“Antes do trivial, um registo para o excepcional: Roger Federer. Aquele que é talvez o maior tenista de todos os tempos (para mim, ou ele ou McEnroe), chegou ao sexto título conquistado em Wimbledon e que foi o mais dificil e o mais dramático de todos, num daqueles jogos para a eternidade que só um desporto tão fabuloso como o ténis pode proporcionar. Federer fez história, domingo passado, ao tornar-se o tenista com mais vitórias de Grand Slam de sempre chegando às quinze e assim batendo o record de Pete Sampras. Curioso é que ele, tal como Sampras, não ficará para a história por ter um serviço demolidor, como Pat Cash, ou uma direita impiedosa, como Lendl, ou a inesquecível esquerda de Mc Enroe ou o inabalável jogo do fundo do court do «Iceborg». Não, o que Federer tem é um ténis sem pontos fracos, que fez dele o número um do mundo, sem ser o número um em nenhuma das pancadas ou das variantes do jogo. Por isso, o seu jogo, além de brilhante, é perfeito de elegância e quem quiser aprender a jogar ténis a sério, pode começar por observar Federer, porque ele é um verdadeiro livro de instruções da perfeição neste desporto: não foge às esquerdas, não tem medo da rede, não tem um serviço vulnerável.
Depois de ter vencido Rolland Garros — o título de Grand Slam que sempre lhe escapara, Federer aproveitou bem agora a ausência de Nadal em Wimbledon para recuperar o título inglês que o espanhol lhe havia roubado no ano passado. É verdade que anteontem tanto podia ter ganho ele como Rodnick e a taça ficaria bem entregue a cada um deles. Mas foi melhor assim, porque o suíço bem merecia este record batido — ele, que, além do mais, é um cavalheiro dentro e fora do court. Nisso, o ténis ainda continua a marcar a diferença para os outros desportos, graças, sobretudo, ao «espírito de Wimbledon», que continua a resistir a modas e a estilos duvidosos: ali todos têm de equipar de branco, ninguém pode ser anti-desportivo ou grosseiro com os árbitros e adversários e não há lá tatuagens nem penteados exotéricos, porque é no campo e pelos seus dotes de atletas que os artistas se revelam — e apenas aí.

O ténis a este nível faz o futebol — mesmo o futebol ao mais alto nível — parecer um circo de vedetas de ocasião.

2 Mas vamos lá ao futebol, essa fatalidade. Por cá, está-se ainda na fase de compras e vendas — aquela que mais interessa aos dirigentes e mais agrada a alguns adeptos. E, como sempre, o campeão desta fase é o Benfica. De há dois anos para cá, ninguém compra, em quantidade e em despesa, como o Benfica. E como, simultâneamente, não vende (porque não quer, dizem eles; porque ninguém os quer, digo eu), a SAD benfiquista vai ficando cada vez mais vermelha e, ou as novas estrelas anunciadas conseguem este ano provar o que os seus antecessores recentes não provaram e começam a amortizar o investimento feito, ou as coisas não tardarão a passar de vermelhas a negras. A aposta em Saviola faz lembrar a do ano anterior em Aimar: jogadores que já tiveramn nome e que por isso são pagos caro e com elevadíssimos ordenados, mas que há vários anos não passam do estatuto de suplentes de luxo em Espanha. Ninguém sabe se conseguem regressar aos bons velhos tempos ou se apenas querem gerir tranquilamente o final das suas carreiras em Lisboa. Já Ramires está mais ao nível das expectativas criadas com Di María: dois jovens com estatuto de Selecção, em quem se depositam enormes esperanças de crescimento com a transferência para a Europa. Di María está longe ainda de ter cumprido as esperanças criadas, mas Ramires, com lugar quase cativo na Selecção brasileira, parece mais sólido. Ambição já se viu que não lhe falta: falta-lhe só contenção para não aparecer logo a dizer que espera vir para o Benfica em trânsito para um «grande» da Europa. Noutros tempos, de grandeza real e não apregoada, o jovem Ramires, se calhar, já tinha perdido o livre trânsito para o Estádio da Luz, à conta desse desabafo íntimo.

