“Uma das coisas que mais me irrita é o conceito e a imagem de juventude que os políticos apresentam nas suas campanhas. Para eles, basicamente sem excepção, a juventude é uma fase da vida cheia de alegria, energia e esperança no futuro. Os ditos jovens é suposto serem participativos, empenhados, entusiasmados. Na política – e na comunicação política – a juventude aparece sempre aos grupos, mais ou menos vestidos da mesma maneira e demonstrando interesses carneirais.
Ora nada poderia estar mais longe da verdade. Para a juventude, esta imagem de juventude é, sendo simpático, uma SECA. Sobretudo quando esses jovens têm, no mínimo, um palmo de testa.
Ser jovem, no mundo contemporâneo, quando se pensa em onde, quando e como se vive, não é uma idade feita de ilusões, de músicas optimistas, de interesses produtivos e boas intenções – nem deve ser. É um período difícil, cheio de dúvidas (sexuais, profissionais, metafísicas) e borbulhas. É um momento em que nos sentimos sozinhos e incompreendidos, em que pensamos na vacuidade da vida e em que tudo isso tem realmente um efeito na nossa disposição. Ser jovem não é andar alegremente aos pulos com os outros, mas uma era da vida em que se reflecte, duvida e, sobretudo, critica. Os jovens de hoje não parecem querer mudar o mundo, mas não param de criticá-lo. São assim os que pensam por si mesmos, os outros seguem a manada.
Por isso é que soa tão ridícula a imagem da juventude aos pulos de contente e cheia de vontade de mudar o mundo. Muitos jovens de hoje são solitários e deprimidos, não entendem a necessidade do mundo ser assim como é e a grande maioria não vê como pode mudá-lo. Os políticos retratam uma juventude estúpida, grupista e chupista, lobotomizada por anos de playstation e televisão. Mas isto não é verdade e ainda bem. É certo que eles existem. Alguns. E fazem mesmo o que lhes propõem, servindo de referência negativa aos outros, com o seu ar de felicidade estúpida e associada.
Prefiro os jovens que também se procuram na sua própria solidão porque, como escrevi há uns anos – ai de quem não vagueia pelo seu próprio deserto e nele instala a sua tenda. “

Excerto da opinião de Carlos Morais José no Hoje Macau. O resto aqui

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