Agosto 2008



Por traduzir muito do que penso sobre Macau, transcrevo o brilhante post do Leocardo no Bairro do Oriente

“O The Standard é um simpático jornal de Hong Kong que é distribuído gratuitamente em Macau. É gratuito porque cerca de metade das suas 48 páginas são preenchidas por publicidade, o que não lhe tira qualidade. Ultimamente não tenho visto a habitual senhora a entregar o jornal no Largo de Senado. Muitos cidadãos – mesmo os que não sabem ler inglês – levam o jornal. Sentam-se nele, forram o caixote do lixo, colocam-no debaixo do fogão, e em alguns casos enfiam-no no primeiro caixote que encontram. Para quê? O mais curioso é que se o jornal custasse uma pataca ninguém o queria.

Hoje passei perto da joalheria Lok Fok onde duas senhoras distribuíam o jornal gratuito em chinês, e aproximei-me para ver se tinham o Standard. Uma das senhoras fez um sinal de “alto!”, abanou a cabeça, fez uma cara feia e disse-me mou ying man (não há jornal inglês), como quem diz “queres jornais ingleses vai para Inglaterra”. Nunca percebi bem porque certos ignorantes passam pela vida sem enfiar os dedos numa tomada, ou sem se atravessarem em frente a um comboio em andamento.

Perto da Igreja de S. Domingos há uma senhora que tem habitualmente o The Standard. Fui lá, peguei no jornal e perguntei-lhe quanto era, como quem não quer a coisa. Olhou para o jornal (que não tem preço), hesitou um pouco e disse-me: “cinco patacas”. Cinco patacas. Por um jornal que não lhe custou um avo, nem de transporte nem nada. Em Macau não são só os taxistas que aldrabam em dias de tufão, ou os comerciantes que enganam no peso, ou as agências de turismo que são desleais. A roubalheira é generalizada.

É curioso andar pela baixa de Macau pela manhã. Aí podemos contemplar a fauna de cidadãos que vasculham os caixotes do lixo, apanham cartão, recolhem tudo o que por aí há de gratuito, entram pelos supermercados em pleno dia a exigir caixas de cartão, roubam guarda-chuvas. Há que lhes dar mérito. Acordam aí pelas seis da manhã, às oito já estão suados que nem porcos, trabalham de sol a sol. E não há como não os respeitar; arrastam os carrinhos pela cidade, à revelia das passadeiras, dos sinais de trânsito e do tráfego. Aos restantes transeuntes dão um “sai da frente”. Afinal estão a trabalhar. Coitados…mas espera, estes indivíduos,que na sua maioria se vestem mal e cheiram ainda pior, têm contas astronómicas no banco. Gastam meia dúzia de patacas por dia, andam sempre a pé e não gastam um avo em palermices.

Um dia comprei numa mercearia perto de casa um gelado da Dryer’s, de chocolate e amêndoas, que me custou quinze patacas. No acto do pagamento a proprietária da mercearia desabafou um “Quinze patacas. Com esse dinheiro podia comprar duas caixas de arroz…”. Atenção, foi a própria dona da mercearia a que eu estava a dar negócio que me disse isto.

Para se perceber este interessante fenómeno basta observar as filas que se formam à porta dos correios sempre que há edições comemorativas de selos, ou à porta da Kong Seng cada vez que se inicia a venda dos bilhetes para o Festival de Música. Não que sejam grandes filatelistas ou amantes das artes. O objectivo é conseguir bilhetes, e depois revender com lucro.

Estes últimos dias tenho reparado numa idosa que fica ali junto do Starbucks a estender a mão e pedir esmola a quem passa. Esta idosa até nem se veste mal, tem bom aspecto e um brinco de ouro em cada orelha. Pedir esmola é provavelmente o seu passatempo. Pode ser que um dia se arrependa. Talvez na hora da morte.

A juventude em Macau, amorfa como sempre, parece passar indiferente a tudo isto, e no caso das filas que se formam mais de 24 horas antes de selos, notas, bilhetes e o raio-que-os-parta começarem a ser vendidos, já começam também a participar. São os juniores da avareza, os Tio Patinhas do futuro. O Governo está-se nas tintas, desde que estes indivíduos não estacionem os carrinhos do cartão nos lugares junto do palácio destinados aos carros pretos. Isto é qualidade de vida.”

