Depois de um período de férias MST regressa

Um pouco menos de azul

‘Nortada’ do Miguel Sousa Tavares

Pinto da Costa engoliu uma promessa feita à nação Portista.

1. E lá se foi, então, o Ricardo Quaresma para Milão. Satisfazendo os desejos irreprimíveis de tanta gente que mal disfarçava a sua ansiedade, Pinto da Costa consumou a mais desejada aquisição de Benfica e Sporting. Aliás, antes ainda de consumar a venda, já lhes tinha feito a vontade, mandando que Quaresma ficasse de fora dos jogos de início de época contra os rivais de Lisboa. E o resultado viu-se: derrota contra o Sporting e perda da Supertaça; empate a saber a derrota contra o Benfica e perda da oportuidade de liquidar logo aí as esperanças encarnadas no campeonato.

O negócio era mais do que previsível, pois, como aqui tenho escrito bastas vezes, é necessário vender todas as épocas as jóias da coroa para poder compensar o dinheiro gasto em legiões de sul-americanos e o consequente desbaratar de liquidez que representa manter alguns 50 ou 60 jogadores a jogarem, a maioria sob empréstimo, em várias bandeiras. Nem mesmo a fabulosa venda do Bosingwa por 20,5 milhões de euros foi suficiente para assegurar a cobertura de mais um ano de gastos sumptuários e sem justificação. Era preciso vender outro e foi o Quaresma. Para o ano vai ser o Lucho mais o Lisandro ou o Bruno Alves — em troca de mais um saco de Renterias, Mareques, Tomás Costa, Bolattis, Marianos ou Guarins.

Mas se o negócio era previsível, o que já não era previsível, nem aceitável era a pechincha pela qual Quaresma foi oferecido ao Inter. Se ignorarmos a esperteza saloia de fingir que o Pélé vale oito vezes mais do que valia como perfeito desconhecido há um ano atrás e que a sua vinda para um lugar onde já existem quatro outros fregueses é utilíssima, a verdade, nua e crua, é que o Sr. Moratti levou o Quaresma por 18 milhões de euros- um autêntico «affarone», como se diz por lá. E se juntarmos aquilo que o Quaresma custou no negócio que envolveu a venda do Deco ao Barcelona, mais a taxa de inflação acumulada nestes quatro anos, mais os ordenados e prémios de jogo recebidos pelo jogador, mais a percentagem a pagar ao Sporting pela sua venda agora, fácilmente se chega à conclusão de que o FC Porto, contas feitas, não ganhou um tostão com a venda do Quaresma. É claro que ganhou, entretanto, muitos êxitos desportivos graças à contribuição tantas vezes decisiva do «ciganito», e ganhou as receitas das vendas de produtos associados à imagem de Ricardo Quaresma. Mas isso agora acabou (ou alguém imagina uma corrida à compra de camisolas do Mariano González?) — o que torna o negócio ainda mais desastroso.

Devem ter dito ao Sr. Moratti que Pinto da Costa era um terrível negociador. Devem-lhe ter dito também que o presidente do FC Porto tinha prometido solenemente a todos os portistas que não queria vender o Quaresma, mas que, se alguém bancasse a cláusula de rescisão, que era de 40 milhões, então, sim, ele nada podia fazer e até oferecia um euro de desconto. O Sr. Moratti ouviu e sorriu. Cruzou os braços e ficou à espera… deixando que Mourinho se fosse enervando, convencido que não ia ter aquele a quem há tempos chamava um fiteiro (quando levou porrada de criar bicho do Essien, num FC Porto-Chelsea), e deixando que o «negociador implacável» Pinto da Costa fosse dando crescentes sinais de impaciência e maleabilidade. E, quando o presidente portista apareceu a dizer ao «Corriére de la Sera» que estava à espera de uma proposta do Inter (e não já do pagamento da cláusula de rescisão), e quando, sobretudo, percebeu que a vontade da SAD portista de vender Quaresma era tanta que nem contra Benfica e Sporting arriscavam pô-lo a jogar, não fosse ele magoar-se e estragar o negócio, quando perceberem que o clube não se importava sequer de assumir uma posição de vassalagem perante os italianos, preferindo perder títulos a perder a oportunidade de venda, então o Sr. Moratti transformou o seu sorriso num rasgado riso de predador e foi mandando uns recados que o Quaresma não fazia muita falta, talvez pudesse interessar, mas não por aqueles preços. E, como a proposta do Inter não chegava pelas vias normais, a direcção da SAD portista encarregou-se ela de ir soprando as suas propostas, em forma de recado, à comunicação social. E as propostas, como o Sr. Moratti sempre soube, eram cada vez mais desesperadas e baratas: primeiro, ele que esquecesse os 40 milhões — tinha sido uma figura de estilo, por assim dizer; depois, ele que tomasse nota então do preço do FC Porto: 30 milhões mais o Pélé; bom, vá lá, esqueçam o Pélé, é só os 30 milhões; OK, 25 mais o Pélé e daqui não descemos. Nesta altura do campeonato, um bom golpe de audácia negocial teria sido meter o Quaresma a jogar na Luz: ter-se-ia feito saber ao Sr. Moratti que desta vez era a sério, 25 milhões ou nada — além de que, pormenor, se teria ganho tranquilamente o jogo. Mas, não, nesta altura a direcção do FC Porto já estava tão desesperada que se o Inter os mandasse dançar o tango, eles teriam dançado. E, assim, na véspera de acabar o prazo de transferências, o Sr. Moratti dignou-se finalmente fazer chegar uma proposta formal ao Dragão: 18 milhões e o Pélé. E lá foi o Quaresma, por menos de metade do preço que Pinto da Costa tinha jurado que não vendia. Chapeau, Sr. Moratti!

