Danças com chacais

Danças com chacais

00h30m

Ver um antigo alto quadro da UNITA na tribuna presidencial do mais importante comício do MPLA seria um fait-divers se não denotasse que a metodologia estalinista continua viva no maior produtor de petróleo de África que quer agora ser visto como uma democracia ocidental.

Tenho relatos do episódio de três fontes independentes. Um ponto é crucial. Fátima Roque foi ao comício do MPLA porque quis. O significado da atitude só ela o pode dizer. A mim apenas confirmou que tinha ido.

Surpreendeu-me cortando abruptamente a comunicação. Mas, entre a ida ao comício e a imagem de TV da mulher que em tempos foi o braço-direito de Savimbi para assuntos económicos e financeiros com um boné e cachecol do MPLA, há um mundo de minas e armadilhas políticas que mostram que os ensinamentos da Stazy da Alemanha Democrática à Disa angolana continuam tão presentes hoje como antes da queda do muro de Berlim.

A cronologia da emboscada mediática é esta: Fátima Roque pediu a um intermediário seu conhecido para ir ao último comício da campanha do MPLA. O pedido chegou aos serviços da presidência e foi encaminhado para Aldemiro da Conceição, do Gabinete de Acção Psicológica, um dos principais assessores de José Eduardo dos Santos. Em 1992, foi ele um dos algozes de Fátima Roque nos brutais interrogatórios a que a sujeitaram enquanto o resto da liderança da UNITA em Luanda era chacinada. Surpreendentemente, quem contacta Fátima Roque, oferecendo-lhe transporte e um lugar no comício, é o próprio Aldemiro da Conceição. Surpreendentemente, Fátima Roque aceita, vendo nesta oferta, como disse ao “Diário de Notícias”, manifestações de uma reconciliação e sugerindo que recebe a cortesia do Governo como uma espécie de acto de contrição do MPLA. A partir daqui começou a ser planeada a operação de propaganda do Gabinete de Acção Psicológica, numa tradição de eficácia que remonta ao apagamento das fotografias de Trotsky por Estaline. Um jeep da Presidência aparece à hora marcada no Hotel Trópico. No trajecto, a viatura da VIP ex-UNITA ultrapassa a comitiva presidencial. Chega ao comício do Quicolo à frente do séquito de José Eduardo dos Santos. Um general das FA recebe-a levando-a rapidamente para a tribuna. Logo que se senta no palanque, um jovem arrumador coloca-lhe um cachecol com as cores do MPLA e o tradicional boné vermelho e amarelo de onde sobressai a estrela de cinco pontas que já foi vermelha em meio mundo e que agora é amarela em Luanda.

Houve várias mas delicadas tentativas de Fátima Roque para retirar o boné. Houve insistências delicadas do jovem militante que lho recolocou na cabeça. Durante este período, máquinas fotográficas disparavam incessantemente e câmaras de TV rolavam. O que se viu no exterior foram cerca de quatro segundos de Fátima Roque na tribuna do MPLA equipada com toda a simbologia militante que chega para definir mediaticamente a importantíssima capitulação de mais um alto quadro do galo negro ao unanimismo da catana e roda dentada do partido do trabalho.

A catanada final veio agora, com os resultados esmagadores daquilo que o MPLA chamou as “melhores eleições que África já viu”.

É pena que tenham sido só isso. O que muita gente já sofreu e sofre em Angola justificava muito mais do que as melhores eleições de África.

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