José Sócrates vai a um encontro da JS (um acampamento ou coisa que o valha) e, avaliando a assistência que o ouve, resolve gabar-se das políticas de “esquerda” e de “modernidade” do seu Governo, dando dois exemplos: “Acabámos com o divórcio litigioso” e “demos direitos às uniões de facto”. Como nada disto é ao acaso, presumo que Sócrates estava a seguir o guião eleitoral dos ‘marqueteiros’ do PS: falar de economia à classe média, de solidariedade e pensões aos velhos e de “questões fracturantes” à juventude. O guião pode ter a sua lógica, mas o espectáculo roçou a indecência, de uma demagogia quase insuportável. Que experiência de vida e conhecimento de causa têm jovens de vinte anos para avaliarem legislação sobre divórcio ou uniões de facto? Saberão eles que, no primeiro caso, o que o Governo fez foi desproteger a parte mais fraca num divórcio, e, no segundo caso, foi intrometer o Estado em opções que são privadas?

Não, claro que não sabem nem entendem nem estavam lá para entender mais do que slogans de ocasião, fumar uns charros e dar vivas ao PS e à juventude, em geral. Aliás, a receptividade desta juventude socialista às “causas de esquerda” foi eloquentemente desmascarada pelo repórter do “Público” que teve a genial ideia de ler a alguns deles passagens do programa eleitoral do PS: os jovens socialistas ouvidos declararam apoiar inteiramente essas passagens. Só que elas não eram do programa do PS… mas sim do do PSD!

Políticas de esquerda, meus queridos meninos, é, por exemplo, não ter taxas de justiça que só a torna acessível a quem é rico, é não taxar os rendimentos do capital especulativo a 10% e os do trabalho até 42%, é não privatizar bens essenciais como a electricidade e a água (que, como bem alertou Francisco Louçã, fazem parte da agenda secreta do PS), é não ter uma política externa que pactua com todos os ditadores e corruptos do planeta se isso garantir negócios às nossas empresas, é não entregar a frente do rio, em Lisboa, a negócios tão escandalosos como o do terminal de contentores da Liscont, é não sacrificar toda a paisagem natural a projectos PIN que mais não são do que um pretexto para vandalizar sem lei, é não entregar a Reserva Agrícola Nacional aos eucaliptos e à especulação urbanística. Isso, meninos, são políticas de esquerda. Da próxima vez que estiverem com o secretário-geral do PS, perguntem-lhe sobre elas. E deixem lá o divórcio, as uniões de facto e outras coisas ‘fracturantes’, que vocês não entendem sequer que são apenas uma nuvem de pó para iludir juventudes partidárias sem causas e esquerdistas de bares lisboetas.

Não é por andar a servir demagogia por todas as boticas que José Sócrates vai ganhar as eleições. Vai ganhá-las porque não há, apesar de tudo, alternativa melhor – sendo que, como ele disse acertadamente, a escolha é entre ele e Ferreira Leite.

E vocês já atentaram bem na doutora Manuela Ferreira Leite? Excelente pessoa, sem dúvida séria e bem intencionada. Ponto final. Não há nada ali que se possa aproveitar politicamente: uma ideia, um projecto, um pensamento novo, uma estratégia alternativa para o país. Nada: é uma cabeça oca. Olhem para o ‘programa’ que a tanto custo finalmente apresentou. Cinco áreas prioritárias: educação, justiça, segurança, solidariedade, economia. Bem observou Marcelo que este genial programa pode servir não só para estas legislativas como também para as que se seguirão inevitavelmente dois anos depois, segundo a sua previsão. Eu diria mesmo mais: servirão para toda e qualquer eleição nos séculos mais próximos.

Nas poucas coisas onde ela decidiu concretizar um mínimo as suas intenções de governação, o resultado é desastroso. Percebe-se que quer liquidar o Serviço Nacional de Saúde, uma das poucas realizações públicas que têm melhorado com o tempo e que funcionam aceitavelmente. Quer apoiar e apostar nas PME, ideia roubada a Paulo Portas. E supunha-se que queria parar com os grandes investimentos públicos com que José Sócrates se propõe combater o desemprego e endividar-nos por gerações. Mas, afinal, não: ela quer apenas suspender, reanalisar, ponderar, etc. – mas não em função de opções estratégicas de desenvolvimento do país e sim em função das disponibilidades de tesouraria. Ou seja: à primeira pressão da clientela das obras públicas, a drª Ferreira Leite pararia logo de ponderar e analisar.

Pior ainda é a história dos professores. Recordo que antes de ser eleita presidente do PSD, Ferreira Leite declarou-se a favor do sistema de avaliação defendido pelo Governo de Sócrates. Eleita e candidata a primeiro-ministro, as necessidades eleitorais levaram-na a inflectir a posição. Agora, a candidata resolveu habitar num limbo: não é a favor nem contra, é pela “suspensão” do processo. Admire-se a coragem política desta proposta. Ela já não se atreve a achar que os professores devam ser avaliados e progredir por mérito, mas também não se atreve a desdizer-se ao ponto de desistir da avaliação. O que fazer, então? Suspender, meter a cabeça na areia e fugir ao problema. Aliás, para quê a pressa de resolver o assunto?

Isto é o programa dela. Igual ou pior é o resto. Se Sócrates irrita muitas vezes pela arrogância, Ferreira Leite irrita outras tantas por aquela pose de superioridade moral, de ‘senhora da verdade’, que para aí ostenta em cartazes, declarações e acções de campanha. Dá ideia de que acredita que o seu currículo é suficiente para que os portugueses lhe entreguem o poder sem mais: sem programa, sem ideias, sem ter de sujar as mãos a bater-se pelos votos. Mas se há coisa que lhe falha, além de ideias, é currículo: já exerceu várias funções de governação e em nenhuma se distinguiu particularmente, a começar pela governação das finanças públicas no governo de opereta de Durão Barroso. Se a isso acrescentarmos as constantes contradições entre o que diz e o que faz e o que diz e rediz, além das extraordinárias confissões que às vezes, inadvertidamente, lhe saem assim pela boca fora, fica difícil de perceber como é que os gurus eleitorais do PSD imaginam poder levar a senhora à vitória, daqui por três semanas.

P.S. – E as coisas estavam neste pé, quando os administradores da Prisa resolveram dar uma ajuda à campanha do PSD, suspendendo ou eliminando o ‘Jornal de Sexta’, da TVI. Dificilmente seria concebível pior serviço prestado a José Sócrates, como por aí vai dizer-se. Aliás, o acto em si e o seu judicioso timing são de tal forma absurdos, que até já ouvi a versão de que é a Prisa a vingar-se de Zapatero, via Sócrates. Mas já teremos chegado a esse ponto de união ibérica? ”

Miguel Sousa Tavares in Expresso

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