“Por vezes quando escrevo estes textos dou por mim a pensar se me terei transformado num dos velhinhos dos Marretas, a zurzir contra tudo e contra todos a partir do camarote. “Serei hoje uma pessoa tão amarga que não consegue ver a bondade, o carácter e a competência nem dos que nos governam, nem daqueles que nos querem governar?”, pergunto eu aos meus botões. Mas depois há semanas como a que passou, em que fico mais confiante quanto à minha sanidade mental – e muito menos confiante quanto ao futuro do País. Não, não sou eu que estou maluco. As elites que nos governam é que, de facto, parecem ter definitivamente pirado de vez.

Temos um José que durante mais de dois anos foi acossado por notícias inteiramente legítimas, algumas das quais colocando em causa a sua honorabilidade enquanto governante, mas que entende que não tem nada que dar explicações porque são tudo campanhas negras com o único objectivo de o destruir politicamente. Temos uma Manuela que cola cartazes por todo o País onde resplandece a palavra “verdade”, mas que enfia nas listas dos deputados gente suspeita de comprar votos, e que ao ler uma reportagem fundamentadíssima sobre o tema (com militantes do PSD a darem a cara e a explicarem a arquitectura mafiosa das pequenas eleições partidárias) entende que tudo não passa de boataria eleitoralista, com o único objectivo – adivinhem – de a destruir politicamente. E agora temos um Aníbal que por intermédio do seu braço direito se entretém a sugerir a um jornal, a partir de um café na Avenida de Roma, que o seu palácio está a ser alvo de escutas – um palpite bizarro acompanhado de zero provas -, e que depois de ser apanhado com a boca na botija (ou melhor, no e-mail) aplica a sua técnica habitual: dizer que não tem nada a dizer sobre o assunto e depois dizer o suficiente para que se possa especular sobre ele durante várias semanas.

O Aníbal, o José e a Manuela são, em Setembro de 2009, os três políticos mais importantes de Portugal. Não são presidentes da junta. Não são os autarcas lá da terra habituados a fazer uns jeitinhos. Não são jovens arrivistas à procura de um lugar ao Sol. Vale a pena repetir: o Aníbal, o José e a Manuela são os três políticos mais importantes de Portugal. Ora, neste momento eles já nem sequer se limitam a estar envolvidos em actos de moralidade questionável. Eles não só estão envolvidos nesses actos como entendem que só têm de os justificar quando bem lhes apetecer e no timing que mais lhes convier. Isto já não é só inadmissível. Isto é o grau zero do descaramento e da inimputabilidade. Nem uma camioneta cheia de velhos dos Marretas teria escárnio suficiente para maldizer esta vergonha. ”

João Miguel Tavares in DN

PS: Neste caso das escutas, obviamente a culpa vai cair toda em cima do assessor. Como se Cavaco não soubesse de nada…

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