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O Vitória não conseguiu o apuramento para a Champions ao perder em Basileia por 2-1, com um tremendo sentimento de revolta, pois viu um golo límpissimo anulado aos 87 minutos sem razão aparente.

Por outro lado, este afastamento não espanta, pois o plantel desta temporada é bem mais fraco, talvez em virtude de terem concentrado energias na tentativa de ocuparem a vaga do Porto na Champs.

O golo anulado a Roberto apenas demonstra a urgência de se aplicarem meios audiovisuais no futebol, para evitar situações similares, que neste caso custaram 5,4 milhões de euros aos vimaranenses.

Agora segue-se a UEFA, onde vão fazer companhia aos seus novos amiguinhos do SLB


“Está uma batalha lá fora e os políticos não encontram melhor forma de reconhecimento do que se passa senão com dizer coisas sem sentido. A violência está a mudar (mudou) a nossa sociedade e põe em causa não apenas a face social do País como favorece a emergência de ataques à liberdade, em nome da segurança. As primeiras páginas dos jornais, os “alinhamentos” dos noticiários televisivos não se baseiam em princípios abstractos: a gestão do medo traduz a realidade do medo, e uma falta de confiança na avaliação dos políticos.

Impressionamo-nos com a crueza das imagens de brutalidade mas, a seguir, admitimo-las porque nos resignámos. Criou-se a mentalidade difusa, volatilizada, de que esta realidade é a concepção subjacente da “modernidade”. Oculta-se a verdadeira razão: o capitalismo contemporâneo criou um indivíduo que recusa e resiste a qualquer forma de compromisso. Os laços sociais foram destruídos e o homem “moderno” encerra-se em si próprio, indiferente não só ao “outro” como relapso aos assuntos públicos.

As esferas estão demarcadas. Se, num lado, os guetos não ocultam a injustiça e são alfobres de ressentimento, resultantes das deformações sociais, no outro lado estão os condomínios fechados, que multiplicam as fronteiras entre dois mundos distintos. O que se entrevê como protecção transforma-se em couraça.

As classes dirigentes alteraram, dramaticamente, os espaços de aproximação afectiva. Vivemos num país, numa sociedade, que ignora o conceito de comunidade e de partilha para se converter numa massa esvaziada de substância.

A “prevenção” do crime está certa. Mas as declarações nesse sentido, proferidas por responsáveis da “segurança”, desembaraçam-se de qualquer desejo de análise e de racionalidade. “Mais polícia” é paliativo; não é solução. A desumanização social, a deformidade e a abjecção que se encontram na natureza do sistema ganharam raízes na cultura dominante. A desigualdade na distribuição da riqueza é afrontosa. Os jornais informam que aquele multimilionário superou, em fortuna acumulada, aqueloutro; que “gestores” auferem reformas sumptuárias após meia dúzia de meses de exercício de funções; que a fuga aos impostos é uma prática só possível, e permitida, aos ricos – como se o valor de uma pessoa fosse, claramente, inferior ao de outra.

Dostoievski ensinou que o crime compensa. Raskolnikov é, unicamente, castigado pelo remorso. Sentimento que me não parece muito comum entre aqueles indicados. Henri Michaux, poeta de que gosto muito, autor, aliás, de um pequeno livro, Equador, este, sim, maior, escreveu: “Só lutamos bem por causas que nós próprios modelamos e com as quais nos queimamos ao identificarmo-nos com elas.”

O português não é mobilizado porque é constantemente desprezado.

Baptista Bastos no DN


Podem ler em orwelldiaries.wordpress.com as visões quotidianas deste escritor de referência que foram na altura registadas em papel. Refira-se que cada entrada será publicada exactamente 70 anos depois de ter sido escrita pelo autor de obras intemporais como  ”Triunfo dos Porcos” ou ”1984″.

