«Basta ter lido esse livro sumptuoso que é “Memórias de Adriano” para perceber que o amor entre duas pessoas não é um exclusivo de heterossexuais. E então, se a simples boa-fé manda reconhecer a mesma dignidade aos sentimentos amorosos independentemente da orientação sexual, não há razão de direito para lhes recusar idêntica legitimidade perante as leis civis de que gozam as uniões heterossexuais. Reconhecer isto não implica nem concordância nem sequer a aceitação como coisa natural do casamento entre homossexuais — implica apenas a aceitação da sua legitimidade. A minha regra é simples: desde que não interfira com direitos alheios, não podemos proibir tudo aquilo com que não concordamos ou não praticamos. Mas compreendo que outros pensem diferente e seguramente que acho completamente legítimo que a Igreja Católica milite activamente contra esta doutrina.

Porém, a forma como José Sócrates apresentou o casamento entre homossexuais como tema de campanha eleitoral, reclamando um estatuto de ‘esquerda fracturante’ e ‘vanguardista’, é simplesmente pornográfica. Tem que ver apenas com a necessidade de se precaver à esquerda da ameaça de Manuel Alegre e do BE, com considerações de oportunismo eleitoral, e com a vantagem adicional de distrair as atenções dos tolos e, em particular, dessa tribo invertebrada do aparelho socialista.

O mesmo se diga da eutanásia, já também insinuada como novo tema ‘fracturante’ e igualmente propício a desviar atenções perante o terramoto que se anuncia. O “Titanic” afunda-se e a orquestra socialista vai tocando. Por cada novo desastre em perspectiva, por cada nova notícia negra, o PS e Sócrates avançam com novo tema ‘fracturante’ e nova ideia de ‘esquerda’, sem nenhuma réstia de decoro ou de tratamento digno perante assuntos como o casamento entre homossexuais ou a eutanásia, assim criando o pior clima possível para a discussão pública que se impõe. Esta é a forma de fazer política que eu mais desprezo. A que não tem verdadeiras convicções, mas apenas oportunidades, a que vomita demagogia para cima de assuntos sérios. Foi assim que se perdeu o primeiro referendo sobre a despenalização da aborto: não porque a maioria fosse contra, mas porque se sentiu abusada pela forma como a questão foi lançada na arena política.

Agora, chegou a vez da campanha contra os ‘ricos’, com a qual José Sócrates espera tocar a reunir toda a esquerda em volta deste seu Robin Hood — o mesmo, o mesmíssimo, que andou e anda a usar o dinheiro de quem trabalha e paga impostos para proporcionar os grandes negócios dos escandalosamente ricos, através de sucessivas empreitadas de obras públicas, algumas inúteis, quase todas ruinosas. Não incomoda o socialista José Sócrates que a Caixa Geral de Depósitos, o banco público, tenha andado a financiar com centenas de milhões de euros operações de pura especulação bolsista e agora, não conseguindo cobrar os créditos, poupe o património pessoal dos devedores (como não faz a quem se tenha endividado para comprar um T1) e lhes dê condições de renegociação da dívida que são um privilégio escandaloso. Não incomoda o socialista José Sócrates que o seu ministro Mário Lino gaste meio milhão de euros em festas de inauguração de cada novo troço de auto-estrada. Não incomoda o socialista José Sócrates que os dinheiros públicos sirvam para acorrer ao salvamento de negócios bancários irresponsáveis e inviáveis, como o BPP ou o BPN, em lugar de os deixar afundar, como, além de mais, o exigia a credibilidade do mercado. Não incomoda o socialista José Sócrates que o que resta do património natural ainda preservado do país seja vandalizado ao abrigo dos projectos PIN e com a chancela de interesse público dada pelo Governo. Não. O que incomoda o socialista José Sócrates é que os ‘ricos’, como ele lhes chama (isto é, a ínfima minoria que declara os seus rendimentos e paga 42% de IRS, em lugar de criar empresas fictícias para lá enfiar despesas pessoais ou abrir contas em offshores estrangeiras), possam deduzir com a saúde ou a educação as quantias que o próprio Governo definiu como razoáveis. Vai, pois, conforme anunciou, subir ainda mais o IRS para quem mais paga e cumpre, para o ‘redistribuir’ pela ‘classe média’ — contas feitas, e se alguma vez devolver dinheiro a alguém, parece que caberão quatro euros a cada representante da ‘classe média’. Eis o socialismo, tal como José Sócrates acaba de descobrir. Dá vontade de ir pagar impostos para outro lado…

Acredito que nem José Sócrates nem Teixeira dos Santos imaginaram que a bola de neve que começou a rolar suavemente há um ano pudesse degenerar na avalancha que agora nos engoliu. Nisso, estiveram, aliás, acompanhados por todos os dirigentes políticos e gurus económicos do planeta inteiro. Mas quando se tornou evidente, aí há uns quatro meses, que o vendaval originado nos Estados Unidos iria varrer tudo, o PM e o ministro das Finanças perderam o controlo emocional da situação. O aval do Estado dado às operações de refinanciamento da banca foi uma medida adequada, feita sob pressão imediata. Mas o auxílio pressuroso e não ponderado ao BPN e depois ao BPP foi um tiro monumental no pé. A menos que ocorra um milagre não previsto nos livros, o que vai acontecer é que o Estado gastou uma fortuna irrecuperável para tentar salvar o que não tinha nem merecia ter salvação possível. Mas não foi apenas como medida financeira que essa decisão se revela, a cada dia que passa, desastrosa. Foi o exemplo que ficou, uma espécie de pecado original sem remissão possível: perante uma crise cuja principal causa foi a ganância e a a irresponsabilidade de alguns banqueiros, o Governo, em lugar de aproveitar para seleccionar logo o trigo do joio, preferiu jogar o dinheiro dos contribuintes para tapar provisoriamente buracos de negócios de vão de escada. E agora, como é óbvio, todos se sentem no direito de reclamar que ele acorra a tudo, ao que presta e ao que não presta, ao que tem viabilidade e ao que não tem.

Prisioneiro político desta tremenda asneira inicial, sinto que o Governo navega à vista, enfrentando a crise sem bússola e sem rumo. Incapaz de pensar, marra em frente, recusando-se a arrepiar ou alterar caminho no que quer que seja — como nos faraónicos e inúteis projectos de obras públicas com que entusiasticamente nos ameaça. Confunde a dúvida legítima com a hesitação e teme o preço político a pagar se der sinais de indecisão. Visivelmente nervoso e tenso, Sócrates não quer reflectir nem ser contrariado. Abre a televisão e vê todos os dias centenas de novos desempregados desesperados, vê as imagens chocantes dos milhares de sobreiros (um dos verdadeiros clusters de futuro da nossa economia), derrubados para a urbanização do Vale da Rosa, em Setúbal (viabilizada por despacho do próprio Sócrates, quando ministro do Ambiente), e concluí pela fuga em frente. Acredita que o eleitorado interiorizou que a culpa da crise é da direita dos negócios e vai ser preciso um salvador vindo da esquerda. Ei-lo.

Se não pode impedir o crescimento do desemprego, se não quis e não quer enfrentar o poder do grande capital, resta ao socialista Sócrates rapar no caldeirão da demagogia: eutanásia, casamento de homossexuais, Robin Hood fiscal, e, para acabar, senhoras e senhores, tomem lá outra vez com a ameaça da Regionalização — essa medida ‘socialista’ tão cara ao aparelho do PS. Eu penso que José Sócrates está a ver mal as coisas: os portugueses têm muitos defeitos, mas nunca foram politicamente tolos

MST in Expresso

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