«Ó musa do meu fado Ó minha mãe gentil Te deixo consternado Num primeiro Abril Mas não esquece quem te amou
E em tua densa mata Se perdeu e se encontrou: Ai essa terra ainda vai
Cumprir seu ideal Ainda vai tornar-se Um imenso Portugal” (Chico Buarque, ‘Fado Tropical’)


Não, nunca iremos tornar-nos um imenso Portugal. O nosso fado está traçado e, após oportunidades e mais oportunidades desperdiçadas, vamos ser apenas um Portugal dos pequeninos, um Portugal pequenino. Vamos ser o Portugal onde os melhores já não querem governar porque não aguentam a eterna maledicência da rua. Onde o povo tanto lhe faz ser mal ou bem governado porque é sempre contra. Onde ninguém — pessoa, corporação, empresa, sindicato — deixa de achar sempre que tudo lhe é devido e nada lhe é exigível. Onde as grandes construtoras vivem quase todas de sacar ao Estado obras inúteis, porque de outro modo não sabem viver. Onde ninguém pensa a prazo porque há sempre uma eleição pelo meio que não se pode perder, mesmo que seja a feijões, como as europeias que acabamos de atravessar.

Portugal está a tornar-se um sufoco, um país sem saída e sem viabilidade à vista. De que iremos nós viver dentro de dez, vinte anos, já sem fundos europeus? Ninguém sabe, além da inevitável e estúpida resposta: do turismo. Lembro-me de ter feito esta mesmíssima pergunta a Cavaco Silva, era ele primeiro-ministro, há largos anos, e de ele ter olhado para mim como se a pergunta é que fosse estúpida. Lembro-me de um debate com José Pacheco Pereira em que ele defendia a política do betão e das auto-estradas de Cavaco, com o argumento de que sempre era melhor ficarmos dotados das infra-estruturas do progresso: estradas, hospitais, escolas. Hoje, José Sócrates, para mais pressionado pelo terror de um desemprego fora de controlo, acredita exactamente no mesmo, julgando, através da política obreirista, conseguir o três em um: sustentar as empresas portuguesas, criar emprego e dotar o país de modernas infra-estruturas. Na verdade, são três mentiras em um: as empresas portuguesas são parceiros menores de grandes consórcios internacionais, onde os espanhóis lideram quase sempre e a banca é que fica com a fatia de leão dos negócios que os contribuintes pagam; o emprego é aproveitado pelo submercado de trabalho dos brasileiros, africanos, romenos e moldavos, que, finda a empreitada, se vão embora; e temos modernos hospitais abandonados por falta de doentes, de médicos e de viabilidade, escolas encerradas porque não há alunos no interior, auto-estradas fabulosas e despovoadas como apenas vi no Novo México ou no Arizona.

Seguramente que haverá, haveria, outro modelo de desenvolvimento que não consistisse em fazer obra inútil que escoa os recursos financeiros da nação e a endivida para gerações, ou destruir paulatinamente o litoral e a paisagem protegida para a vender à ilusão turística. Não temos agricultura, não temos pesca, não temos construção naval, não temos indústrias extractivas: não temos sector primário. E, quanto ao resto, e tirando algumas ilhas de excelência, servidas por profissionais que rapidamente querem é ir-se embora, o que temos? Vejam, por exemplo, a grande aposta na educação, a ladainha de todos os governos, desde que me lembro. Olhe-se, por exemplo, para o exame de Português do 12º ano, realizado na passada segunda-feira: os alunos radiantes com a facilidade obscena do teste. Todos, não é verdade: os bons alunos, os que estudaram, os que se prepararam lendo Camões, Pessoa, Saramago, os que aprenderam a ler, a escrever, a interpretar um texto, esses sentiram-se roubados e com toda a razão. Para efeitos de estatística e propaganda política, o Ministério da Educação serviu-lhes uma prova de exame que os nivelou com todos os medíocres. O exemplo que vem de cima.

A mediocridade há-de sempre querer que o nivelamento se faça por baixo. Há-de sempre querer afastar critérios que assentem no mérito, no trabalho, no talento, na honestidade, nos valores. O que distingue um país com futuro de outro que o não tem é justamente o desfecho desse embate. Em Portugal premeia-se o absentismo e a rotina; desculpa-se a incompetência e aceita-se resignadamente a burocracia e o autoritarismo imbecil; perdoa-se a ausência de valores éticos a todos os níveis e trata-se socialmente por senhores os que nada mais são do que bandidos; condecora-se o triunfo empresarial por favor político; perdoam-se os impostos e os crimes fiscais aos grandes vigaristas, enquanto se persegue implacavelmente o pequeno e honesto devedor ou aqueles que mais impostos pagam e que não fogem ao fisco; arquivam-se os crimes que são difíceis de investigar e tortura-se a mãe da Joana, transformando os responsáveis em vedetas mediáticas; consente-se o indecoroso tráfico de influências entre o poder político e a advocacia de negócios e pretende-se calar o bastonário dos advogados que, à revelia dos bons costumes, denuncia o que todos sabem ser verdade.

A todos os níveis, instalámos uma cultura de irresponsabilidade, de desculpabilização, de normalização do que deveria ser intolerável. Só este exemplo, colhido da entrevista que o procurador-geral da República deu a este jornal, no sábado passado: diz Pinto Monteiro que acha, de facto, que a investigação do caso Freeport já durou de mais e já poderia estar acabada. Mas não está, nem ele é capaz de dizer quando estará — muito embora saiba que a continuação do processo sem desfecho poderá vir a ter uma influência séria nas eleições próximas. Então, o que faz o procurador? Dá um murro na mesa, exige aos magistrados do Ministério Público que cheguem finalmente a uma conclusão e marca-lhes um prazo para tal? Não, limita-se a encolher os ombros e continuar à espera. Porque, aparentemente, é assim que as coisas se fazem, em obediência ao sacramental princípio da total independência e irresponsabilidade dos magistrados do Ministério Público. Ditoso país este, em que é bem mais importante o estatuto dos magistrados do que a realização da justiça em tempo útil! E assim acabámos por chegar à situação escandalosa de, não havendo nunca culpados de coisa alguma, todos serem suspeitos de tudo.

E já ninguém se rala, ninguém liga, ninguém leva nada a sério. À força de já não esperarmos mudanças em alguma coisa de substancial, damo-nos por satisfeitos porque o Presidente da República deixa cair de vez em quando uns ‘recados’ cifrados aos políticos e um quarto do eleitorado dá-se ao trabalho de ir às urnas, de tempos a tempos, “mostrar um cartão amarelo” ao Governo. Há tempos, dizia-se que somos um país adiado. Hoje, acho que o mais certo é dizer que somos um país cancelado.”

Miguel Sousa Tavares in Expresso

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