“O homem que pensa Portugal, dizem, o ensaísta, dizem, para mim o Eduardo não é nada disso, ou antes chamar-lhe isso é tão redutor. Inventou uma maneira de imaginar

Acho que não devia fazer electrocardiogramas eu, devia fazer escalas de Richter porque me parece que em lugar de coração tenho um sismógrafo cuja agulha assinala o menor estremeço interior ou exterior com uma amplitude imensa: basta-me viver para a agulha não parar e que cordilheiras de tinta os meus dias.

Se me perguntam

– Como vais?

só tenho a mostrar riscos enormes, capazes de fazerem cair todos os prédios da cidade e espanta-me que Lisboa permaneça intacta e o chão nem oscile. Sábado jantei com Eduardo Lourenço. No fim disse que não queria boleia, que o hotel era mesmo ali e vi-o atravessar a rua em baixo, sozinho, um pouco curvado, no seu passo miúdo e comoveu-me vê-lo caminhar noite fora, de cachecol ao pescoço, a ferver de vida entre os candeeiros. Eu passo o tempo a delirar, dizia ele, mas só deliro para dentro porque se delirar para fora internam-me. E fico a assistir, calado, enquanto fala. Lembro-me que há uns anos, em Bordéus julgo eu, falámos a quatro mãos de Literatura sem nada preparado, nada pensado, assim de improviso, nos divertimos imenso e deu-me ideia que a assistência também.

Na altura cochichei-lhe – Devíamos dar um curso de Teoria da Literatura a meias

e que o projecto nos fez rir: conversarmos sem plano, ao sabor do que nos vinha à cabeça. Somos tão diferentes e, no entanto, que maravilha de sintonia interior. Acho que é das pessoas que melhor compreendem o que faço e que com mais profundidade disso escreveu. E depois a obra dele, inclassificável, única: o homem que pensa Portugal, dizem, o ensaísta, dizem, e para mim o Eduardo não é nada disso, ou antes chamar-lhe isso é tão redutor. Inventou uma maneira de imaginar, uma meta-linguagem irrepetível que nos contém a todos, criou um universo verbal em perpétua expansão, um continente, antes dele, por achar. E, de vez em quando, disso nos dá notícia nos seus livros e quem tiver ouvidos para ouvir que oiça. Sempre me deu ideia de existirem equívocos sobre equívocos na apreciação do que faz e erros interpretativos de toda a ordem. Parece-me que o admiram sem o entenderem, cola-se-lhe uma etiqueta, afirmam-se umas banalidades veementes e passa-se adiante, quando aquilo que ele constrói é uma máquina do mundo. Olha, parou de chover. Uma máquina de entender o mundo através do homem, infinitamente simples

(parou mesmo de chover)

sob a inevitável complexidade artesanal da sua arquitectura, tudo atravessado por um humor subterrâneo, uma discreta ironia sulfúrica e uma espécie de inocência sábia, se assim me posso exprimir, de criança antiga, dona de um dedinho certeiro

(lá vai ele a atravessar a rua no seu passo miúdo)

que vai direito ao mais fundo das coisas trazendo toda a sorte de despojos que nos permitem entender-nos. Esta capacidade de iluminar a vida

(afinal não parou de chover)

é muito rara e ao mesmo tempo (que difícil exprimir o que sinto) profundamente portuguesa. Chega–me à cabeça uma frase da Peregrinação, «e com muita Ave-Maria e muito pelouro nos fomos a eles e em menos de um Credo os matámos a todos», chega-me outra, de Matias Aires salvo erro, «porque loucos os não há senão em língua portuguesa».

(em que ficamos, parou de chover ou não?)

mas para mim ele é também o Eduardo, meu amigo, o seu sentido de humor, a sua alegria, a sua paixão da vida. Gosto dele que me farto, beijo-o ao encontrá-lo e gosto de o beijar: que curiosidade sem limites, que júbilo infantil perante o mundo. Levamos

(É noite, por mais que espreite não percebo que chove.)

meia hora a percorrer dez metros dado que ele pára uma eternidade, a cada metro e meio, para conversar, num sorriso que lhe transforma a cara, de olhos meio escondidos sob dúzias de pálpebras e os cantos da boca a aumentarem bochechas acima, com a mão à frente num gesto, sempre incompleto, que a esconde. E depois é fino como um coral

(de onde virá a expressão fino como um coral: não compreendo o que tem a ver uma coisa com a outra, nunca achei os corais finos)

o malandro, apanha as intenções e a maneira de ser das pessoas da mesma forma que a língua do camaleão apanha a mosca e retrata-as numa frase, meia dúzia de palavras apenas, onde cabem inteiras, à maneira de um Rafael Bordalo Pinheiro do verbo, só que mais docemente implacável

(Agora é manhã e está sol, para além de um frio do caraças.)

Chateia-me que um dia, antes ou depois de mim, morra, o que deve chateá-lo muito mais do que eu. Mas talvez então se compreenda o resto que explicou dentro do tudo que disse, e tenhamos uma imagem mais perfeita da sua obra ímpar. Porque parte da sua mensagem acha-se oculta no interior das palavras e se sentirá a sua falta como qualquer coisa de irremediável. E daí o mais certo é que não morra nunca, continuando a atravessar as ruas no seu passinho miúdo delirando o real, porque loucos os não há senão em língua portuguesa, e resolvendo para sempre, finalmente, a escuridão.”

Belíssima crónica de Lobo Antunes na Visão

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