Quanto a Pinto da Costa, é de esperar que tenha aprendido com este triste negócio, verdadeiramente ruinoso para o património do clube. Já que, por razões que me escapam, é absolutamente necessário comprar uma dúzia de jogadores todos os anos, dos quais, no máximo, só um ou dois são aproveitados, ao menos que não ponha o carro à frente dos bois: mande vir o contentor sul-americano só depois de ter assegurado o dinheiro para o pagar, para depois não acontecer ter de vender ao desbarato as pratas da casa. E nunca mais conte com o ovo no cú da galinha, para não ser obrigado a engolir solenes promessas feitas, olhos nos olhos, à nação portista.

Quanto a si, Ricardo Quaresma, olhe… auguri! Ouvi-o comentar, já em Itália, que lá «la vita é bella!». Pois é, mas não se engane. Em Milão trabalha-se no duro, muito mais do que aqui, e é por isso que os jogadores se mantêm em forma até aos 35 anos ou mais. E, ao contrário daqui, não conte nem como uma imprensa desportiva branda nem com adeptos aos seus pés. Tudo lhe será cobrado, sem contemplações.

2. Por falar em vedetas e trabalho no duro, confesso que fiquei estarrecido com o início de época do Benfica. A acreditar na imprensa, estava ali uma equipa do outro mundo e um treinador de fina água. Vedetas e mais vedetas, já nem se percebia onde encaixar tantas simultâneamente. Depois, comecei por verificar que, aqui mesmo, na «Bola», dois colunistas benfiquistas já estavam a atacar o árbitro do primeiro jogo, ainda nem o campeonato tinha começado. A seguir, veio aquele mais que sofrido jogo em Vila do Conde, onde logo ficaram dois pontos, e depois veio o Benfica-Porto, em que não foi preciso esperar nem cinco minutos para perceber que o grande argumento encarnado para a vitória iria ser a pressão do público sobre o árbitro. E, enfim, veio o próprio jogo, que mostrou uma equipa de vedetas absolutamente banal, para não dizer medíocre, e o mais acessível Benfica que o F.C.Porto encontrou nos últimos anos. Só não ganhámos porque o Helton não se dispensou de oferecer o golo que sempre oferece nos jogos importantes (até quando, Jesualdo Ferreira?), e porque nos últimos vinte minutos praticamente não houve hipóteses de jogar futebol, porque de minuto a minuto tinha que se interromper para assistir um jogador do Benfica caído no chão com roturas musculares ou caimbras. Não tenho nada a ver com o assunto, que é do foro interno do clube e certamente delicado, mas lá que não me lembro de ver coisa assim, isso não.

3. Contaram-me que o estimável Octávio Machado diz que escreveu um «livro». Nada de extraordinário: a Dª Carolina Salgado também se intitula «escritora» e hoje sabemos que para escrever um livro nem é preciso saber falar, quanto mais escrever. Contaram-me também que o homem me reserva lá umas passagens de homenagem, o que também é mais do que compreensível, considerando que, mal soube que Pinto da Costa tinha tido a peregrina ideia de o fazer treinador do FC Porto, eu o classifiquei como um simples «sargento de balneário» e logo previ o desastre, sem sequer esperar para ver. Agora, posso dizer que prevejo para a sua carreira de escritor o mesmo êxito que teve na sua carreira de treinador.

in’A BOLA de 16Setembro2008

Retirado do excelente Bibo Porto Carago

Comentário:

Concordo que não foi um bom negócio,mas custa-me a entender tanto dramatismo em redor da saída do Quaresma, num clube que já viu sair jogadores como Futre, Madjer, Jardel, Deco etc…