“O sr. Antunes tem um estabelecimento comercial de esquina entre a Lagoa e Humaitá, no Rio de Janeiro. Tecnicamente, os brasileiros chamam a isto uma padaria, mas, de facto, é mais do que isso: vende bolos também, sumos, sanduíches, salgados e secos, rebuçados e coisas do género, e vende tempo – a donas de casa que não têm muito mais onde o gastar ou a velhos que já o gastaram todo e por aqui se quedam, de olhos distraidamente fixados na rua, aquela cor amarelada de muito sol e doenças pilhadas que se encontra no rosto de tantos cariocas já velhos. Vou lá de vez em quando tomar o ‘cafezinho da manhã’ – um ‘misto quente’, um ‘suco’ de abacaxi e uma chávena do horrível café brasileiro, porque o sr. Antunes nunca se abalançou ao grande investimento que representa uma máquina de café Expresso. E, enquanto espero e sou servido, sento-me ao balcão e observo a cena.

Trinta ou quarenta anos de emigração não trouxeram ao sr. Antunes ou à sua mulher um só laivo de ‘sotaque’ para suavizar a sua inconfundível pronúncia do português sibilante da Beira. Nem o calor o amoleceu, nem a humidade o vergou, nem os olhos perderam a capacidade de estarem permanentemente atentos a tudo o que se passa no estabelecimento, olhando como se não olhasse, sempre alerta, sempre desconfiado. Trata as empregadas por ‘menina isto’ ou ‘menina aquilo’ e guardou o velho hábito dos merceeiros de aldeia de andar sempre com um lápis preso atrás da orelha, com o qual retoma logo as suas eternas contas de somar e subtrair numa folha de papel que mantém sobre o balcão, assim que acaba de aviar um freguês e se certifica que nada à volta requer a sua atenção imediata.

A ‘patroa’ (que despreza a farda das empregadas) arrasta consigo um ar de tédio irremediável e conformado e parece olhar sempre para lado algum – ao contrário do marido, que nunca sossega nem se distrai no seu posto de comando. O olhar do sr. Antunes é duro, desagradavelmente duro. E basta ver os rostos fechados, silenciosos e tristes das empregadas da casa, para adivinhar o quão pouco estimado deve ser o sr. Antunes, aqui, no seu pequeno reino, no seu bairro, na sua vida de emigrante.

Há vinte, trinta anos, nos tempos da ditadura militar e da inflação a 1000% ao ano, as esquinas do Rio estavam cheias de portugueses como o sr. Antunes, com as suas padarias e confeitarias – que, desgraçadamente para eles, eram o primeiro local onde o ‘povão’ recebia o embate diário da inflação. Gerações de brasileiros cresceram a odiar estes portugueses, como se fossem eles a fabricar a inflação e não apenas o pão, como se fossem eles que roubavam a alegria das ruas. E só agora, que a geração dos srs. Antunes se retirou de cena ou conseguiu enfim voltar para as suas casas com palmeiras, lá, nas aldeias de onde eles ou os pais tinham partido, é que os brasileiros se foram dando conta de que nem todos os homens portugueses são merceeiros e nem todas as mulheres têm bigode.

Coisa impensável então, agora é comum ouvir os brasileiros puxarem pelas suas raízes lusitanas. Cento e cinquenta mil brasileiros imigrados em Portugal (e apesar de nem sempre bem tratados…) e a penetração que alguns portugueses e algumas coisas portuguesas começaram finalmente a ter no Brasil, estão a mudar, devagar mas consistentemente, a imagem de Portugal em terra brasileira.

