O fim da alquimia financeira


Carlos Rosado de Carvalho

“A crise do crédito hipotecário de alto risco fez mais duas vítimas na banca de investimento norte-americana. A Lehman Brothers teve de recorrer à protecção da lei das falências e a Merrill Lynch foi comprada pelo Bank of America. As duas instituições juntam-se à Bear Stearns que foi salva pelo JP Morgan Chase. O que quer dizer que três dos cinco maiores bancos de investimento dos EUA já sentiram na pele os efeitos da crise que dura há um ano – sobram a Morgan Stanley e a Goldman Sachs.

Trata-se de um rude golpe na reputação de um dos segmentos mais prestigiados e lucrativos do sector financeiro. Pouco conhecidos do grande público por não aceitarem depósitos, os bancos de investimento centram a sua actividade no aconselhamento de empresas, governos e investidores. O seu leque de serviços vai desde a organização de emissões de títulos até à sua colocação, passando pelas reestruturações de empresas e sectores, fusões e aquisições, privatizações, gestão de fortunas, etc. Em resumo, por trás de uma grande operação financeira está sempre um banco de investimento.

Para atenderem às solicitações da sua vasta e diversificada clientela num quadro de forte concorrência, os bancos de investimento criaram autênticas fábricas de produtos financeiros onde o limite era a imaginação dos seus engenheiros pagos a peso de ouro. O resultado foi o desenvolvimento de produtos cada vez mais sofisticados fruto da chamada inovação financeira. Quanto ao risco, sempre presente em qualquer actividade, em particular  na financeira, não era problema. O segredo estava no desenvolvimento de novos produtos destinados a cobrir o risco. Ou seja, a engenharia financeira transformava-se em alquimia: sobre cada produto criava-se uma série de  outros, eliminando o risco.

A fé na infalibilidade do sistema era de tal ordem que começaram a emprestar dinheiro para compra de casa a pessoas que, reconhecidamente,  não tinham condições para as pagar. O resultado é o que se conhece.

Dir-me-ão que estou a exagerar, que a inovação financeira contribuiu para  alavancar um dos mais longos períodos de prosperidade da economia mundial. Talvez, mas a que preço? ”

Diário Económico

Comentário: Estes senhores da alta finança sempre defenderam o livre funcionamento do Mercado e a ausência do Estado. Quando começaram a sentir sérios problemas, a quem recorreram? Ao Estado, pois claro…

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