virtual face ao mundo que conhecíamos. Com tremendas vantagens, nuns casos, com tremendas perplexidades e consequências ainda por avaliar, noutros casos. Quem diria que qualquer cidadão, de telemóvel em punho, se pode tornar um jornalista freelance que fornece imagens de ‘vídeo-amador’ às televisões ou fotografias de paparazzo aos jornais? Quem diria que grande parte da produção da informação se transferiria dos jornalistas para os frequentadores de blogues e a discussão pública sairia do espaço dos media para o espaço da net – onde a formação de opinião se ‘democratizou’, isto é, se tornou instantânea, não verificada, anónima e impune nos seus abusos? E quem diria que essa informação e debate de opinião ‘democratizados’ anunciariam a morte iminente dos jornais? E quem diria que elas acabariam por fazer inverter a regra sagrada do jornalismo – noticiar o que é de interesse público e não o que é do interesse do público – levando os telejornais a abrir com o crime passional de Alguidares-de-Baixo e não com a Cimeira mundial do Clima?

Assim com os livros: mais livros, mais acessíveis, muito mais baratos, sem ocupar espaço algum e, ainda por cima, poupando as florestas. Não será esta uma legítima ambição dos consumidores? Valerá ainda a pena o esforço de tentar resistir e defender um mundo com jornais em papel e livros-objectos? E em nome de quê – da cultura, do prazer de ler jornais e livros em papel? Responderão que a liberdade de escolha é sagrada e que cabe ao mercado decidir. É uma armadilha fatal: porque hoje, no tempo da democracia e do mercado instantâneos, quando a maioria decide uma coisa a minoria é esmagada.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso

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