‘Nortada’ do Miguel Sousa Tavares

1. Na noite de ontem (já depois do envio deste texto), Benfica e Vitória de Guimarães jogaram para o tal «Troféu Platini», cuja conquista permitirá a qualquer dos clubes minorar um pouco as frustrações desta pré-época, marcada por resultados e exibições que, sobretudo no caso do Benfica, deixaram muito a desejar, mas sobretudo pela amarga derrota das pretensões jurídicas na UEFA. Para quem tenha visto o jogo, em casa ou na televisão, não pode ter deixado de vir ao espírito a ideia de que se tratava de uma espécie de jogo de consolação entre dois emblemas que tudo tentaram para entrar pela porta do cavalo numa competição onde se entra pelas provas dadas em campo. Mas o Vitória acabou por ter o favor dos deuses consigo: depois de ter continuado a insistir até ao dia do sorteio (e até que a UEFA lhe dissesse para parar de mandar requerimentos), acabou por ver o sorteio reservar-lhe um modesto adversário, a sair da dupla IFK Gotemburgo-Basileia. Melhor era impossível e, se nem assim o Vitória conseguir franquear a porta da Champions, mais expostas e imperdoáveis ficam as razões que o levaram à pouca digna batalha jurídica perdida na UEFA.

Já o Benfica, consumido pela eterna questão do «vem-não vem», agora aplicada à novela Luis Garcia, bem precisa de um trofeuzinho para fazer companhia aos rivais Sporting (Guadiana) e FC Porto (Braga) e, mais do que isso, para sacudir a onda de descrença que a olho nu já se vai espalhando entre os seus adeptos e dar a Quique Flores aquilo de que ele mais precisa e que é o luxo mais raro por aquelas bandas: tempo. Tempo para fazer uma equipa e tempo para a pôr a jogar.

À frente na preparação, seguem claramente o Sporting e o FC Porto, embora ambos também condicionados pela novela de sinal contrário «vai-não vai». Pelo que se percebeu, nenhum deles desdenharia vender, quer Veloso e Moutinho, quer Quaresma. O drama é justamente que, quando se mostra vontade e necessidade de vender, o comprador baixa o preço e faz chantagem. E, entre o desastre de vender mal ou a opção de não vender e ficar com jogadores de má cara, é difícil encontrar o ponto de equilíbrio. Mais difícil ainda é estar a formar as equipas e a afinar o modelo de jogo sem se saber se até 31 de Agosto a equipa é a que está ou está desfalcada de um ou dois jogadores preponderantes. Se me é permitida uma opinião neste mercado de milhões, acho bem mais complicado o FC Porto substituir o Quaresma do que o Sporting passar sem o Moutinho e o Veloso. E, dos valores que se vêm falando, resulta que o grande forreta da história é o Inter, quando pensa levar o Quaresma por 20 ou 25 milhões. Pinto da Costa também deve pensar o mesmo e, como se infere das suas declarações ao Corriere dello Sport, ele não compreende como é que Mourinho ainda não foi capaz de explicar aos dirigentes do Inter que o Quaresma é um desequilibrador raríssimo, um talento que pode ainda ser bastante melhorado e que vale bem 40 milhões. Mas também se percebeu dessas declarações que está ansioso por o vender, o que nada me admira: com dez aquisições já feitas esta época, é evidente que faltam milhões na casa. É a tal politica negocial dos portistas que eu sempre critiquei, mas que parece não conhecer outra alternativa, lá pelo Dragão.

2. Quem me lê noutro lado, sabe que nunca tive grande respeito pelos «pareceres» dos mestres de direito, alguns dos quais foram meus professores na faculdade. Dar pareceres é um modo de ganhar a vida, legítimo como outro qualquer, mas de há muito que perdeu aquele aura de respeitabilidade que dantes tinha. E pela simples razão de que os mestres dão pareceres em tudo conforme aos interesses de quem lhos paga. Não é raro, aliás, encontrar, sobre a mesma questão, dois pareceres radicalmente opostos, assinados… pelo mesmo mestre. O parecer tão badalado do Prof. Freitas do Amaral vale, por isso e para mim, exactamente o que vale e que é pouco. Vale o mesmo, por exemplo, que o parecer oral e gratuito que o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa deu sobre a mesma questão na RTP. Onde Freitas viu malfeitorias apenas do lado de uma facção do Conselho de Justiça, Marcelo viu-as sobretudo do lado oposto.

Mas, aparentemente e como aqui escreveu o Rui Moreira, o parecer de Freitas do Amaral foi tido pela FPF como lei e sentença. E acabou por ser ele parte decisiva da sentença que condenou o Boavista à segunda divisão e, a prazo, talvez mesmo à extinção. É isso que ficará para a história.

Mas, dentro de alguns anos — talvez já mesmo agora — quando alguém perguntar porque razão foi o Boavista despromovido à segunda divisão, ninguém lhe saberá responder. Há-de ter sido por um facto muito grave, mas o quê, ao certo? Comprou adversários, comprou árbitros? Não: estão em causa, aliás, três jogos, dos quais o Boavista empatou um e perdeu dois. O que foi então? «Coação», responderá alguém mais entendido e com melhor memória. Mas o que é isso de coação? Pode ser tudo o que se quiser e o que não se quiser: no entendimento lato do CD da Liga, coação pode ser, por exemplo, um dirigente de um clube passar pelo árbitro no intervalo de um jogo e dizer-lhe «veja lá o que anda a fazer!». Basta que o árbitro escreva isto no boletim do jogo e, segundo o critério do CD, estando os conselheiros para aí virados, o clube a que pertence o dirigente pode acabar despromovido.

Eu nunca fui à bola com o estilo Valentim Loureiro, por razões que estão à vista de todos. Mas não deixo de achar o cúmulo da hipocrisia que aqueles que puseram o major na Liga, exactamente para poderem utilizar o seu poder de influência e coação, venham depois condenar o Boavista, se calhar até assentar-lhe um golpe mortal, porque o major ou o filho fizeram aquilo que deles se esperava. E quem nunca quis coagir um árbitro ou os dirigentes da Liga, quem nunca falou de arbitragens antes dos jogos, quem nunca protagonizou cenas eventualmente condenáveis nos túneis dos estádios, que lance a primeira pedra.

Que as coisas precisavam de ser moralizadas, estamos todos de acordo. Que esta geração e este estilo de dirigentes do futebol português precisavam urgentemente de passar ao museu, é pacífico. Que se tenha escolhido exemplos à lá carte — Boavista e FC Porto — para encetar a dita «moralização», isso é o que todos sabem também que não passa de uma hipocrisia e reflecte apenas o prolongamento para o terreno da mal chamada justiça das guerras clubisticas que se deveriam limitar ao terreno de jogo. Se o major combina o árbitro de um jogo com um presidente de um clube qualquer, o major é condenado por coação; se combina com o presidente do FC Porto, são ambos condenados; mas se combina com o presidente do Benfica, o processo é mandado arquivar, sem culpados. Bela justiça!

Fonte: BiboPortoCarago

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