“TRÊS meses volvidos, treze jornadas cumpridas, o FC Porto retoma velhos hábitos e lá está, no seu lugar habitual das últimas duas décadas: o primeiro e isolado. Como se dissesse «pedimos desculpa por esta breve interrupção, a normalidade está reposta». Mas, não, não se pense que estou a cantar vitória antes de tempo, como é próprio de outros. Eu sei que teremos de lutar muito, muito mais para que «nos deixem ganhar o campeonato em campo» (para usar a frase de Luís Filipe Vieira, a que já irei). Eu sei que este está a ser o mais competitivo campeonato dos últimos anos e também sei perceber quando é que o caldeirão da frustração alheia está prestes a explodir e qual é a solução usada para aliviar a tensão.

Para virar o ano no primeiro lugar, ao FC Porto foi preciso ultrapassar a tradicionalmente difícil jornada da Madeira, contra o Nacional. E a coisa esteve tremida. O azar a abrir, com uma bola na barra ao minuto um e o Nacional a chegar ao golo, totalmente fortuito, no primeiro remate feito à baliza. Seguiu-se o desnorte da equipa, acusando o golpe e a injustiça e toda uma primeira parte assim perdida. Já vi este filme inúmeras vezes: um campo pequeno, um adversário que chama a si toda a sorte do jogo e o FC Porto acusando dificuldades antigas de dar a volta a um resultado negativo. Mais apreensivo fiquei ainda quando vi Jesualdo Ferreira fazer entrar Mariano González para defesa-direito, depois do intervalo: por mais que Jesualdo insista e volte a insistir, fazendo de Mariano extremo, médio ou defesa, não há volta a dar: o seu futebol confrangedor não é reciclável e foi pelo seu flanco que o Nacional chegou ao 2-2 e manteve a ameaça latente em toda a segunda parte. Felizmente, o resto da equipa esteve à altura do momento: a segunda parte só deu Porto, Porto, Porto. Uma cavalgada consistente para a vitória, selada com dois grandes golos, por entre os quatro marcados. Estofo de campeão.

Também sem espinhas e, felizmente, igualmente sem «casos», o Sporting havia já passado na véspera em Setúbal — com Liedson, uma vez mais, a fazer a diferença e a chegar ao número de golos do mítico Yazalde, com a camisola verde às riscas. Ao contrário da do FC Porto, foi uma vitória cedo obtida e assegurada, e gerida tranquilamente e sem grande rasgo, face ao um Vitória impressionantemente inofensivo, verdadeira sombra do Vitória da época passada. E assim o Sporting ultrapassou um Leixões que me pareceu bastante satisfeito com o 0-0 obtido em Coimbra, e assim se repôs a normalidade no pódio deste campeonato, com os três grandes na frente.

Para o fim ficou a excursão do Benfica à Trofa— a primeira de um grande à cidade minhota, em jogos a contar para a primeira divisão. Dia histórico, que se viria tornar inesquecível, em que o último derrotou o primeiro e o anunciado campeão baqueou, sem apelo nem agravo, aos pés do putativo despromovido. Não há dúvida de que, no futebol como na vida, a única coisa certa é a morte.

Dois dias antes, o presidente benfiquista tinha dado aqui uma entrevista de cinco páginas, cujo pretexto ou actualidade confesso que me escapou: talvez fosse por ser «campeão de Inverno» ou por, pela primeira vez em quinze anos, ter passado o Natal na liderança. Facto é que Luís Filipe Viera, para além do habitual rol de auto-elogios à sua liderança e ataques sibilinos e por antecipação a quem ouse disputar-lhe o lugar, nada de novo ou de interessante tinha para dizer. Para a História ficará a sua afirmação de que, por via da decisão de três ou quatro senhores de uma coisa chamada Comissão Disciplinar da Liga, ficou estabelecido que todos os triunfos do FC Porto nos últimos vinte anos foram falsos e fruto de batota. Esqueçam, pois, tudo aquilo que viram nos estádios ou na televisão durante todos estes anos: o que conta é o que disse uma «testemunha» a propósito de um Beira-Mar-FC Porto, disputado em 2004 e que já só servia para contar feijões. E, muito embora a dita «testemunha», mesmo sem jamais ter sido contra-interrogada, já ter sido apanhada duas vezes a mentir sobre factos, tendo mesmo obrigado um juiz (de direito, não de futebol) a indiciá-la por crime de perjúrio, é assim que se escreve a História, segundo Luís Filipe Vieira. Gentilmente entrevistado, ele não se limitou, aliás, a abjurar e reescrever o passado do futebol português das últimas décadas. Também antecipou o futuro, traçando já a sua sentença, igualmente inapelável: se o Benfica não for campeão este ano, é porque não o deixaram ser em campo. Pese à confiança que só pode merecer-lhe uma Comissão de Disciplina e um Conselho de Justiça que já provaram estar no recto caminho, e uma Comissão de Arbitragem e Direcção da Liga que tiveram o seu voto e apoio — como já antes tinham tido as anteriores estruturas dirigentes, lideradas pelo seu ex-parceiro de estratégia (Valentim Loureiro, não sei se se lembram…).

Portanto, sentei-me eu em frente à Sport TV para assistir a mais uma manifestação da supremacia benfiquista em campo, e sinceramente rezando a todos os santos para que nem a mais leve decisão da arbitragem pudesse prejudicar o Benfica e fazer-nos ter de atravessar mais uma semana de lamúrias, insinuações e acusações retumbantes de «fraude». E o que vi, o que unicamente vi, foi uma derrota benfiquista em toda a linha. Primeiro, porque perderam o jogo sem espinhas e sem qualquer caso de arbitragem de que reclamar; segundo, porque assim perderam a invencibilidade, a liderança e o assaz breve título de «campeão de Inverno» (se é que o Inverno, por estas paragens, ainda vai até 21 de Março…); terceiro, porque momentos houve em que o anunciado «campeão em campo» chegou a ser banalizado por uma esforçada equipa, lanterna vermelha e acabadinha de chegar ao mundo dos grandes da bola; quarto, porque a derrota foi consumada por um portista, o melhor em campo, e desses muitos a quem a generosa Direcção do FC Porto paga ordenado para jogarem por outros emblemas: Hélder Barbosa, de seu nome; quinto, porque os adeptos benfiquistas, como se não bastasse o desastre no relvado, ainda fizeram jus à sua fama de campeões do mau comportamento, chegando a atirar um petardo em chamas ao guarda-redes adversário — coisa que, num campeonato civilizado, costuma ter consequências bem desagradáveis para o clube; e, finalmente, porque, assim perdendo, a luxuosa equipa do Benfica obrigou o seu presidente a engolir de enfiada cinco páginas deste prestigiado jornal. É o que dá falar sem ocasião nem ponderação…

A Sport TV mostrava, entretanto, a cara de Rui Costa, sentado no banco e abanando a cabeça, como se dissesse «que mais posso eu fazer para que estes tipos aprendam a jogar como campeões?» E, sentado a seu lado, ocupado a fazer desenhos e esquemas num papel com o seu adjunto, em lugar de substituir logo o Binya antes que ele fosse expulso, Quique Flores era a imagem de um treinador perdido e impotente. Ou muito me engano, ou não tarda nem um mês antes que a contestação interna se concentre toda em encontrar em Quique o bode expiatório. Who else? E, todavia, o espanhol acertou na mouche, quando caracterizou a exibição da sua equipa: «Não basta falar, é preciso ter mentalidade para ganhar»

MST In A Bola de 06-01-2009

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