3 No FC Porto, é mais do mesmo: saem dois ou três dos melhores, entram nove ou dez cujo valor se ignora e que tanto podem ser um sucesso como um fiasco, destinado a alimentar a interminável legião de supra-numerários que a SAD azul-e-branca sustenta por esse mundo fora. Saíu Lucho, por 17 milhões — depois de se ter jurado que não sairia por menos de trinta. Tal como Quaresma, no ano passado: só saía por 40 milhões menos um euro, e acabou por sair pelos mesmos 17 e com a «oferta» envenenada do Pélé, que se transformou, como era de prever, em mais um supra-numerário para sustentar.

Lucho não precisava de sair: tinha contrato por mais três anos, estava bem pago, gostava do clube e era o capitão. É verdade que foi ganhar bem mais e toda a gente gosta de ganhar mais. Mais ai dos clubes se continuam a deixar sair jogadores que lhes interessam só porque eles recebem uma proposta melhor e ficam «contrariados», coitadinhos. Para que servirão então os contratos — só para proteger os jogadores que ninguém cobiça e não se querem ir embora, por nada deste mundo, como o Adriano?

Não, não foi por isso que Lucho se foi embora. Foi-se embora porque a SAD o queria vender. Porque, como já exliquei bastas vezes, a SAD quer vender dois ou três dos melhores todos os anos porque a gestão do clube é sempre deficitária e só se equilibra vendendo. E é deficitária porque é preciso sustentar um exército de alguns 70 jogadores, quando o normal seria metade disso. E assim se fecha este círculo vicioso: para pagar aos jogadores que não jogam é preciso vender os que mais jogam.

A questão que se coloca é esta: porque razão, quando vende grandes jogadores, a SAD não se limita a encaixar o dinheiro e a amortizar a dívida e, pelo contrário, vai logo comprar dois ou três por cada um que vende, assim aumentando todos os anos o rol de pagamentos e o crónico défice? Pois, essa é a grande questão, que qualquer auditor de contas ou conselho fiscal tinha obrigação de controlar: basta ir ver a quem são pagas comissões nas compras e que interesse tem o clube em ter jogadores emprestados por todos os lados. Por exemplo: se, depois de vender o Pepe, o Quaresma e o Bosingwa no ano passado, a SAD não tivesse comprado nenhum jogador e, pelo contrário, tivesse ido aproveitar alguns com quem tem contrato e a quem paga e não aproveita (o Ibson é o caso mais notável e incompreensível), este ano não seria preciso vender jogador algum…

Falhada a venda fantástica de Cissokho, logo temi pela sorte de Lucho, Lisandro ou Hulk. Porque o Bruno Alves, esse, está só à espera que se materialize alguma das muitas cobiças já reveladas e, à primeira oferta firme, marcha logo. Mas só a venda do Bruno Alves não chega, depois de falhado o Cissokho. E como o Lucho acabou vendido quase ao mesmo preço que o Cissokho (!), também essa venda é curta para o muito que há a amortizar e o muito que é preciso para gastar com aquela vaga habitual de sul-americanos, de preferência argentinos: os Farías, Guárins, Tomáz Costa, Mariano, Bénitez, etc. Eis, pois, a minha aposta: foi o Lucho e seguem-se o Bruno Alves e o Lisandro. E, quanto mais tarde forem, pior será, porque o desespero vai fazer baixar o preço de venda, como sucedeu com o Quaresma, no ano passado.

Enfim, o triste cenário habitual. Eu até já tenho medo de comprar os jornais da manhã, nesta altura da época! Não digo que o FC Porto, como Benfica e Sporting, não precise de vender, de vez em quando, ou não deva vender, quando o negócio é demasiado irresistível. Mas não era preciso vender todos os anos dois ou três dos melhores. Bastava que a gestão fosse mais transparente e que conseguisse também, de quando em vez, vender um dos outros, daqueles que só servem para receber o ordenado ao fim do mês.

Miguel Sousa Tavares n’ A Bola.

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