NENHUM SILÊNCIO É INOCENTE


Baptista-Bastos
escritor e jornalista
b.bastos@netcabo.pt

Diz-se que Manuela Ferreira Leite vai “quebrar o silêncio”. Diz-se que esse magno acontecimento ocorrerá no domingo, no encerramento da Universidade de Verão do PSD. Diz-se, numa amarga perturbação, que a calada senhora, a fim de manter a estratégia da inaudibilidade – apenas sussurrará.

Esta atmosfera espectral, que o previsível Pacheco Pereira designa de necessária pausa para meditação, não tem sido, propriamente, aplaudida de pé. As dúvidas erguem-se, como puas, nas almas perplexas dos militantes. E a conspiração alastra como eczema. Menezes, feroz e irado com a mudez obstinada da dr.ª Manuela, ameaça com um congresso devastador. Marcelo manifesta-se incomodado e, até, aflito, com a cruel ausência da presidente. Santana Lopes, apesar de primo da dr.ª, não descansa um mísero segundo sem a fulminar com impiedosos comentários. Ângelo Correia abandonou a efusão das metáforas. Proclama que este rumo absurdo conduzirá o partido às profundezas do abismo. A dr.ª usa a retórica do desdém (moita, carrasco!) que deixa os adversários desatinados.

Mas já não são, exclusivamente, os “barões” a criticar as águas palustres onde, penosamente, se move o PSD da dr.ª Manuela Ferreira Leite. As “bases” começam a embaciar o fascínio sentido pela senhora. Circula um abaixo-assinado no qual se pede uma “sacudidela” à “abulia e à inércia” do partido. As palavras são aprimoradas; mas não deixam de ser rudes.

A Universidade de Verão parece, na lógica deste panorama, a contra-regra do Pontal; digamos: um sinédrio intelectual e grave, destinado a inculcar em cem ansiosos moços o breviário da “social-democracia” à portuguesa. A coisa é notoriamente confusa. E a identidade dos “professores” uma barafunda pegada, repleta de narcisismos perversos e de nervosas ambições.

Não sei se os meus pios leitores imaginam a natureza dos discursos de Pacheco e de Leonor Beleza, de António Borges e do general Garcia Leandro, sem omitir, claro!, o inimitável António Vitorino, socialista e tudo, sobretudo nos dias ímpares. Quase todos os nomeados são directamente responsáveis pelo estado a que chegou o País. Parte do descrédito da acção política a eles se deve. O nosso desalento deixou de ceder a qualquer apelo cívico, e as nossas emoções mais asseadas foram letalmente atingidas. A casta que tomou conta da Pátria devia ser condenada por indignidade nacional. Chega a ser infame a lista das prebendas, das reformas sumptuosas, das funções acumuladas, dos duplos e triplos vencimentos auferidos por uma gente desprezível, que entre si partilha o bolo, num macabro trânsito de interesses.

Os cem jovens que assistem ao conclave de Castelo de Vide vão, com aqueles “professores”, aprender – quê? Os exemplos não são virtuosos.

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