Notícia mais pormenorizada aqui



– Grandiosa final do Torneio Olímpico de Basquetebol com o Redeem Team a vencer a selecçào Espanhola por 118-107. A Espanha fez um jogo fantástico mas a grandíssima qualidade dos jogadores americanos com Kobe à frente permitiu-lhes ganhar a medalha de ouro. Desaque para o puto Ricky Rubio de 17anos que joga como gente grande

– Normal vitória da Argentina no Futebol com golaço de Di Maria, revalidando assim o título olímpico

– Deco num livre magistral deu o triunfo ao Chelsea de ” Big Phil ” , numa vitória muito sofrida onde Cech na parte final segurou o triunfo

– Mourinho conquistou o primeiro troféu em Itália, quebrando a malapata dos penalties que o vinha perseguindo.


“O PSD encontrou a solução política que poria fim imediato à insegurança, acabaria com os assaltos às bombas de gasolina, com o carjacking, com os conflitos armados nos bairros sociais, enfim com a desordem. Demitia-se o ministro da Administração Interna. Já! O da Justiça pode ficar, embora a instrução dos processos em que criminosos são soltos por leis absurdas e polícias retidos em interrogatórios tenham tudo a ver com os absurdos dos códigos penal e do processo penal engendrados em regime de pactos de bloco central, onde o PSD tem, também, a sua grande quota de responsabilidade.

Não interessa tão-pouco lembrar o superdesastre dos anos 90 quando, por supostas razões de eficiência de custos e meios, se reduziu o número de esquadras e se criaram as superesquadras de Dias Loureiro e Cavaco Silva, num governo em que Manuela Ferreira Leite participou. E tudo isto são pormenores do grande disparate governativo que têm um contributo directo na terrível situação a que chegamos, e que o PSD nesta encarnação acha que se resolve demitindo ministros.

A meio da crise. Neste caso, querem que seja Rui Pereira, apesar de ser sob a sua direcção que a Polícia tem tido mais eficácia e menos ambiguidade na gestão dos mais perigosos episódios na história do crime em Portugal.

Depois do ensurdecedor silêncio sobre a vida pública em Portugal, ao fim de três meses de retiro o novo PSD não tem nem propostas concretas, nem aplausos de solidariedade para o que tenha sido bem conduzido, nem críticas ao que de mal esteja a ser feito. Do actual PSD vêm apenas dois registos. O silêncio do vazio de ideias e, agora, esta “exigência” de demissão, que por si só é manifestamente um eco da falta de qualquer outra proposta política séria. Como a própria Manuela Ferreira Leite disse no inconclusivo artigo que recentemente escreveu “a segurança interna é uma função da exclusiva competência do Estado e sobre a qual só se têm ouvido responsáveis intermédios”. Presumo que estivesse a fazer a sua autocrítica depois de ter falhado um pronunciamento sobre o modo como o Governo actuou no sequestro do BES quando o PSD estava de férias e não as interrompeu. Se a insegurança no país preocupa a dr.ª. Manuela Ferreira Leite então devia ter vindo já há bastante tempo dar uma palavra de serenidade ao país. Uma palavra que teria tido todo o eco nacional que o PSD quisesse se, por exemplo, tivesse sido dita no comício do Pontal, que preferiu ignorar com os seus esfíngicos silêncios, que os indefectíveis defendem como obras-primas de “estratégia”. Aí poderia ter dito, por exemplo, que uma política de segurança nacional tem de ser isso. Nacional. Não pode ser objecto de guerrilhas partidárias, com tiros de pólvora seca a pedir demissões sem mais propostas. A política de segurança nesta crise tem de ser desinibidamente consensual, sem soluções pronto-a-vestir para problemas de extrema gravidade. Um desses seus incondicionais apoiantes, Vasco Graça Moura, escreve no “Diário de Notícias” que “toda a gente sabe que o Pontal não tem hoje importância nenhuma”. O dr. Graça Moura tem razão, como sempre. Só que a sua verdade é ainda mais ampla desta vez. De facto, toda a gente sabe que o PSD hoje não tem importância nenhuma ”

Mário Crespo in JN

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