“Mário Soares lançou um novo livro de crónicas, Um Mundo em Mudança. A capa: uma fotografia dele próprio, no canto superior direito, e outra de Barack Obama, no canto inferior esquerdo. Nuno Rogeiro lançou um novo livro de análise política. A capa: Barack Obama, de sorriso nos lábios, sob o título Obama em Guantánamo. No espaço de seis meses deve ter saído uma dezena de livros em Portugal com Obama na capa, e desconfio que o próximo número da revista Cães e Companhia também já tenha lugar reservado para Bo e respectivo dono. Aguardamos ansiosamente por uma Teleculinária com as receitas favoritas de Obama ou até, quem sabe, uma revista Labores com a sua imagem em ponto cruz.

Sinto muitas saudades do tempo em que o meu amor por Barack Obama tinha uma certa exclusividade. Era o tempo em que John Edwards ainda estava na corrida das primárias democratas como representante da verdadeira esquerda; o tempo em que os comentadores “lúcidos” explicavam que Obama jamais poderia ser eleito; o tempo em que se garantia que ele era apenas marketing, um montinho de paleio e nada mais. Hoje em dia, a unanimidade em torno da sua pessoa, sobretudo na Europa, é de molde a provocar urticária a quem é alérgico a todas as manifestações de pensamento único. De repente, é como se o Presidente dos Estados Unidos fosse o inesperado vencedor do Euromilhões lá da aldeia: ele olha à sua volta e descobre que afinal só tem grandes amigos – e de há muito.

Com excepção de Pacheco Pereira – um verdadeiro profissional da desconfiança que guarda os seus entusiasmos para alfarrabistas e telescópios -, e da sempre esquisitinha Santa Sé – que se tem entretido a vetar embaixadores americanos -, os encómios com que Obama tem sido coberto são inéditos. Naqueles barómetros giros do sobe e desce, Obama tem mais setas a subir na sua direcção do que o general Custer quando estava a ser atacado pelos índios em Little Big Horn. Há um lado bonito nisto, que tem a ver com um reavivar da esperança nos líderes políticos. E há um lado feio, que é a colagem tantas vezes forçada à sua pessoa e o aproveitamento da sua imagem para adornar qualquer naco de prosa sobre o estado do mundo.

Na próxima semana ir-se-ão cumprir os 100 primeiros dias de Barack Obama à frente do governo dos Estados Unidos. O homem não tem parado, e muito daquilo que já fez ou prometeu, de Cuba ao Irão, passando pelas questões da tortura e das alterações climáticas, é de modo a valer-lhe uma chuva de elogios. Talvez mesmo a capa de mais um livro ou dois. Mas até para fazer justiça às suas extraordinárias qualidades, convinha que a esquerda europeia parasse de fazer dele um santinho dos altares, onde coloca devotadamente todas as suas preces. Ver tanta fé em ateus, confesso, anda a causar-me um bocado de impressão.”

João Miguel Tavares no DN

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