E, todavia, o sr. Antunes não tem culpa do passado – nenhum deles teve culpa. Nenhum desse quase milhão de portugueses, absolutamente miseráveis, que entre 1870 e 1930, embarcaram (a maior parte de tamancos e apenas com uma trouxa na mão) para procurarem ali nada mais do que uma hipótese de sobrevivência. Foram para os cafezeiros do Vale do Paraíba ou para os seringais da borracha na Amazónia – nem Deus conseguiria imaginar em que condições desumanas, mas que poderá adivinhar quem se der ao trabalho de ler esse fabuloso romance que é “A Selva”, de Ferreira de Castro. Alguns, apenas, foram directamente para o retalho ou o negócio dos secos e salgados no Rio ou São Paulo – onde mais tarde se lhes vieram juntar aqueles que a sorte ajudou nas fazendas ou na borracha ou a nova leva dos que foram chegando de Portugal, ‘chamados’ pelos que já ali estavam. E em breve, os portugueses, fazendo o que de melhor sempre souberam fazer em qualquer parte do mundo, desde as tabancas de África até aos biddonvilles de França – isto é, comércio e mercearia -, tomaram conta do negócio, nesses anos trinta e quarenta do século passado.

A história é conhecida: de Joanesburgo a Dusseldorf, de New Bedford, Massachusetts, a Belém do Pará, o mundo está ainda hoje profusamente habitado pelo que resta desses emigrantes sem torna que, em tempos para eles gloriosos e já passados, se podiam gabar de serem essenciais ao equilíbrio da balança de pagamentos da mãe-pátria. Por mais desagradáveis que por vezes possam ser à simples vista desarmada os Antunes do planeta português, por mais que eles (e a RTP Internacional) ainda contribuam para espalhar por aí uma imagem de um Portugal felizmente já defunto, nenhuma, absolutamente nenhuma razão de justiça permite julgá-los ou desprezá-los pelo que quer que seja. Eles foram os portugueses que a pátria rejeitou, que viveram uma vida toda sem pátria, que morreram, muitos, longe da terra cuja ausência nunca conseguiram sarar.

Penso nisto, enquanto tomo o meu cafezinho da manhã no estabelecimento do sr. Antunes e meditando no que tinha lido antes de vir para cá, na net: os comentários online de leitores de dois jornais portugueses à campanha eleitoral em curso. Não sei francamente, que tipo de amostra representarão eles dos portugueses de Portugal. Não faço ideia, não me atrevo e nem desejo especular. Mas ali encontro, derramados em todo o seu esplendor (e como em tantos outros sites e blogues da net), os dois piores defeitos, se não mesmo características, do portuguezinho: a inveja e a cobardia.

A inveja dos medíocres para com os que se destacam ou triunfam, e a cobardia dos anónimos, dos que só têm coragem quando o inimigo está de costas ou a mão que atira a pedra é escondida. Já o disse uma vez e já o penso há muito: a net e o seu anonimato garantido parecem inventados de encomenda para servirem os piores defeitos dos portugueses. Não que a política ou os políticos não mereçam tantas vezes desconsideração ou mesmo repúdio. Mas o teor e a arrogante ignorância destes comentários, a viscosa inveja que deles transparece sem subterfúgios, o tom de ofensa e calúnia pessoal com que tratam qualquer político, as escabrosas difamações pessoais como argumento de razão, são simplesmente deprimentes e chegam a ser revoltantes.

Não conheço nenhum povo que trate assim o poder e os seus governantes, nenhum que tenha a soberba de achar-se sempre melhor, infinitamente mais sério e mais inteligente do que os seus governantes. Palavra de honra que, embora tantas e tantas vezes eu próprio me irrite e revolte com a política e os políticos, custa-me perceber como é que alguém ainda tem vontade de fazer política em Portugal: eu não aguentava nem quinze dias!

Repito que ignoro o que valem estas amostras ou as conversas de café que escutamos. Mas convém não esquecer que esta é a mesma gente que, enquanto amochava silenciosa e obedientemente durante cinquenta anos, fazia do Zé Povinho o herói nacional, símbolo da coragem cívica. Não percebendo que o Zé Povinho representa o pior de Portugal: o tipo que faz manguitos aos poderosos – não por serem poderosos, mas por os invejar. E que só o faz pelas costas. Porque, pela frente, come e cala, não arrisca nada de nada e vai para a net destilar inveja e despejar insultos sobre todos os que acha que ocupam o lugar que, por direito próprio, deveria ser seu. Ao contrário dos emigrantes, estes são auto-rejeitados de pátria.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso

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