Miguel Sousa Tavares - Miguel Sousa Tavares




1 Tony Blair veio fazer uma palestra a Lisboa, para a habitual plateia de decisores políticos e económicos. Depois de dez anos a governar a Inglaterra em nome dos trabalhistas, Blair é hoje um dos homens mais bem pagos da Europa, cobrando entre 125 mil e 250 mil euros por cada uma destas conferências, além do salário de luxo que recebe como consultor de um desses bancos americanos que agora estão no olho do furacão da crise financeira mundial. Também é enviado especial da ONU para o Médio-Oriente, mas, nessas funções, tem-se revelado bem menos empenhado e eficaz do que a fazer conferências. Como herança interna, Blair deixou um défice monumental nas contas públicas inglesas, arruinou o mítico Serviço Nacional de Saúde (ao ponto de ser o líder dos “tories”, David Cameron, quem hoje faz o papel de defensor público do SNS), deixou umas centenas de mortos ingleses no Iraque e o país ligado ao desfecho da aventura de Bush (para a qual Blair foi o primeiro dos apoiantes), e, para rematar em beleza, deixou toda a economia inglesa refém da tragédia de Wall Street.

Seria de esperar da sua parte talvez alguma humildade, algum embaraço, quem sabe mesmo, alguma vergonha: afinal de contas, ele foi um dos principais responsáveis pelo estado do mundo e ainda anda a facturar fortunas a falar dos ‘problemas’ que ajudou decisivamente a criar! Mas, se alguém esperava tal coisa, esperou em vão. Descontraído e sorridente, Tony Blair puxou de umas notas avulsas e deu conta das suas recentes andanças pelo mundo: esteve em Pequim, nos Jogos Olímpicos, esteve no deserto, numa tenda com Kadhafi, esteve aqui e ali, derramando a sua vasta experiência sobre os ‘problemas’, para poder concluir em Lisboa que “os problemas são globais e precisam de soluções globais”. Mais uns quantos lugares-comuns de profundidade semelhante e a repetição de que o trabalho tem de ser flexível e a Segurança Social tem de ser reestruturada. E pronto. Suponho que lhe terão batido palmas e agradecido muito a lição e o incómodo. E lá se foi Tony Blair, sorridente, para o seu próximo compromisso global. É assim que se governa o mundo, nos tempos de agora.

2 Já aqui falei antes sobre um problema particular que o PSD, o país e todos nós temos: ter de estar sempre a encontrar uma ocupação para Santana Lopes. E tem de ser uma ocupação política e um cargo público, porque é tudo o que ele quer e pode. Agora, germina no PSD a originalíssima ideia de voltar a entregar ao ‘menino-guerreiro’ o ‘combate’ pela Câmara de Lisboa. Não admira que o próprio tenha já esclarecido que combates desses “não se recusam”. O que admira e confrange é que a gente que sabe o que a casa gasta, como Manuela Ferreira Leite ou Marcelo Rebelo de Sousa, estejam dispostos a voltar a entregar Lisboa ao pior presidente da Câmara que Lisboa teve, desde um tal Aquilino, do PS. O raciocínio é este: nós livramo-nos do Santana e, se os lisboetas votarem nele, o problema é deles. Sim, eu sei, a culpa é da ordem natural das coisas: a democracia é uma senhora sem memória nem pudor, uma espécie de maria-vai-com-todos. E, se são os próprios eleitores que estão dispostos a cobrir tudo com um manto de impunidade, porque não aproveitar?

3 António Champalimaud foi um dos raríssimos milionários deste país que, por morte, deixou parte da sua fortuna a uma Fundação a sério, dedicada ao bem público e a uma causa utilíssima. Mais, teve a visão de escolher para gerir os destinos da Fundação alguém com a capacidade de não defraudar o seu gesto, como é Leonor Beleza. Dito isto, confesso o meu desapontamento com a forma como a Fundação Champalimaud quer começar a intervir na coisa pública. Primeiro, tentou por todas as formas conseguir uma excepção às regras do ordenamento paisagístico para instalar a sua sede em zona de construção vedada, na área de paisagem protegida Sintra-Cascais. Frustrados os seus intentos, virou-se para Lisboa e acaba de conseguir que a CML (com o verbo de encher que se está a revelar António Costa), consentisse em suspender o PDM da cidade para que a Fundação, contrariando as regras em vigor para todos, possa edificar a sua sede à beira-rio, na zona de Pedrouços. Ou seja, uma Fundação que nasce para fazer o bem público, começa por exigir e obter privilégios no espaço público que resultam no prejuízo de um bem comum, como é o direito a usufruir livremente da frente do rio, sem a ver tapada por construções avulsas, negociadas por favor político ou pessoal. É pena. Porque isto diz muito acerca da prática instalada entre nós de que não existe iniciativa privada sem favor do Estado.

Ali em frente, temos a Fundação Berardo, a quem o CCB emprestou toda a sua ala de exposições para ele colocar a sua colecção de pintura que não tinha onde pôr, e que empresta ao Estado. Sem espaço para mais nada, o CCB vai agora construir um novo módulo para exposições e, para o financiar, quer também construir um hotel. Se a exploração do hotel correr mal, são mais dois encargos a acrescentar à despesa pública. Para sustentar uma necessidade que não existia e que só passou a existir porque o Estado resolveu abrir mão de coisa sua para a oferecer a um ‘mecenas’.

4 A história de capa da última edição do EXPRESSO, sobre as 3200 casas atribuídas discricionariamente e em condições privilegiadíssimas pela CML, ao sabor das ‘cunhas’ e dos favores pessoais, é, de certo modo, a história deste país – desde, pelo menos, o tempo das Descobertas, quando se comandavam naus por ‘cunhas’ e favores. Em si mesma, a história apenas confirma hábitos de há muito conhecidos e factos concretos de há muito suspeitados. Isso não espanta, o que espanta são as explicações fornecidas pelos beneficiários do sistema instalado. Há a vereadora da Habitação, a quem compete atribuir casas e que acha que o facto de ela própria ter sido no passado uma das felizes contempladas em nada a desqualifica para as suas funções. Há o director de serviços da CML, que recebeu uma casa porque se tinha divorciado e precisava de outra e que, embora entretanto já se tenha recasado e mudado, mantém a casa da Câmara, com uma renda simbólica, porque, diz ele, nunca se sabe se amanhã não se volta a divorciar e a precisar outra vez da casa. Há os presidentes das Juntas de Freguesia, que acham ‘normal’ que os filhos tenham beneficiado de casas, porque “são cidadãos como outros quaisquer” (embora na altura tivesse constado na praça que não valia a pena concorrer porque as casas já estavam destinadas às famílias dos senhores membros das Juntas de Freguesia). E há o grande jornalista BB, campeão da indignação e da ética, que recebeu uma casinha porque a sua estava velha e atravessava problemas financeiros, mas que acha que revelar qual é a renda que paga por coisa pública, para que melhor se possa avaliar o favor de que beneficia, é “um assunto privado”. Todos sem excepção acham a sua situação normalíssima e o grande jornalista até acha que tudo não passa de uma cabala dos seus inimigos e do preço a pagar pela sua frontalidade. De facto, como ele diz, “ser livre é muito difícil”. Então não é?

Anúncios